Exposição a temperaturas elevadas podem resultar em exaustão, câimbras, fadiga, dor de cabeça, diminuição da concentração, produtividade, capacidade de trabalho, estresse térmico,  redução da redução da fertilidade masculina e até a morte

Por Karla Souza e Patricia Rosa

Imagem: Shutterstock

Um estudo feito por pesquisadores brasileiros e portugueses, de instituições como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade de Lisboa e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), revelou que os impactos abruptos das altas temperaturas resultaram em 48 mil óbitos no Brasil, entre os anos de 2000 e 2018. As comunidades mais suscetíveis a esses impactos são aquelas com menor nível de escolaridade, pessoas negras, idosos e mulheres.  

A análise foi feita em 14 capitais brasileiras: Manaus (AM), Belém (PA), Fortaleza (CE), Salvador (BA), Recife (PE), São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Curitiba (PR), Florianópolis (SC), Porto Alegre(RS), Goiânia (GO), Cuiabá (MT) e Distrito Federal (DF). 

Os dados inéditos foram publicados no último dia 24 de janeiro, no periódico científico Plos One. A pesquisa aponta que no mesmo período o número de fatalidades das altas temperaturas é 20 vezes maior ao número de mortes ocasionadas por deslizamentos de terra. Entre os principais fatores responsáveis pelas mortes, estão as doenças do aparelho circulatório e respiratório e as neoplasias.

Disparidades de idade, gênero e raça entre as vítimas

Os cientistas categorizaram os dados das vítimas fatais de altas temperaturas, considerando idade, sexo, grupos sociais, raça e nível educacional. Entretanto, excluíram os dados de Salvador e Florianópolis, pois o número de mortes nessas metrópoles era relativamente baixo entre 2000 e 2018 (menos de 300 mortes), o que tornaria os resultados estatisticamente menos confiáveis ao analisar os diferentes grupos.

No quesito idade, a pesquisa apontou que o excesso de calor atingiu cerca de 94% dos idosos com mais de 65 anos, dado que contrasta com o total de mortes naturais, que representam menos de 60% no mesmo período de 2000 a 2018. Enquanto no ponto gênero, as mulheres foram as mais afetadas, com taxas de morte de 1,15 a 1,36, já os homens de 1,07 a 1,23.

As taxas são relacionadas ao excesso de calor (EHF), um índice utilizado para identificar e classificar ondas de calor com base na frequência, duração e intensidade. O EHF é calculado a partir de dois índices: o índice de significância (EHI sig) e o índice de aclimatação (EHI acl). As taxas de mortalidade são estimadas com base na razão de mortes observadas e esperadas (O/E), considerando o número de óbitos durante os eventos de ondas de calor em comparação com os períodos semelhantes, mas sem eventos de calor. Valores superiores a 1 indicam excesso de mortalidade.

Pessoas negras, especificamente aquelas com mais de 65 anos, são mais afetadas pelo calor extremo, com taxas de impacto entre 1,33 e 2,30; enquanto para pessoas brancas, esses números variam entre 1,16 e 1,44. Em Manaus, Belo Horizonte e Curitiba, a disparidade racial é mais notável, entre os homens brancos o calculo é de 1,24 e 1,31, para negros a taxa é de 1,46 e 2,37. Em Cuiabá, as mulheres negras são particularmente afetadas, com uma taxa de 3,25, as mulheres brancas foram atingidas em 1,60 no estado.

Raimundo Nascimento, geógrafo, mestre em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UESB) e ativista, explica que o retrato das vítimas fatais do calor está intrínseco ao processo histórico do Brasil, uma construção que perpetua a vulnerabilidade das populações negras e indígenas tanto em áreas urbanas quanto rurais. O pesquisador afirma que o racismo ambiental é cotidiano na sociedade brasileira.

Raimundo Nascimento, geógrafo, mestre em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UESB) – Imagem: Reprodução Facebook

Para ele, os trabalhadores informais e as populações historicamente excluídas são os menos responsáveis pelas mudanças climáticas, mas paradoxalmente os mais suscetíveis aos impactos do calor. O trabalho em condições de forte calor pode resultar em sobrecarga térmica, colocando esses trabalhadores em risco ocupacional e desencadeando problemas de saúde, temporários ou permanentes, podendo evoluir para casos fatais. 

2023: Temperaturas bateram recordes no Brasil e no Mundo

Em 19 de novembro de 2023, a pequena cidade de Araçuaí (MG) registrou a temperatura mais alta da história do Brasil, 44,8ºC, conforme informações do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). O recorde aconteceu antes mesmo do início do verão daquele ano, que iniciaria-se um mês depois, em 22 de dezembro.

De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), 2023 foi o ano mais quente da história do planeta. No Brasil não foi diferente, segundo o Inmet, 2023 foi o ano mais quente da série histórica que iniciou em 1961. A média de temperatura foi de 24,92ºC, sendo 0,69°C acima da média histórica de 1991/2020, que é de 24,23°C. O país passou por nove episódios de onda de calor, atribuídos pelo Instituto ao impacto do fenômeno El Niño, como é chamado o aquecimento acima da média das águas do Oceano Pacífico Equatorial. 

Sul do Pará, Mato Grosso, sul de Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul, áreas de Minas Gerais, Goiás, Bahia, Pernambuco e Ceará, registraram as temperaturas mais altas.


Saúde dos trabalhadores e o desafios da exposição a altas temperaturas

Trabalhadores que exercem suas atividades ao ar livre, como agricultores, construtores, vendedores ambulantes e outros profissionais, enfrentam desafios significativos devido às altas temperaturas. O calor intenso, não apenas compromete a saúde física, mas também impacta o desempenho e o bem-estar no ambiente de trabalho.

A exposição prolongada ao calor extremo, aumentam os riscos de problemas de saúde como exaustão, desidratação, câimbras musculares e insolação. O artigo “Impactos das Mudanças Climáticas nas Condições Laborais no Final do Século XXI” ressalta que a exposição a temperaturas extremas, juntamente com fatores como umidade e radiação solar, podem resultar em efeitos adversos, podendo até mesmo levar ao óbito. 

Quem vivencia bem o que apontam os dados é Ricardo Vieira e Silva, morador de São Gonçalo (RJ), cujo caminho se entrelaçou com o trabalho à beira-mar desde 2015, onde é vendedor de camarão nas praias do Rio de Janeiro.

Quando perguntado sobre o impacto das condições climáticas extremas em seu trabalho, Ricardo admite sentir a diferença nas temperaturas ao longo dos últimos anos. “Nos últimos anos, senti uma temperatura muito diferente. Por vezes, tive que parar em uma barraca na areia e tomar um banho de mar para me refrescar, pois o calor estava realmente intenso.”

Ricardo Vieira e Silva é vendedor de camarões nas praias do Rio de Janeiro – Imagem: Arquivo Pessoal

Além do “banhozinho” de mar para refrescar, o vendedor comenta que bebe muita água, e usa boné e camisa UV para se proteger do calor. No entanto, o protetor solar ainda é uma questão. “Esse é o meu desafio na areia da praia de Copacabana. O calor é intenso, e nem sempre consigo aplicar o protetor como deveria.”  

Jémison Mattos dos Santos é doutor em geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e Universidade de Coimbra (UC) e chama atenção para o fato que as ondas de calor e de temperaturas elevadas impactam a vida dos trabalhadores de forma intensa. Em meio a esse cenário climático delicado, Jémison dos Santos argumenta que somos testemunhas de um movimento silencioso que se desenrola ao longo de décadas, relacionado às mudanças climáticas, e que teve uma aceleração notável nos últimos 40 anos. Para ele, o foco central desse desafio global reside no aumento médio da temperatura do planeta.

Imagem: Arquivo Pessoal

As mudanças climáticas são alterações provocadas a longo prazo, ressaltando que nos últimos 150 anos o planeta teve sua temperatura aumentada de maneira expressiva. “O planeta está ficando mais quente e em algumas regiões, como a gente costuma dizer, a chapa vai esquentar muito mais”, prevê Jémison.

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