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Amor que TRANSforma: quando famílias trans desafiam o ódio e vão na contramão da transfobia

Histórias de famílias transcentradas que se constroem no afeto e no cuidado, apesar das violações de direitos
Colagem: Patrícia Rosa

Por Jamile Novaes e Patrícia Rosa

O que define uma família? São os laços sanguíneos? A convivência debaixo do mesmo teto? Um documento firmado em cartório que ateste que “fulano” é o genitor de “beltrano”? Os conservadores diriam que a família é formada por um homem (cis), uma mulher (cis) e sua prole, e que qualquer outra configuração é ilegítima. 

Infelizmente, para grande parte das pessoas trans e travestis do Brasil, família é sinônimo de violência e exclusão, como aponta o Dossiê “Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2025”, produzido pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). O documento defende que a violência cotidiana, institucional e familiar produz adoecimento físico e psíquico contínuo, aumentando a exposição à morte precoce e a múltiplos agravos à saúde.

Mas neste 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans, não falaremos sobre isso. Porque embora a denúncia seja necessária, tão urgente quanto, é contar histórias que desafiam o ódio e vão na contramão da transfobia. 

Kaly e Arthur: quando família é resistência

“O conceito de família pra mim é resistência”. Esta é a definição de família para Arthur Guilherme, homem trans, pai do Noah e companheiro de Kaly Santos, uma mulher trans.

O casal de Feira de Santana (BA) compartilhou a história da família com força, brilho nos olhos e o pequeno Noah Oliver nos braços. O casal se conheceu em 2022, quando Kaly estava a trabalho e Arthur foi aproveitar a noite com amigos. “Uma conexão de almas” é como o casal define aquele encontro. Animados, eles contam que não se desgrudaram mais depois daquele dia, 15 dias depois começaram a morar juntos e construir a vida e os sonhos. 

Na época, ele evitava frequentar eventos da comunidade trans, por medo dos constrangimentos e violências: “eu não gostava nem de falar que eu era uma pessoa trans, por medo de violência”.

Para Kaly, o medo também fazia parte do cotidiano. Apresentar-se como uma pessoa trans vinha antes até mesmo do próprio nome, como uma armadura contra o mundo que, como ela mesma reconhece, “não protegeu de nada”. Juntos, o casal constrói uma relação marcada por amor e cumplicidade, mas atravessada também pela transfobia e despreparo da sociedade para o acolhimento. 

“Quero ter um garoto com os seus olhos”

O nascimento do pequeno Noah foi um divisor de águas na vida do casal, mas antes disso eles travaram uma grande batalha, primeiro para confiarem na possibilidade da gestação, depois para driblar o preconceito e a violência da sociedade. 

“Esse sonho ficou em stand-by, eu não enxergava essa possibilidade. Eu esqueci que esse sonho sempre estava dentro de mim, estava morto, por conta do que a sociedade faz com a mente da gente”, contou Kaly.

Arthur não acreditava que a gestação fosse possível após ter passado pelo processo de transição. Foi no encontro com Kaly e no amadurecimento do relacionamento que essa certeza começou a ser questionada. Juntos, o casal se preparou psicologicamente, buscou acompanhamento com endocrinologista, em razão do processo de transição vivido por Arthur, e se organizou financeiramente. Ainda assim, um dos desafios, que permanece até hoje, é enfrentar a transfobia, a invisibilização da família e a falta de preparo do poder público para acolher famílias trans.

“Eu queria muito ter um garoto com teus olhos, com teu sorriso; ela falou que também queria ter. E eu: ‘vamos tentar?’. Para o mundo, a gente sempre foi louco ao falar isso. As poucas pessoas que a gente conseguiu manter na nossa vida, após a transição, apoiavam a gente em tudo”, lembra Arthur.

O casal passou cerca de dois anos tentando engravidar, quando o positivo chegou ambos já estavam desacreditados da possibilidade de gerar um filho. “Foi no momento que a gente estava extremamente fragilizado por tudo, e aí do nada veio positivo.”

“Foi um inferno”

Sim, o que era para ser um período feliz para o casal e de preparação para a chegada do bebê, também se tornou longos nove meses lidando com uma sociedade transfóbica. Durante a gestação, Arthur pensou que não conseguiria chegar ao fim. “A sociedade conseguiu colocar na minha cabeça que eu era fraco demais e que eu não podia”, relata. Além disso, foram muitos erros de pronome, comentários violentos nas redes sociais, olhares nas ruas e atendimentos de saúde transfóbicos, que impediram um acompanhamento adequado de sua gestação.

O casal precisou custear atendimentos de saúde por medo dos atendimentos nos postos de saúde da cidade, pois eram maltratados e tinham serviços negados.

“Eu vim ter um pré-natal digno a partir de  seis meses. Por termos alguns contatos e amigos no Hospital da Mulher de Feira de Santana, um médico mobilizou a equipe de residentes e uma ala do hospital para nos receber. Ele nos apadrinhou e mantém contato conosco até hoje.”

A legislação brasileira prevê que as pessoas trans tenham direito ao nome e gênero respeitados em todos os serviços públicos, inclusive na saúde. De acordo com as notas técnicas nº 242 e nº 243 do Ministério da Saúde, mesmo quando o nome civil ainda não foi retificado, o uso do nome social é obrigatório em órgãos públicos. Isso significa que nenhuma pessoa trans precisa apresentar documentos para ser chamada pelo nome social em serviços públicos.

Mesmo após a retificação do nome, Arthur sofreu transfobia ao ser chamado pelo nome morto em um atendimento público de saúde da cidade. Kaly relata a dor de ver o companheiro passando por tamanho constrangimento e violência, na necessidade constante de oferecer força e apoio. Hoje, Kaly e Arthur se olham e se acolhem ao lembrar do quanto foi pesado, mas alertam que esse tipo de abordagem não terminou com o fim da gestação. “A gente passa por isso o tempo todo”, alerta Kaly.

Por diversos momentos da conversa, as dores do enfrentamento à transfobia são amenizadas pelo casal ao terem o pequeno Noah nos braços. “Faz com que todas essas dores enormes não sejam nada”. Ao falar sobre o futuro e sobre o Dia da Visibilidade Trans, o desejo dos dois é que todas as famílias trans sejam visíveis e não vivam escondidas.

“Eu quero amar minha travesti em voz alta, em praça pública, para as pessoas saberem, porque o amor é para ser falado, é para ser vivido. Se a minha família, se o meu amor te violenta, tem algo errado com você. Eu quero que a minha família seja exemplo”, afirma Arthur.

Para o futuro, o casal sonha com estabilidade, em oferecer uma vida tranquila e dar o melhor para o pequeno Noah. Arthur pensa em voltar à faculdade de Logística e sonha que sua companheira também possa retomar o ensino médio. “A transfobia tirou ela do ensino médio. Então, futuramente, eu quero poder proporcionar para ela tudo o que ela não teve e proporcionar para o meu filho tudo o que ele merece”, sonha Arthur.

Kaly deixa um recado para outras mulheres trans e travestis que sonham com a maternidade:

“Para as meninas como eu, que sonham em ser mães e acham que isso não vai passar de um sonho. Isso não vai diminuir vocês enquanto mulheres, pelo contrário, vai tornar vocês ainda mais incríveis. Não desistam por causa da sociedade. A sociedade não é nada quando você vivencia a grandeza dessa felicidade, no final das contas.”

Um encontro casual que virou projeto de vida

Era fevereiro de 2023, quando Alice Victoria Santiago Damasceno e Miguel Damasceno se conheceram num barzinho em Feira de Santana (BA), através do casal de amigos Kaly e Arthur. “A gente começou a ‘ficar’ nesse dia. Dois dias depois, ele foi me ver na porta do trabalho. Sete dias depois, a gente começou a dormir junto e nunca mais parou”, conta Alice com um sorriso largo.

Depois de dois meses, eles já estavam morando juntos e em menos de um ano começaram os preparativos para o casamento.

“A gente deu entrada nos papéis e foi uma burocracia ‘retada’. Alice vendia salada de fruta no trabalho, eu fazia coquinhos queimados para vender. Começamos a juntar dinheiro, Alice foi atrás de parceria e a gente casou em dezembro”, relembra Miguel.

Na foto, o casal aparece em um momento descontraído durante sua festa de casamento.

A partir dali, iniciava uma jornada que marcaria uma virada de chave em suas vidas. Além do desejo de casar e formar uma família, Alice tinha outro sonho adormecido: seguir caminho na vida acadêmica. Logo no início de 2025, ela tomou conhecimento do Processo Seletivo para Promoção da Diversidade e Inclusão na Graduação (ProceD) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) – um edital especial direcionado a Indígenas Aldeados(as), Moradores(as) das Comunidades Remanescentes dos Quilombos e Pessoas Trans.

Ela já atuava como influenciadora digital e enxergou no curso de comunicação um campo aberto para aprimorar suas habilidades. A aprovação veio – desafiando a estatística que revela que apenas 0,02% das pessoas trans conseguem acessar o ensino superior – e, junto com ela, o planejamento para mudar de cidade e de vida. O casal abriu mão da estabilidade proporcionada por seus empregos CLT e decidiu se arriscar para viver daquilo que fazia seus olhos brilharem. “A gente veio para Cachoeira (BA), eu juro pra você, com R$40 no bolso. Eu chorava o caminho todo, porque nunca tinha ido para longe da minha mãe e da minha irmã”, conta Alice.

R$ 40 e um sonho

Foi assim que encontraram a casa que fariam de lar. “Era 15 de fevereiro e as aulas de Alice iam começar dia 10 de março. Então foi o tempo da gente ‘fazer’ o dinheiro do aluguel”, explica Miguel. A necessidade de ganhar dinheiro rápido fez com que os sonhos de Alice e Miguel passassem a se retroalimentar. “Foi quando eu voltei a fazer as minhas coisas. Costurei um bocadinho de ecobag, Alice saiu pra vender e deu tudo certo”, conta ele, que é artesão, mas estava há algum tempo sem exercer a sua arte, enquanto trabalhava numa empresa onde era alvo de transfobia e microviolências diárias.

Aluguel pago e mudança feita, chegava o primeiro dia de aula de Alice, um acontecimento que mobilizou todo o seu núcleo familiar. Seu companheiro, mãe e sogra fizeram questão de acompanhá-la e buscá-la na universidade. Assim iniciava um semestre de muita correria e perrengue financeiro, mas também de muito apoio mútuo. Miguel passou a trabalhar como moto táxi e, na universidade, Alice vendia doces e salgados feitos por sua mãe.

Em 2025, o casal decidiu recomeçar a vida em uma nova cidade, onde poderiam firmar a sua família e realizar os seus sonhos.

Com a chegada do segundo semestre de 2025, oportunidades se abriram no caminho do casal. Alice passou a receber auxílio moradia da universidade e se tornou bolsista pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Para Miguel, era o momento de focar na sua arte e, finalmente, poder viver dela. Ele começou a produzir e expor seus trabalhos em feiras de economia solidária, contando com a ajuda, empolgação e divulgação de Alice. 

O templo de Alice e Miguel

Atualmente, o casal segue vivendo em Cachoeira, cada dia mais convictos de que fizeram as escolhas certas e de que não haveria outro lugar onde gostariam de estar. A casa de Alice e Miguel se tornou um lar que acolhe suas dores e impulsiona seus sonhos. 

É nesse templo que eles reúnem amigos e família, e foi onde receberam a Afirmativa para compartilhar um pouco da sua intimidade. Alice lembra que quando era criança tinha uma tia favorita a quem adorava visitar. Ela avalia que hoje, para as crianças da sua família, sua casa se tornou esse espaço onde podem passar os feriados e datas comemorativas.

“Miguel tem quatro sobrinhas que amam ficar com a gente. Elas chegam aqui e é uma farra, eu sou apaixonada. Esse acolhimento, para mim, define o que é família”, afirma.

 

Alice e Miguel transformaram sua casa em um lar que recebe e acolhe toda a família. Na foto, o casal aparece acompanhado de suas respectivas mães durante sua festa de casamento.

Assim como Arthur e Kaly, Alice e Miguel também pretendem se tornar pais e já tentam engravidar por métodos naturais, apesar da apreensão por conta da repercussão que a gestação de um homem pode ter em uma cidade pequena. No entanto, eles acreditam que as coisas tendem a acontecer no tempo certo e cogitam a possibilidade de recorrer à fertilização ou algum outro procedimento.

Nas redes sociais, onde reúne quase 70 mil seguidores, Alice compartilha o cotidiano da casa, a arte de Miguel e as conquistas do casal, mostrando para quem quiser ver, como o afeto e a cumplicidade definem, na prática, o que é família.

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