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Do outro lado do espelho: como a autoestima atravessa pessoas negras?

Como questões estéticas, cosméticas e mercadológicas impactam na construção da autoimagem de pessoas pretas
Imagem: Canva

Por Matheus Souza

Assunto sempre em alta e parte indispensável de uma vida saudável e plena, o que chamamos de autoestima é um conjunto complexo de aspectos emocionais, sociais e psicológicos. Eles guiam nossa autoavaliação enquanto seres humanos em nível estético, moral, profissional, afetivo e fisiológico.

Historicamente, a autoestima, enquanto aspecto benéfico, é um privilégio de pessoas brancas. Muito do que aprendemos a entender como belo, bom, positivo e interessante vem de um referencial europeu, graças ao processo violento de colonização e a imposição das características físicas, sociais e culturais do colonizador como padrão a ser seguido.

Essa avaliação aparentemente subjetiva é fortemente atravessada por componentes externos, influenciada por fatores políticos, sociais, culturais e financeiros. Como alguém se enxerga depende diretamente do meio, e do contexto, onde essa pessoa está inserida. Sendo assim, a autoestima é uma construção social. 

Pessoas negras, e outros grupos racializados, passaram por um processo longo, e ainda em continuidade, de fragilização da autoestima. Longe do referencial estabelecido, esses indivíduos são relegados ao papel de desumanização – negação de suas características como belas – ou de objetificação – resumidos aos seus corpos. O racismo que se esconde por trás da baixa autoestima encontra muitos caminhos, atingindo não só a aparência, mas também a capacidade dessas  pessoas se enxergarem como talentosas, inteligentes e capazes.

A psicóloga Laíse Brito, especializada em cuidar da saúde física e mental de populações historicamente atingidas pelo problema, como a população negra, indígenas e a comunidade LGBTQIA+, explica que um dos principais efeitos do racismo sobre a autoestima negra é  afetar diretamente a autopercepção dessas pessoas enquanto indivíduos.

“O racismo é um crime quase perfeito, pois ele macula a imagem do negro para si. Uma coisa é o que eu vejo, outra é o que dizem para mim. Mais de 80% das pessoas que atendo são negras, e elas chegam se achando feias, não só sobre aparência, mas não se sentindo potentes e nem competentes, e consequentemente não se sentindo bonitas”, diz.

Pressão Estética

Imagem: Divulgação

No que vai chamar de uma “lógica de espelho quebrado”, Laíse conta que vivenciou essa dor na própria vida, tendo crescido ouvindo ofensas aos seus traços e levando muito tempo para se enxergar como uma pessoa bonita enquanto mulher negra. “Foi depois dos meus 25 anos que tive finalmente coragem de usar um batom pela primeira vez. Eu cresci ouvindo essa animalização, que minha boca era grande, feia, de jegue.”

O relato não é diferente da realidade de muitas pessoas negras, que são expostas desde muito novas à uma sociedade hostil a sua aparência, costumes e peculiaridades. Até mesmo atividades triviais, como uma ida à loja de roupas, pode se tornar um evento traumático na construção e percepção da própria identidade.

A pesquisa “O que falta para reinar? As dimensões do consumo afro-brasileiro” produzida pela Globo em 2023, revelou que 79% dos consumidores negros acreditam que vivenciar situações de discriminação racial no momento das compras impacta diretamente na sua saúde mental e autoestima. As mídias e redes sociais também são grandes responsáveis na construção da imagem que o corpo negro tem para a população geral e a própria comunidade. 

Laíse Brito explica que apesar da representatividade estar mais presente nos veículos de comunicação e ambientes virtuais atualmente, tais representações seguem um padrão estético muitas vezes impossível de emular, contribuindo negativamente para a autoestima do público que visa atingir. 

“As mídias sociais e os veículos de comunicação muitas vezes até colocam pessoas pretas na tela, mas a partir de um padrão estético fantasioso. É sempre um corpo magro, que passou por vários procedimentos estéticos, que performam descanso, lazer, e conquistas materiais”, opina a especialista. 

Essas representações podem colocar pessoas negras em um processo de comparação, dinâmica comum no ambiente virtual, podendo levar à uma percepção negativa de si. “É um corpo que tenta ser hegemônico, padrão, apagar as outras possibilidades de ser, que violenta o corpo real.” 

Mercado da Beleza

A pressão pela aparência ideal, impulsionada hoje fortemente pelas mídias sociais, faz com que a procura de pessoas negras por tratamentos estéticos e cuidados com a pele aumente, porém a demanda não acompanha o mercado. Uma pesquisa publicada pela DREAM (Driving Racial Equity in Aesthetic Medicine) intitulada “Forces of Beauty” mostra que mulheres negras possuem acesso mais restrito a tratamentos estéticos devido à falta de especialização e treinamento adequado de profissionais da saúde com a pele preta. 

Ainda segundo o relatório, cerca de uma em cada quatro mulheres negras, latinas e multirraciais reconhecem os padrões de beleza da sociedade como racistas. Aproximadamente 96% das entrevistadas afirmaram que a autopercepção da beleza influencia diretamente na forma como se sentem. Esse desafio é ainda maior entre mulheres negras, que muitas vezes não se veem representadas em campanhas publicitárias ou não encontram tratamentos estéticos específicos para os seus tons de pele.

Andrea Santana, farmacêutica clínica e esteticista, membro do Conselho de Farmácia do Estado da Bahia (CRF-BA), possui uma clínica de estética avançada em Salvador e trabalha diretamente no gerenciamento de peles negras. “Trabalho com a autoestima de mulheres negras, meu propósito vai muito além de ganhar dinheiro. Meu proposito é ver nós, negros, em um lugar de cuidado.” 

A esteticista conta que atende um público majoritariamente negro, com forte presença de mulheres acima dos 40 anos e homens, que procuram cada vez mais pelo autocuidado. “Já é cientificamente comprovado que uma autoestima elevada faz a gente viver melhor, com um convívio social mais saudável”, explica. 

Andrea revela que o desejo em se especializar pelo cuidado de pessoas negras vem desde a faculdade, onde, apesar do interesse pelo assunto, percebeu que havia uma lacuna nos estudos a respeito de tratamentos e cosméticos para este público. “Durante a pós-graduação em estética avançada, ninguém sabia responder minhas dúvidas a respeito do cuidado com a pele negra. Só davam respostas genéricas, ‘que tem que cuidar, tem que observar’. Nunca havia respostas concretas”, conta.

Segundo a especialista, a pele negra possui cuidados específicos e algumas particularidades, como facilidade para manchas, pele oleosa e acne. A partir de atendimentos na sua clínica, Andrea criou o projeto “Da Pele Preta”, voltado para mulheres de baixa renda ou em vulnerabilidade social que queiram cuidar da aparência. 

A psicóloga Laíse Brito, explica que cuidar da saúde mental também é parte fundamental na construção da autoestima. “[É preciso] fazer um movimento de entender que saúde mental é saúde em outras esferas da vida. Saúde é uma série de coisas e é construída coletivamente, e saúde coletiva é estar com as nossas pessoas de segurança. Ir ao samba, ao sol, também é construir saúde. Construir relações é também saúde”, finaliza.

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