“Agora a Preta Favelada vai falar”

É preciso respeitar as narrativas linguísticas que se criaram nas comunidades periféricas e se adequar a elas para politização e emancipação das comunidades

Por Crislayne Zeferina

 

Historicamente, o Brasil é um dos países que mais mata grupos  negros e indígenas e isso se deu através da ideologia de superioridades dos grupos humanos brancos, sobre os outros. A diáspora africana deixou e deixa muitas marcas no país. Essas marcas advêm do tráfico de escravizados negros e negras que, ao chegarem no Brasil viram suas culturas serem demonizadas, suas epistemologias e identidades criminalizadas, numo processo de “desafricanização”. Entre as práticas deste método, destaco a tortura identitária de rebatizar os escravizados com nomes cristãos.

Ao desembarcarem aqui, os negros vivos – pois muitos morriam no caminho – eram levados para a segunda violência psicológica que existiu, a primeira era o sequestro da sua própria terra e a segunda, o aniquilamento da sua identidade; a raspagem dos cabelos e a imposição da língua e da religião cristã. Essas violências supracitadas eram práticas de violências pioneiras no processo de formação da identidade, ainda desconhecida pelos brasileiros/as e escondida nos livros didáticos.

Um processo de tentativa de apagamento da memória do passado, na busca por doutrinar os corpos, as mentes e a espiritualidades do/as preto/as.

A obrigação que se impôs à população escravizada de usar a língua cristã europeia ensinada pelos padres jesuítas que se apresentavam como salvadores brancos, de olhos azuis, é um grande paradoxo. A mensagem que esta sociedade racista tenta nos implementar todos os dias é derivado do plano de embranquecimento que existe no país há séculos.:

A imposição de uma língua portuguesa como certa e de outra como errada nos faz pensar no processo de adaptação que o povo preto e periférico é obrigado aceitar, para estar e permanecer em determinados espaços para sua sobrevivência. O que a sociedade coloca como certa é a formalidade da oralidade e quando isso não acontece dá-se o nome de língua informal, mas a pergunta que se faz é: o que é formal? A quem se destina essa formalidade?

A formalidade me remete às amarras, às correntes, ao chicote, ao vira-mundo e à gargalheira, me lembrando sempre dos castigos que meu povo sofria quando não conseguia se adaptar aos costumes europeus e resistia só, lutando pelo direito de exercer e fazer respeitar sua própria cultura.

Assim foi por anos e anos até chegarmos às revoluções quilombolas e às pressões econômicas e políticas, que culminaram com a princesa Isabel decretando “o dia da abolição da escravatura”. Este dia é lembrando como uma vitória para uns e, para muitos, um dia de medo e terror nas ruas. O corpo marginalizado e escravizado estaria agora “liberto”. Mas cadê a libertação da princesa Isabel? As Marias não conheciam e não conhecem essa libertação.

Jogadas nas ruas sem direito a nada, depois de construir todo processo econômico e social do país, lá no alto estava a chamada favela, a nova esperança de milhares de ex escravizados. Ao subir as periferias, apresenta-se um novo quilombo, com afetos, brigas, empatia, gritos, sorrisos e muito choro. Das senzalas, as Marias foram para as favelas, sem qualquer estrutura e sem qualquer política de direitos para essas novas famílias quilombolas que estavam surgindo. Uma nova narrativa linguística foi construída, novas formas de trabalho foram sendo criadas, novas tecnologias sociais foram implementadas nas comunidades pelos próprios moradores e para os próprios moradores.

Séculos se passaram e aqui estamos nós, no meio do fogo cruzado, da direita conservadora, machista, homofóbica, racista, misógina e transfóbica, que tomou o espaço que lutamos após a ditadura militar, nos fazendo pensar em como deixar a luta pelo poder e priorizar a busca da luta pelo povo.

Muito se escuta dizer: “É preciso se voltar para a base”, mas pouco se fala em respeitar essa base, respeitar sua narrativa e sua história. As periferias não são mais as mesmas; a filha da faxineira virou professora e, o filho do seu Marcos, virou doutor. Isso se deu através de uma pressão do movimento negro desde a criação da primeira organização negra SPD (Sociedade Protetora dos Desvalidos) até os governos de hojes. Mas agora é preciso unificar e ouvir. É preciso sentar e aprender com seu João, tomar café com a Dona Maria, pois, a narrativa criada por nós (acadêmicos) não chegou na casa da Maria e muito menos na do João. Aliás, muito pelo contrário, escrevemos as histórias deles e não voltamos para formá-los e informá-los que eles mesmos podem reescrever suas próprias histórias e serem os doutores/as da família. A cautela e o diálogo são objetivos primordiais quando falamos sobre voltar para a base, lembrando que muitos de nós nem saímos.

Segundo Milton Santos, no livro Por uma outra Globalização: “gente junta cria cultura e, paralelamente, cria uma economia territorializada, uma cultura territorializada, um discurso territorializado, uma política territorializada. Essa cultura da vizinhança valoriza, ao mesmo tempo, a experiência da escassez e a experiência da convivência e da solidariedade”.

É preciso entender de qual base estamos falando e quais potências existem dentro dessas bases. O afeto é o primeiro passo para se criar vínculos, independente do papel de filiação, acompanhado de uma escuta sensível, pois as comunidades têm muito a ensinar e aprender. Lembrem-se: Formando um ser humano crítico desta realidade, desenvolvemos nesse mesmo ser humano a vontade de transformar sua realidade, um ser humano com pensamento politizado, com engajamento político e um cidadão que voltará a ter esperança no seu país.

Desta maneira, é preciso respeitar as narrativas linguísticas que se criaram nas comunidades periféricas e se adequar a elas para politização e emancipação das comunidades, pois a democracia ainda não chegou às periferias e se queremos fazer chegar temos que nos adequar às suas narrativas.

 

*Jovem, Negra, Favelada, Pedagoga, Moradora do Território do Bem, Presidente do Fórum Estadual de Juventude Negra, Presidenta do Conselho Municipal de Juventude de Vitória – COMJUV, Organizadora do Fórum de Juventude do Território do Bem, Secretária de Articulação do Conselho Estadual de Juventude do ES – CEJUV, Coordenadora Nacional de Juventude da Nova Frente Negra Brasileira – NFNB, Representante da Rede Nacional de Juventude Negra no ES – RENAJUNE, Líder e Articuladora da Saúde da Pastoral da Criança do Bairro da Penha, membra do coletivo Crias daqui e madrinha do coletivo Bonde da Praça.

 

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