A marca Linha e Agulha, idealizada por Larissa Reis e sua mãe, Miriam Alves, aposta no slow fashion e produz peças de crochê desde o início da pandemia de covid-19

Por Andressa Franco

Imagens: Bruno Pre7o

Um Festival Global e um Movimento Cultural. É como o AFROPUNK, que realizou a edição 2022 no último final de semana (26 e 27), se define. O evento se propõe a ser um espaço de expressão da cultura negra através da música e, consequentemente, de manifestações estéticas, que pode ser observada no capricho que o público entrega no visual. Capricho que não é passado despercebido pelo próprio festival, que em suas redes sociais faz publicações para que as pessoas interajam e troquem dicas de cabeleireiros, barbeiros e marcas de roupas e acessórios locais.

Foi pensando nisso que a jovem de Madre de Deus, Larissa Reis, se propôs a lançar uma nova coleção para a sua marca de peças de crochê, a Linha e Agulha. Batizada de “INCENDIA”, a coleção traz a representação do elemento fogo utilizando as cores laranja, vermelho e amarelo como predominantes nas peças feitas sob medida. Para levar os modelos que desenhou com mais dois amigos, e costurados pela sua mãe, reuniu oito amigos para desfilarem com as peças no festival.

“Por muito tempo se propagou que cores mais quentes, vívidas e ‘chamativas’ não deveriam ser utilizadas por pessoas negras. Exemplo disso é que mulheres negras foram ridicularizados e sexualizadas por anos apenas por usar batom vermelho”, explica Larissa, de 26 anos.

Larissa Reis – Imagem: Bruno Pre7o

A ascensão do debate racial na sociedade, e a frase “fogo nos racistas” frequentemente utilizada pelo cantor Djonga em seus shows, foi uma das inspirações para o conceito da coleção. “Que maneira melhor de incendiar tudo do que sendo bonitos, elegantes, únicos e estarmos bem com nós mesmos? A função primordial dessa coleção é trazer esse sentimento de pertencimento do belo, de entendermos que somos divinos e temos todo o direito de nos sentirmos dessa forma”, pontua.

INCENDIA

O anúncio da estreia presencial do evento em Salvador coincidiu com o momento em que a Linha e Agulha havia sido lançada como uma marca, e desde então Larissa, que é formada em Direito, passou a idealizar o modelo que iria vestir. Assim, surgiu o primeiro lançamento da marca: o conjunto Sensações, cuja a ideia é propagar o conceito de ‘afropaty’.

Com mais tempo para desenvolver os modelos, mais elaborados, utilizando novas técnicas e cortes mais ousados, as expectativas de repercussão pós-evento e da conquista de novas clientes são altas. “O intuito é fazer com que as pessoas percebam o amadurecimento da marca, que entendam o conceito de se ter uma peça única, exclusiva, pensada e confeccionada diretamente para a pessoa que a está utilizando.”

Tempo e dinheiro para as confecções foram os maiores obstáculos para fazer o lançamento acontecer. Como a Linha e Agulha também produziu peças sob encomenda para o festival, para além da Coleção INCENDIA, foi difícil fazer os clientes compreenderem a aposta da Linha e Agulha em ir na “contramão da indústria da moda, fora o imediatismo que existe com relação as redes sociais.” As peças em crochê são desenvolvidas totalmente à mão, o que requer mais tempo do que as pessoas estão acostumadas.

Para Miriam Alves, de 60 anos, mãe de Larissa, ativista política e artesã da marca, o desafio compensa. “Por ser de uma geração onde negros e negras eram ‘proibidos’ de usar e vestir certos modelos e cores, é mega satisfatório ver que posso contribuir para elevação da auto estima e liberdade.”

Miriam Alves, mãe de Larissa, ativista política e artesã da marca – Imagem: Caique Nascimento

O crochê surgiu na vida de Miriam ainda na infância, através da sua avó paterna. Já a Linha e Agulha começou na sua vida como forma de ocupar o tempo e cuidar da saúde mental no início da pandemia de covid-19. “No intuito de organizar e personalizar as peças, idealizei a criação de uma marca onde estivesse presente o amor, humildade e cumplicidade com as causas que sempre defendi”, ressalta a matriarca.

Slow fashion é revolucionário”

Trazer o olhar da população baiana para valorizar o comércio local como alternativa ao mercado fast fashion, que produz roupas em grande escala e muitas vezes com menor qualidade, também se tornou um dos objetivos da marca. Embora Larissa compreenda a diferença do preço final do produto, defende que sempre que possível, a escolha de fazer o dinheiro circular localmente deve ser uma opção a ser considerada.

Hoje, os responsáveis pela criação dos modelos além de Larissa, são Maiana Gleide e Macio André Menezes, que contam com as opiniões de Miriam.

Maiana Gleide – Imagem: Pre7o

Artesão, estilista, modelo fotográfico e bartender, Márcio tem 23 anos e acompanhou o surgimento da marca desde o começo. No processo criativo para a coleção que estrou no Afropunk, conta que foi preciso mergulhar em referências. “Nossos corpos sempre foram marginalizados, explorados, demonizados ou sexualizados.  É mais do que hora de enaltecer cada detalhe, curva, traço em cada um de nós, e através das nossas peças, podermos empoderar os nossos”, defende.

Macio André Menezes – Imagem: Bruno Pre7o

De acordo com Maiana, INCENDIA foi meticulosamente pensada para sair da obviedade do crochê e tornar impossível de desviar o olhar, trazendo representatividade e inspirando pessoas pretas.

“Conheço a Linha e Agulha antes de se tornar Linha e Agulha, nossa história tem quase uma década”, conta Maia, como é conhecida a modelo. Na adolescência, quando estudava com Larissa, já vestia os tops de crochê confeccionados pela ‘tia’ Miriam. “Ter como artesã e matriarca da marca uma mulher preta, que faz isso desde criança, só mostra o quão importante é o consumo do handmade. Em uma sociedade em que o fast fashion domina, consumir de pequenas marcas de slow fashion é revolucionário.”