População relata ausência dos órgãos públicos em bairros extremamente afetados, sentimento de ‘desespero coletivo’ e cenário ‘pós-guerra’

Por Andressa Franco

Imagem: Diego Nigro – METSul Metereologia

Contabilizando 107 mortos e 5 mil desabrigados, a população de Recife (PE) tem vivido um pesadelo com as fortes chuvas que tiveram início na última sexta-feira (27). A maioria das mortes e desaparecimentos ocorreu por conta de deslizamentos de terra.

Apesar do boletim de alerta emitido com dois dias de antecedência pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), órgão federal ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, a prefeitura da capital pernambucana esperou a Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac), informar a previsão de chuva intensa para acionar o plano de contingência. O que só ocorreu na própria sexta-feira (27), horas antes da tragédia.

Para Larissa Santiago, coordenadora do Blogueiras Negras, o fato de a cidade ter uma geografia atravessada por rios, conhecida inclusive como Veneza Brasileira, torna injustificável não ter havido prevenção da tragédia.

“Todo mundo sabe que todos os anos Recife recebe um volume de chuva que a cidade não comporta. Isso faz parte de um histórico de construção urbana que não tem um projeto de estado capaz de gerir bem o saneamento básico da cidade”, afirma.

Tragédia Anunciada

A ausência de uma política sistemática de gestão no governo do estado e na prefeitura do Recife para mitigação desses problemas, é algo apontado também pela vereadora Dani Portela (PSOL). De acordo com a parlamentar, constantemente na cidade são feitas obras de drenagem de canais, dragagem de rios e controle do assoreamento de margens, mas não de maneira sistemática. Acrescenta ainda que apenas 17% do orçamento previsto para obras de infraestrutura para contenção de morros, de barreiras, de infraestrutura de canais e rios da capital pernambucana, foi utilizado.

Para a vereadora é preciso pensar num planejamento a curto, médio e longo prazo. “Hoje a prefeitura de Recife investe menos do que há 10 anos” crítica, salientando que a capital é uma das cidades que aparecem em relatórios como uma das 20 mais vulneráveis às mudanças climáticas no mundo.

“Estamos vivendo um trauma coletivo”

Diante da crise, o governo pernambucano decretou emergência no estado, assim como em 14 municípios da região metropolitana. Entre eles, Jaboatão dos Guararapes. Moradora do bairro Engelho Velho no município, Nayara Fernandes é mãe, artista plástica, estudante de farmácia, e relata que as dificuldades que vêm enfrentando na região evidenciam um descaso de anos por parte dos órgãos públicos.

“Estamos vivendo um trauma coletivo”. Sem acesso à UPA do bairro, energia, internet ou fornecimento de água, Nayara conta que a Defesa Civil e os bombeiros ainda não chegaram em bairros como Padre Roma. “Lá tem duas pessoas soterradas e a barreira está estalando. A ponte que dá acesso a BR 101 caiu e está sendo consertada agora. O bairro de Malvinas está destruído. Santo Aleixo alagou mais de um metro, Muribeca está debaixo d’água”.

A artista informa que até a manhã desta segunda-feira (30), nenhum órgão público havia chegado nesses bairros extremamente afetados. “Vemos uma total falta de preparação. Hoje fui em uma reunião com o Ministério Público, e um prefeito joga para o outro o problema como peteca”, lamenta. Ela se refere ao prefeito de Recife, João Campos (PSB), e ao de Jaboatão, Anderson Ferreira (PL).

“Isso é o retrato de anos sem Plano Diretor no Recife e em Jaboatão. A falta de um Plano Habitacional agora só é retratada pelos milhares de desabrigados”, aponta Nayara.

“Não é só um evento da natureza”

Juntas, Recife e Jaboatão dos Guararapes estão entre as 20 cidades brasileiras com as piores notas do Ranking do Saneamento 2022, do Instituto Trata Brasil, que contempla os 100 maiores municípios do país. O levantamento leva em consideração dados de 2020 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), do Ministério do Desenvolvimento Regional. Junto com o Rio Grande do Sul, Pernambuco é o terceiro estado com maior incidência na pior parte do ranking.

“Existe uma falta de vontade da gestão política estadual em realizar ações significativas de limpezas de canal, tratamento dos rios, educação cidadã sobre o lixo e, sobretudo construir um plano efetivo de tratamento e saneamento básico nas cidades”, observa Larissa Santiago.

Ela afirma que prevenções como a contenção de encostas, construção de abrigos nas cidades, e planejamentos para que a defesa civil emita alertas que sejam rápidos e que dialoguem com as pessoas que vivem em áreas de morro, evitariam a tragédia. “Traduz o que a gente chama de necropolítica. Não é só um evento da natureza, é um projeto de política pública pra deixar as pessoas morrerem. Todas as comunidades periféricas do Recife sofreram com essas enchentes. Isso faz parte de racismo ambiental”, complementa.

Presidente da Comissão de Igualdade Racial e Enfrentamento ao Racismo da Casa Legislativa do Recife, Dani Portela também chama atenção para o racismo ambiental presente no drama dos recifenses. “A maioria das pessoas atingidas são negras, empobrecidas, mães solo, arrimo de família. São justamente essas pessoas que moram nos piores lugares, sem segurança, em palafitas, às margens dos rios ou em áreas de barreira ou de encostas”.

Em maio do ano passado, a vereadora teve aprovado o requerimento ‘Ouvidoria das Chuvas’, justamente para pensar em ações preventivas. Foram centenas de requerimentos de indicações para limpezas de canais, desobstrução de galerias, recuperação de morros e análise de solo de barreiras. E ainda não foi possível obter uma cobertura ampla de todo o município.

Neste cenário, Larissa analisa a especulação imobiliária como um problema que se soma aos demais. A ativista explica que já há um tempo os movimentos sociais lidam diretamente com ofensivas do estado, que tenta sucatear o projeto das Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS). Estas regiões são habitadas majoritariamente pela população negra e pobre, e os governos tem objetivo de construir grandes empreendimentos.

“Perceba que onde João Campos e Paulo Câmara (PSB) [governador de Pernambuco] moram, não alaga. E pra eles pouco importa a quantidade de mortos e o que eles podem fazer pra salvar vidas”, conclui.

Desde 2020, a mandata de Dani Portela acompanha várias famílias que moram em áreas de risco e ocupações, e defende a criação de um programa de renda básica permanente para população mais pobre da cidade. Agora, acredita que isso se mostra mais do que urgente.

“Enquanto morar for um privilégio, essas ocupações têm o direito de acontecer. A população em situação de rua não para de crescer, inúmeros imóveis abandonados, não tem um plano real de solucionar o déficit habitacional que existe na nossa cidade”, adverte.

Campanhas e Doações

No momento, as escolas estão sendo disponibilizadas como abrigos. Há um esforço para garantir três refeições ao dia para as pessoas que perderam suas casas, realizar o cadastramento para pensar um auxílio, além de um mapeamento de pessoas com deficiência.

Em resposta aos milhares de desabrigados e famílias que perderam tudo, diversos coletivos têm se organizado para coletar doações. As campanhas realizadas pedem alimentos, remédios, roupas, entre outros itens.

Entre os itens mais pedidos, e também menos doados, estão os colchões. A cineasta periférica Yane Mendes tem percorrido as regiões afetadas e divulgado campanhas em suas redes sociais. Também integrante do coletivo Rede Tumulto, iniciou com o grupo uma campanha de doação exclusiva para o item. A chave PIX para doação é: redetumulto@gmail.com.

Yane cita, entre os obstáculos, a condição financeira de quem realiza as campanhas, pessoas que não têm transporte para buscar as doações e circular pela cidade, por exemplo.

A atuação dos governantes pernambucanos, observa a ativista, é focada em autopromoção, “dizer que é contra Bolsonaro, mas replicar o bolsonarismo de forma maquiada”.

Para ela a mídia convencional não critica o governo de forma direcionada, nem cobra as respostas devidas às Secretarias. “Como a gente consegue colocar uma campanha como a nossa na TV se a gente se nega a mostrar a galera chorando porque perdeu suas coisas? A gente acredita em outro tipo de cobertura, não nesse espetáculo”, ressalta.