Indígena é encontrado morto no Pará duas semanas depois de levar denúncias sobre invasão do território a ONU

Tymbektodem Arara era o linguista oficial do povo Arara. As circunstância da morte, supostamente por afogamento, estão sendo investigadas pela Polícia Federal no Pará

Tymbektodem Arara era o linguista oficial do povo Arara. As circunstância da morte, supostamente por afogamento, estão sendo investigadas pela Polícia Federal no Pará

Por Andressa Franco

Imagem: Reprodução ONU

O líder indígena Tymbektodem Arara foi encontrado morto em um rio na Terra Indígena (TI) Cachoeira Seca (PA), no dia 14 de outubro. Apenas 16 dias depois de denunciar na Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, na Suíça, a invasão de terras na sua TI, onde vive a etnia Arara.

As circunstâncias da morte de Tymbek, como era conhecido, supostamente por afogamento, estão sendo investigadas pela Polícia Federal no Pará. A vítima era o linguista dos Arara, uma etnia de contato recente com não-indígenas. 

“Somos um povo de contato inicial, viemos aqui para exigir que se respeite nossa vida e nosso território. Sofremos muitas invasões. A demarcação só ocorreu 30 anos depois do contato com os não indígenas, em 2016”, discursou durante a sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o território dos Arara teve 697 km² de floresta desmatados entre 2007 e 2022. Invasores desmatam para obter madeira do tipo ipê.

Segundo apuração do G1, uma pessoa que acompanhou Tymbek na ONU afirma que tanto a liderança como o cacique da aldeia receberam ameaças por meio de áudios atribuídos a fazendeiros locais. “Nenhum dizendo ‘Vou te matar’, mas ‘Ah, você está aí? Que bom que está defendendo sua terra’. ‘Vocês não têm medo?’, ‘O que estão fazendo aí?’ E eles ficavam dando perdido, dizendo que era para apresentar a cultura Arara”, relatou a testemunha.

Uma pesquisa realizada pela ONG Global Witness revelou que o Brasil é o segundo país mais letal para ambientalistas no mundo. Dos 177 ativista ambientais mortos devido à sua atuação em 2022, 34 foram assassinados em solo brasileiro. O país fica atrás apenas da Colômbia, onde aconteceram 60 assassinatos.  O dado representa um aumento de 23,6% com relação ao ano passado. Além disso, 88% dos casos aconteceram na América Latina, com 36% dos ambientalistas apresentando origem indígena.

Diferentes versões para a morte

A Força Nacional escoltou Tymbek e o cacique de Cachoeira Seca dos dias 2 a 7 de outubro. Acompanharam os indígenas no Brasil do desembarque até chegar na aldeia, e foram embora. Dois dias depois o linguista morreu. 

No dia da morte, Tymbek estava em um barco no Rio Iriri com dois ribeirinhos locais. Eles haviam bebido cachaça e voltavam para a aldeia indígena. Nesse ponto, há duas versões para a morte. Uma delas é a de que Tymbek se jogou do barco por conta própria para nadar, não saiu mais da água, e os ribeirinhos fizeram tentativas de salvá-lo. A outra versão é de que o indígena Arara foi jogado ao rio pelos ribeirinhos e, por estar bêbado, não conseguiu nadar e se afogou.

Foram realizadas buscas durante à noite, mas o corpo só foi encontrado na manhã seguinte, e levado à Comunidade Maribel, uma vila de não-indígenas próxima. Levaram cinco horas para que o Instituto Médico Legal chegasse ao local.

Desafios do povo Arara

Lideranças Arara estimam que o território tem hoje cerca de dois mil invasores, enquanto os indígenas que habitam a região não passam de 200. Um dos motivos apontados para a permanência dos não-indígenas no local foi a instalação da hidrelétrica de Belo Monte.

Com a morte de Tymbek, os Arara perdem seu linguista oficial e representação em agendas e debates fundamentais. Foi Tymbek que estava em Brasília representando seu povo contra o marco temporal, por exemplo.

“Os Arara não têm muito idosos, eram alguns mais velhos e logo vinha o cacique e o Tymbek, também quem se comunicava com o mundo de fora. Histórias vão se perder e quem vai defendê-los?”, disse um indigenista ao G1. “Eles [indígenas Arara] são coagidos de alguma maneira: perdem a terra e o invasor oferece gado, carne, whisky… É uma violência permeada por esse jeito sujo de relação.”

Vale destacar que oferecer álcool não é uma prática incomum de invasores de terras indígenas. Muitos garimpeiros, por exemplo, cooptam indígenas através da bebida, em alguns casos também de drogas, tornando-os incapazes de produzir seus próprios roçados e passando a trabalhar para os invasores. A presença de invasores em TI também costuma levar doenças, além de relatos de crimes e abusos sexuais.

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