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Mesmo com redução dos homicídios, pessoas negras e população LGBTQIAPN+ seguem entre as principais vítimas da violência

Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que redução da violência letal não alcançou igualmente todos os grupos sociais, enquanto letalidade policial, feminicídios e crimes de ódio continuam crescendo
Imagem: Vecteezy

Por Catiane Pereira

Apesar da redução das mortes violentas intencionais no Brasil em 2025, a violência continua atingindo de forma desproporcional pessoas negras, mulheres e a população LGBTQIAPN+. Os dados fazem parte do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado na última quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que aponta avanços na redução dos homicídios, mas evidencia a persistência das desigualdades raciais e de gênero na violência brasileira.

Segundo o levantamento, pessoas negras representam 79,7% das vítimas de mortes violentas intencionais registradas no país. A desigualdade também aparece na letalidade policial. Em 2025, 82% das pessoas mortas em decorrência de intervenção policial eram negras, enquanto 17,7% eram brancas. 

Embora o Brasil tenha antecipado a meta nacional de redução dos homicídios (registrando 15,1 homicídios a cada 100 mil habitantes, sendo que a meta era chegar à taxa de 16 mortes a cada 100 mil habitantes até 2030), o Fórum destaca que essa redução não foi acompanhado pela redução das mortes provocadas por agentes do Estado. Pelo contrário, 2025 registrou a maior letalidade policial da série histórica com 6.602 mortes decorrentes de intervenções policiais.

Quando considerada a taxa por população, a diferença também é expressiva. Foram 3,5 mortes por 100 mil habitantes entre pessoas negras, contra 1,0 entre pessoas brancas, o que significa que a letalidade policial foi 3,5 vezes maior para a população negra. O anuário aponta ainda que essa desigualdade aumentou em relação ao ano anterior, já que a taxa cresceu 3,5% entre pessoas negras, enquanto permaneceu estável entre pessoas brancas.

O cenário é agravado pela concentração territorial dessas mortes. O Amapá registrou a maior taxa de letalidade policial do país em 2025, seguido por Bahia e Sergipe. Já Rio Grande do Norte, Rondônia, Acre, Roraima, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro apresentaram crescimento das taxas em relação ao ano anterior.

Mulheres negras concentram maioria das vítimas de feminicídio

A violência letal também permanece atravessada pelo racismo quando o recorte é feito sobre as mulheres. O anuário mostra que 65,1% das vítimas de feminicídio eram negras. Mais da metade das mulheres assassinadas foi morta dentro da própria residência e, nos casos em que a autoria foi identificada, 96,4% dos crimes foram cometidos por homens. Os parceiros íntimos responderam por 60,9% dos feminicídios, enquanto ex-parceiros representaram 18,9% dos autores.

Ao todo, o Brasil registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, aumento de 2,6% em relação ao ano anterior. O número de tentativas de feminicídio chegou a 4.189 casos, crescimento de 5,9%. Também aumentaram os registros de violência psicológica, stalking e descumprimento de medidas protetivas de urgência, indicando a persistência da violência doméstica.

Crimes de ódio crescem e subnotificação ainda invisibiliza violência contra população LGBTQIAPN+

Outro dado que chama atenção é o crescimento dos registros de crimes de ódio. O Brasil contabilizou 30.743 ocorrências de racismo em 2025, alta de 26% em comparação com o ano anterior. Os registros de injúria racial chegaram a 21.443 casos, crescimento de 20,8%. Já os casos enquadrados como racismo motivado por homofobia ou transfobia aumentaram 35,6%, totalizando 3.481 ocorrências.

Apesar da alta nos registros, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública alerta que esses números estão longe de representar a dimensão real da violência sofrida pela população LGBTQIAPN+. Segundo o anuário, “a ausência de uma padronização nacional na coleta e no registro de informações sobre orientação sexual e identidade de gênero das vítimas compromete a produção de estatísticas confiáveis e dificulta a formulação de políticas públicas”. 

O estudo destaca que Santa Catarina e Rio de Janeiro não apresentaram dados sobre racismo motivado por homofobia ou transfobia. Alagoas e Mato Grosso registraram apenas seis ocorrências cada. 

A subnotificação também aparece em outros indicadores. Os registros de estupro contra pessoas LGBTQIAPN+ cresceram 1,9% entre 2024 e 2025, mas o FBSP considera improvável que estados populosos apresentem números tão baixos quanto os informados. Entre as hipóteses levantadas pelo estudo estão a dificuldade das vítimas em denunciar a violência e o receio de informar orientação sexual ou identidade de gênero durante o atendimento policial.

A lesão corporal dolosa foi o crime mais registrado contra pessoas LGBTQIAPN+, com 5.452 ocorrências em todo o país. Ainda assim, Acre e Rio de Janeiro não possuem dados consolidados sobre esse tipo de violência, reforçando que a ausência de registros não representa ausência de casos.

Os pesquisadores também recomendam cautela na interpretação da redução de 14,2% dos homicídios de pessoas LGBTQIAPN+. Segundo o relatório, São Paulo, Rio de Janeiro e Acre não registram de forma consistente a orientação sexual ou identidade de gênero das vítimas nos boletins de ocorrência. O anuário cita ainda levantamento do Grupo Gay da Bahia (GGB), que contabilizou 237 homicídios dolosos de pessoas LGBTQIAPN+, número superior ao registrado oficialmente pelo estado.

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