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CEERT celebra 35 anos em Salvador (BA) com debates sobre justiça climática, educação e o futuro das juventudes negras

Encontro reuniu lideranças históricas do movimento negro, pesquisadores, estudantes e organizações da sociedade civil
Imagem: Luciana Bahia

Por Karla Souza

Os desafios da população negra diante da crise climática, da permanência universitária e das desigualdades no mundo do trabalho estiveram no centro dos debates da edição baiana dos Diálogos Antirracistas: Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) 35 anos – Transição Justa, Educação e Juventudes, realizada nos dias 8 e 9 de junho, no Centro de Cultura Vereador Manuel Querino, no Pelourinho, em Salvador (BA).

Ao longo de dois dias, o espaço recebeu pesquisadoras, lideranças comunitárias, estudantes, representantes do poder público e organizações da sociedade civil para discutir justiça racial, democracia, educação, ações afirmativas e transição climática. 

Na abertura do encontro, a socióloga e feminista negra Vilma Reis destacou a relação histórica entre o movimento negro baiano e o CEERT. Para ela, a trajetória da organização ajudou a antecipar debates que hoje ocupam espaço central nas políticas públicas e nas lutas por direitos. “Estamos celebrando os 35 anos do CEERT nesta cidade negra que é Salvador. Para muitas de nós, formadas na Comissão de Estudos Afro-Brasileiros (CEAFRO), o CEERT sempre foi uma organização irmã. Muitas das questões que hoje dominam a pauta do mundo sindical tiveram seus primeiros alertas nas pesquisas coordenadas por Cida Bento”, afirmou.

A fala dialogou com a intervenção de Cida Bento, fundadora e conselheira da organização, que relembrou o compromisso histórico do CEERT com a construção de uma sociedade mais justa e destacou a dimensão coletiva da luta por reparação e igualdade racial “Se existe um poder econômico muito forte atuando contra nós, existe também algo que ninguém nos tira: o compromisso de construir um mundo melhor. Não apenas para as pessoas negras, mas para toda a população brasileira. Um mundo melhor em todas as regiões e territórios desse país.”

Imagem: Luciana Bahia

As discussões do primeiro dia concentraram-se na relação entre justiça climática e justiça racial. O painel “Empregos Verdes, Equidade Racial e Transição Justa: Desafios e Oportunidades” debateu como a agenda ambiental pode reproduzir desigualdades históricas caso não incorpore a dimensão racial na formulação das políticas de desenvolvimento sustentável. O debate reuniu Daniel Bento Teixeira, diretor executivo do CEERT; Victoria Santos, do Instituto Clima e Sociedade (iCS); Flávia Guimarães, da Veracel Celulose; e Marina Marçal, da Waverley Street Foundation e da Plataforma DHESCA Brasil.

Ainda no primeiro dia, o lançamento do guia “A Escola que Planta: valorizando saberes ancestrais e cultivando relações antirracistas”, desenvolvido pelo CEERT em parceria com o Instituto Alana, trouxe reflexões sobre educação, ancestralidade e territórios. Participaram da mesa Gabriel Salgado, gerente de educação do Instituto Alana; Rita Silvana, pesquisadora da Cátedra Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO); Taiana Simões, educadora e co-criadora do guia “A escola que planta: Valorizando saberes ancestrais e cultivando relações antirracistas”; Mônica Passarinho, pesquisadora e co-criadora do guia; Eduardo Feitoza, educador do povo Xukuru de Ororubá; com mediação de Valdecir Nascimento, fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra.

Durante sua fala, Valdecir chamou atenção para os saberes produzidos nos territórios tradicionais e para a necessidade de ampliar o entendimento sobre educação para além dos espaços formais de ensino. “Quando pensamos em plantar para pessoas negras e indígenas, é, na verdade, retomar o nosso lugar. Nossa ancestralidade nos ensina que somos retroalimentados cotidianamente pela terra”, afirmou.

O segundo dia voltou-se para o protagonismo das juventudes negras na construção de alternativas para os desafios contemporâneos. O painel “Prosseguir Colmeia: ações climáticas das juventudes negras” reuniu experiências desenvolvidas em diferentes regiões do país, com a participação de Moara NC, do projeto Desmistificando Conceitos (PA), Beatriz Alves, do Observatório da Zona Oeste (RJ), Raíssa Caldas, do projeto Raízes que Alimentam o Futuro (BA), e Mário Rogério, diretor de indicadores do CEERT. As apresentações destacaram iniciativas que articulam ancestralidade, participação comunitária, soberania alimentar e justiça climática.

As reflexões sobre acesso e permanência no ensino superior marcaram o encerramento do encontro. No painel “Da universidade para a vida: Juventudes Negras, Ações Afirmativas e Trabalho”, estudantes, pesquisadores e representantes do Ministério da Igualdade Racial debateram os avanços proporcionados pelas políticas afirmativas e os obstáculos que ainda atravessam as trajetórias acadêmicas da população negra.

Ao apresentar os resultados da pesquisa “Mapa da Assistência Estudantil da Universidade Federal da Bahia: do básico ao necessário”, o assistente social e doutorando Matheus Mascarenhas destacou que estudantes negros continuam ocupando as posições de maior vulnerabilidade socioeconômica dentro da universidade. Ele explica que os mais pobres entre os pobres são as pessoas negras. São elas que mais precisam das políticas de assistência estudantil e para as quais a universidade precisa direcionar atenção para garantir a permanência e a conclusão dos cursos.

Entre debates, lançamentos e intervenções culturais – como as apresentações do Maracatu Ventos de Ouro e da Capoeira Nzinga – os Diálogos Antirracistas transformaram o Centro de Cultura Manuel Querino em um espaço de encontro pulsante entre gerações, territórios e experiências.

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