O grupo ainda se refere, em nota, ao projeto de bolsas para graduação como se não fosse fruto de acordo de R$ 115 milhões para ações de “combate ao racismo” após a morte de João Alberto, em novembro de 2020

Por Daiane Oliveira

Imagem: Reprodução

Na última sexta-feira (7), a professora Isabel Oliveira denunciou ser vítima de racismo dentro de uma unidade do mercado da rede Atacadão, do grupo Carrefour, em Curitiba (PR). Um dia após, no sábado (8), o artista negro Vinicius de Paula, marido da jogadora da seleção brasileira de vôlei Fabiana Claudino, gravou um vídeo onde denunciava o racismo que sofreu na loja do Carrefour em São Paulo.

A professora Isabel Oliveira foi seguida por um segurança dentro do estabelecimento durante uma ida à unidade. Horas mais tarde, no mesmo dia, voltou para finalizar suas compras, só que dessa vez ficou apenas de calcinha e sutiã, para mostrar que não estava furtando. Em um vídeo é possível ouvir a professora questionando a um atendente se é uma ameaça.

“Sou uma ameaça? Quando eu vim vestida, havia um segurança atrás de mim. Eu voltei, agora nua, para levar a latinha de leite para a minha bebê e mostrar que não estou roubando nada”, disse. A professora Isabel registrou um boletim de ocorrência e prestou depoimento. A Polícia Civil do Paraná abriu um inquérito para investigar a denúncia.

O artista Vinicius de Paula, através de uma rede social, denunciou que teve o atendimento negado em um caixa que era preferencial, ainda que não houvesse nenhuma pessoa para atendimento preferencial no momento. Já uma cliente branca, que também não estava entre os critérios de prioridade, foi atendida normalmente. Em vídeo, acompanhado do advogado, Édio Silva Júnior e da companheira, a atleta Fabiana Claudino, Vinicius reforça que haverá ação judicial.

Vinicius de Paula, que é diretor artístico, cantor e apresentador, filho do cantor e apresentador Netinho de Paula, reforça nas redes sociais que apesar de ser a vítima nesse novo caso, não é apenas sobre ele. “Quando digo que chorei no carro, é um choro de dor, de raiva. Isso aconteceu comigo, que de alguma forma tenho notoriedade. Imagina o tanto de gente que passa por isso todos os dias e não tem suas vozes ouvidas. Isso tudo não será só por mim!”, escreveu.

Em nota o Carrefour informa que “metade dos nossos 150 mil colaboradores são negros. 40% da liderança são pessoas negras. E queremos mais. Criamos o Poder, um programa de crescimento inédito interno aberto a todos os colaboradores negros”, utilizando a velha estratégia da branquitude de “não sou racista, tenho até amigos e funcionários negros.”

A nota violenta do Carrefour diante da repercussão dos novos casos de racismo

A nota traz que metade dos funcionários são negra, na tentativa de apontar uma distorcida igualdade, sem reconhecer ainda que os funcionários seguem políticas da empresa aprovadas pela diretoria. Embora, possam haver ações acerca do tema, os novos casos de racismo demonstram que a Carrefour está longe de ser antirracista. 

O grupo menciona ainda o projeto de bolsas de graduação, mestrado e doutorado para pessoas negras, sendo que são ações articuladas como Termo de Ajustamento de Conduta após o assassinato de João Alberto, em novembro de 2020. “Com a Universidade Zumbi dos Palmares teremos o primeiro curso para agentes de segurança antirracistas, além do Programa Racismo Zero”, informa o grupo.

O assassinato de João Alberto Silveira em 2020  

Diante das novas denúncias e do histórico de racismo do Carrefour, o presidente Lula (PT) lembrou durante reunião ministerial, na segunda-feira (10), que não é o primeiro crime de racismo do Carrefour e declarou que “a gente não vai mais admitir o racismo”. O grupo Carrefour é uma empresa estrangeira, multinacional de origem francesa.

“Queria dizer para a direção do Carrefour, que se eles quiserem fazer isso em seu país de origem, que façam, mas nesse país aqui, a gente não vai admitir o racismo e o que essa gente tenta impor ao Brasil”, disse o presidente sem mencionar quais ações concretas tomaria.

Em novembro de 2020, na véspera do Dia da Consciência Negra (celebrado todo 20 de novembro), um homem negro, João Alberto Silveira, conhecido como Beto, foi assassinado por seguranças dentro de um mercado Carrefour, em Porto Alegre. As entidades Educafro e o Centro Santos Dias de Direitos Humanos processaram o grupo e, no ano seguinte, fecharam um acordo judicial de R$ 115 milhões com a empresa. O dinheiro foi destinado para políticas contra o racismo.

O atual ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil, Silvio Almeida, na época participou de um comitê externo a convite do Carrefour após o assassinato de Beto. Em uma rede social, o intelectual Silvio almeida disse que “a ideia a mim apresentada, o Comitê serviria para, de forma independente, propor medidas para que violências como a que tirou a vida de João Alberto não mais aconteçam”. Os casos do último fim de semana demonstram que os casos de racismo dentro das lojas do grupo francês, permanecem acontecendo.