Três amigos curtiam a noite no estabelecimento, quando foram acusados de roubar um aparelho celular; a mulher que os acusou também aparece em vídeo fazendo suposto gesto supremacista.

Por Andressa Franco

Imagem: Divulgação Bombar

Mais uma vez, o Bombar, bar localizado no bairro Rio Vermelho, em Salvador (BA), foi cenário de um episódio de racismo. O caso que repercutiu nas redes sociais nos últimos dias aconteceu no dia 19 de janeiro, quando a produtora cultural Larissa Martins, de 35 anos, foi acusada de furto no estabelecimento. Larissa veio de Barreiras, no oeste baiano, com dois amigos para passar férias na capital do estado. 

Em entrevista ao BNews, a produtora contou que ela e os amigos estavam pedindo bebidas no balcão do Bombar, quando uma mulher branca a empurrou. Diante disso, Larissa conta ter conversado com uma das amigas que acompanhava a responsável pelo empurrão, pedindo cuidado uns com os outros para ninguém se machucar, visto que a casa estava lotada. Como resposta, a mulher disse que a responsável pelo empurrão estava bêbada.

Quando uma discussão começou a se formar no local, os grupos se separaram. Mas, segundo a produtora, cerca de 40 minutos depois um segurança a abordou, alegando que ela havia sido acusada de furto. Em seu relato, Larissa afirma ainda que o segurança que a parou não estava com nenhuma identificação, fardamento ou crachá. “Observei que era um segurança porque ele estava com um rádio na mão. Aí ele falou da seguinte forma: ‘eu quero que vocês desçam agora, me acompanhem agora’. Foi um cara super deselegante, super mal-educado, falou de uma forma muito grosseira”, disse ao portal.

Constrangida diante da abordagem, que chamou atenção das pessoas, Larissa e seus amigos acompanharam o segurança. No andar de baixo, foram informados que a segurança foi acionada devido ao sumiço de um aparelho celular, que aconteceu depois de uma confusão. A produtora se defendeu, garantindo que ela e seus amigos não foram os responsáveis. “Eu comecei a gritar para todas as pessoas que estivessem ao redor, que as pessoas conseguissem ver o que estava acontecendo.”

Para provar sua inocência, Larissa abriu a pochete que estava utilizando, e tirou todos os seus pertences. “Falei para eles que se elas acusaram, elas tinham que estar também presentes no momento. E foi aí que gerou uma confusão, onde outras pessoas também se envolveram, pessoas que a gente nem conhece. E foi aquele empurra-empurra, a galera em cima e todo mundo gritando ‘racista'”, lembra a produtora, que também declarou ao portal que a mulher que a acusou fez um gesto de “supremacia branca”.

O gesto em questão, registrado em vídeo, pode ser interpretado como o símbolo supremacista “White Power” (“Poder Branco”), quando a junção dos dedos polegar e indicador em um círculo formam um P, enquanto os outros três dedos ficam esticados, formando um W. O gesto é classificado como racista pela Liga Anti-difamação dos Estados Unidos, ONG de direitos civis.

Pronunciamento do Bombar

Diante da repercussão, o Bombar se pronunciou em nota através de suas redes sociais na última segunda-feira (29). O estabelecimento garantiu “ter prestado toda a assistência a fim de inibir, coibir e solucionar situações que possam ser tipificadas como crimes de qualquer natureza”.

O comunicado continua alegando que a parte acusadora não foi chamada ao andar de baixo para evitar situação de risco físico. “A intenção imediata do Bombar foi de resolução à situação sem causar nenhum constrangimento às vítimas”, completa.

O estabelecimento detalha ainda que incentivou as partes a comparecerem imediatamente à delegacia, munidos de provas testemunhais e registros de câmera para registrar Boletim de Ocorrência, mas as partes denunciantes se recusaram, “nos colocando em situação de prestação total de suporte e auxílio, mas sem acompanhamento legal.” O bar conclui a nota se mantendo à disposição para prestarem depoimento na delegacia como testemunhas do ocorrido. Além de terem posse das imagens das câmeras de segurança para encaminhamento à polícia, “mediante o protocolo de ocorrência e ordem judicial, algo que ainda não foi realizado por nenhuma das partes.”

No entanto, em entrevista ao BNews, Larissa apresentou o B.O., desmentindo a alegação da casa noturna. A Polícia Civil informou em nota que a 7ª Delegacia Territorial do Rio Vermelho “investiga a injúria racial”. A oitiva das vítimas, afirma a corporação, será realizada na unidade policial e imagens de câmeras de segurança do local serão recolhidas para ajudar na investigação.

“Pessoas pretas, esse lugar não é para vocês”

As acusações de racismo por frequentadores do Bombar e seguranças do estabelecimento não foram uma surpresa para grande parte dos internautas, que reagiram à nota de posicionamento nas redes sociais. 

“Não me surpreende em nada, só bar de branco acontece essas coisas”, comentou um perfil no post feito no Instagram do bar. “A gente precisa entender que esse é um local elitista que usa pessoas pretas pra dizer que ‘todes’ são bem vindos”, argumentou outro.

“Mais um caso de racismo no bombar em menos de 4 meses? O que será que há de errado? Será que não é um lugar seguro para pessoas pretas que no meio do seu lazer teriam que ir a uma delegacia? Pessoas pretas, esse lugar não á para vocês”, questionou um terceiro.

“Não é a primeira vez, e nem vai ser a última. Já aconteceu comigo, fui empurrada contra o portão pelo segurança. E como tentativa de cuidado ou conciliação uma das sócias me ofereceu entrada e consumação free no próximo evento. Agiram errado! A parte acusada coincidentemente era preta né?”, “Fui uma única vez e fui barrada por um segurança. Não volto mais!”, “Nenhuma novidade… Eu realmente só vou nesse lugar cercada de muita gente e com um motivo muito especial, depois que fui segurada pelo braço por um segurança… Zero novidades aqui”, foram alguns dos relatos também encontrados nos comentários da publicação do Bombar.

Em julho de 2023, um estudante de administração, Pedro Paulo Docílio, comemorava o fim do semestre com mais três amigos no bar, até que a noite foi interrompida por um caso de injúria racial. Em entrevista ao Correio 24h, o jovem de 21 anos contou que estava na fila do banheiro, quando uma mulher se aproximou e ofereceu sua bebida a ele e outro de seus amigos, porque não beberia mais. Eles aceitaram e, ela lhes passou o copo. No entanto, logo depois, a mulher que estava com ela estapeou a mão de seu amigo, derrubando o copo no chão, pegou o copo e arremessou na parede. 

“[…] Em nenhum momento, nesse primeiro contato que a gente teve com a primeira garota, a gente desrespeitou ela. O único contato que a gente teve foi o de dizer: ‘pode deixar aqui que a gente bebe’, e ela passou o copo. A gente não entendeu aquela cena, simplesmente voltamos a conversar. Queríamos esquecer aquela cena”, contou o jovem.

Mas as ofensas continuaram. A mesma mulher, lembra, se voltou para ele, falando que ele “se acha porque é negro”, o rapaz conta ter pedido respeito, e voltado a interagir com os amigos. Pouco depois, a mulher o abordou mais uma vez, dizendo “a diferença entre você e eu é que você é preto e eu sou branca”, e lhe deu um tapa no rosto.

Na época, o Bombar também se pronunciou em nota, afirmando ser um bar que trabalha muito a diversidade. “Desde a sua equipe de gestão até o seu corpo de trabalho e o público que frequenta, isso é escancarado. Tem registro de todos os lugares da não-aceitação a qualquer tipo de LGBTfobia, transfobia, racismo e assédio às mulheres. Isso é uma política do Bombar.” O estabelecimento informou ainda ter disponibilizado todo material necessário para a investigação às autoridades.

A denúncia foi registrada na Central de Flagrantes de Salvador, e a apuração foi iniciada pela 7ª DT/Rio vermelho.