Por Dheik Praia

Imagens: Dheik Praia  

A sexta-feira (10) amanheceu com um sol avermelhado no acampamento da Funarte, em Brasília (DF). Milhares de mulheres estão ali desde o dia 07 de setembro reunidas para 2ª Marcha Nacional das Mulheres Indígenas, que neste ano tem como tema: “Mulheres originárias: reflorestando mentes para a cura da Terra”. A marcha contou ao todo com a participação de mais de 5 mil mulheres de 170 etnias distintas.

O dia mais esperado da semana chega com muita força e com muita vontade de luta. Os povos aos poucos se concentram em seus rezos, em suas pinturas de guerra, em em seus anseios para o futuro. No acampamento da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), mulheres de diferentes etnias, de diferentes estados se reúnem em concentração para a saída da tão esperada marcha. 

Dina Mura, Cacique da Aldeia Limão no Município de Itacoatiara (AM), ao se concentrar em um rezo com seu povo, sentiu medo e receio do que poderia acontecer. Em um primeiro instante, decidiu que ficaria no acampamento e não iria com as demais, mas conseguiu se fortalecer e seguiu em marcha. O evento iria acontecer um dia antes, na quinta-feira (09), porém um grupo de bolsonaristas obstruíram a capital federal num movimento golpista. As mulheres indígenas desde sua chegada foram intimidadas pelos defensores do fascismo.  

“Eu não queria ir pois senti uma derramação de sangue, um pressentimento ruim, senti que não era pra eu estar presente. Mas, depois de algumas orações que fizemos, quando demos as mãos e cantamos, me fortaleci e segui. Foi muito emocionante ver mulheres do Brasil inteiro marchando com força, com vontade, com garra pra derrubar esse governo que não nos representa.”, destacou Cacique Dina. 

A Marcha das Mulheres Indígenas, organizada pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga), além de propor um encontro entre as mulheres dos diferentes biomas do Brasil, pretende fortalecer as trocas entre elas. Na marcha, as indígenas compartilharam vivências de seus territórios, escutaram experiências das diferentes regiões e fortaleceram suas trajetórias através das narrativas de suas semelhantes.

Para Concita Sompré, uma das coordenadoras da Marcha, a realização deste grande encontro visa refletir sobre o que estamos vivendo, tendo em vista o contexto do atual governo e da pandemia. O tema da Marcha, Mulheres Originárias: reflorestando mentes para a cura da Terra, visa propor esse diálogo de cura. 

“A morte, a doença, o sofrimento, o luto não chorado… as mulheres indígenas são a cura da terra, as mulheres indígenas espalham sementes que germinam a mudança. É necessário preservar a vida através da floresta, a gente tá acompanhando a pressão que está sendo as nossas demarcações de territórios, os garimpos deixando só os buracos, nossa água sendo envenenada, sendo contaminada por mercúrio; todas essas pautas estão resumidas neste nosso tema”, explica Sompré sobre o fio condutor da segunda edição.

Segundo Concita, foi difícil segurar as mulheres no acampamento, após a suspensão da marcha, pois todas viajaram até Brasília para lutar. Centenas de mulheres marcaram presença pela responsabilidade com seu território

“A marcha hoje veio nos mostrar que nós estamos no caminho inverso de tudo o que tá posto, nós somos propositivas, resolutivas. Os bolsonaristas estão acampados lá? Querem confronto? Querem guerra? Nós não queremos, nós vamos pelo outro lado. Viemos dar nosso recado, é claro que a Praça Três Poderes sempre foi um marco de nossa luta, mas a Praça Galdino representa o motivo do porquê precisamos lutar.”, destacou Concita. 

A marcha inicialmente iria à Praça dos Três Poderes, mas devido a tensão com o grupo de bolsonaristas o percurso foi mudado para a Praça do Compromisso. A praça que virou destino da marcha possui uma homenagem ao indígena Galdino Jesus dos Santos, que foi queimado vivo por cinco jovens de classe alta de Brasília em 1997.    

Território: Nosso corpo, nosso espírito

O chão de Brasília mais uma vez presenciou a potência, a urgência da fala, da escuta e da cura, presente na segunda edição do encontro. Ao circular pelo acampamento, ao subir o palco com seus grafismos, suas cores, seus idiomas, cada mulher representa seu povo, cada mulher carrega consigo as dores, as violências, os desafios e as alegrias de ser originária. 

Acordar no acampamento das mulheres indígenas em Brasília é saber que ao se concentrar em um rezo, em um canto, na força de uma dança, as lágrimas irão escorrer em seu rosto a qualquer momento. As etnias que moram em localidades que possibilitam o trânsito de modo terrestre, se organizaram com financiamento coletivo, doações, vieram de caravana. Mas, aquelas localidades distantes das estradas, como é o caso de muitos grupos do Amazonas, tiveram suas etnias representadas de modo reduzido. Ocupar esse lugar de encontro fortalece e encoraja as mulheres a denunciar as violências que vivenciam.

Silvana Marubo, moradora da Terra Indígena do Vale do Javari, localizada entre os municípios de Atalaia do Norte e Guajará, no extremo Oeste do Amazonas, foi representar seu povo juntamente com a jovem Talita Marubo, únicas representantes de seu povo. O território que elas ocupam resguarda a cultura de centenas de indígenas isolados. Silvana, em sua fala emocionada no dia em que a marcha foi adiada, enfatiza a importância desses encontros para o fortalecimento das mulheres e das lutas indígenas.  

“Somos nós que cuidamos de nossos rios, somos nós que cuidamos de nossa terra… Então quero mandar um recado para os garimpeiros, pra quê destruir? Pra quê tirar o nosso ouro? Isso não lhe pertence, Canavoá deixou pra nós cuidar! Nós indígenas somos protetores de nossas terras. Nós não temos arma de fogo, nossa arma é nossa reza, nossa flecha, nossos maracás! Estou pela primeira vez em Brasília e trago comigo o espírito da floresta, trago a força dos meus ancestrais, trago o silêncio dos que não sabem da guerra que está sendo travada”, Silvana em sua primeira fala na Marcha.

O território de Silvana está sendo ameaçado por garimpeiros, que com permissão de instituições públicas, desestruturadas pelo governo federal, facilitam a intervenção externa em territórios pertencentes ao Vale do Javari, região com o maior número de indígenas sem contato. Estando como representante de todos os Marubo, na Marcha das Mulheres, Silvana destaca que sua principal preocupação é a votação do marco temporal, pois sem demarcação não existe proteção. 

Lúcia Krenak, Professora de Cultura da Aldeia Krenak, localizada no Leste de Minas Gerais, é uma das mulheres presentes no acampamento. Em uma conversa emocionada, ela relata que a luta se faz necessária, pois ver um rio morrer é a pior experiência que uma mulher originária pode ter.

“O Rio Doce era parte de mim, era parte de todos aqueles que cresceram à sua margem. É muito difícil morar às margens de um Rio que um dia te banhou, te alimentou, te alegrou… é como se você velasse diariamente o corpo de um parente, sem nunca poder enterrar. Eu lembro de tudo o que vivi, de toda a alegria que o Rio me proporcionou, depois eu lembro dos peixes emergindo, respirando lento, como se pedissem socorro”, destaca Lúcia muito emocionada.

Após o assassinato do Rio Doce (2015), cometido pela mineradora que ironicamente tem o mesmo nome do rio, a vida do Povo Krenak nunca mais foi a mesma. Muitos indígenas adoeceram de diferentes formas, pois o Rio, além de alimentar o corpo através das pescarias, alimentava o espírito, através dos banhos, da diversão, da travessia. Lúcia comenta que em uma de suas aulas expositivas, ela levou seus alunos à margem do Rio Doce e narrou como era a vida com o Rio Vivo.

“Nossa vida mudou completamente, nosso bem mais valioso era a água, hoje nós sobrevivemos com carro pipa, a gente toma banho de chuveiro, antes desse crime isso não existia. É triste demais, é uma dor que não passa e não vai passar … e pra onde nós vamos? Não tem pra onde ir, nossas memórias, nossa história foi toda construída ali, mas mataram nosso espírito!”, desabafou Lúcia.

Nas plenárias, nas conversas, nos encontros, as narrativas das mulheres indígenas apontam que a luta não vai acabar. Reflorestar mentes é espalhar a semente da luta para que se possa curar a terra enquanto ainda há tempo.