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No campo e na cidade, mulheres negras anunciam futuros possíveis contra o racismo ambiental

Diante dos problemas ambientais, as mulheres negras, as primeiras a serem impactadas, têm acionado formas de combate ao racismo ambiental como forma de proteção do Cerrado e de suas vidas

Por Ludmila Pereira*

O Cerrado é o bioma mais antigo do mundo. Sua formação começou há pelo menos 65 milhões de anos. E esse ser ancestral tem clamado por justiça. Suas tentativas de se fazer ouvir enquanto ser de direito tem gerado desgastes e cicatrizes profundas em seu corpo, e isso reverbera nas conexões com os outros biomas brasileiros. 

Queimadas, secas, desmatamento, a luta contra as injustiças climáticas tem ainda devastado o Bem Viver de quem vive e protege esse bioma. Nos Brasis adentro, esse lugar vem sendo casa para mais de 25 milhões de pessoas. Sendo um dos biomas mais desprotegidos do mundo, a ameaça à sua existência se mostra nas disputas de poder econômico e até no âmbito internacional, ao mesmo tempo que acumula elementos fundamentais para a vida no planeta como as águas e a sociobiodiversidade.

Trata-se de um espaço geográfico, espiritual e ancestral sendo violentado pelo avanço do agro-hidronegócio – a água também se tornou moeda de negócios -, são pessoas que estão sendo afetadas e impossibilitadas de co-manterem o Cerrado de pé. Como vem afirmando a Articulação de Mulheres do Cerrado, são as mulheres negras e indígenas que formam linha de frente para protegerem suas famílias contra os mandos e desmandos dos homens brancos que comandam o agronegócio neste país. 

“As mulheres estão no centro do território. Então, são elas que parem os territórios, mas também são elas que estão na linha de frente da defesa desses territórios que são completamente integrados aos biomas”, ressalta Ludimila Carvalho, do Quilombo Dona Juscelina e integrante da Comissão Pastoral da Terra (CPT), regional Araguaia – Tocantins.

“Nós somos o Cerrado”

Desde os anos 1970, com a Revolução Verde no Cerrado, políticas públicas, infraestrutura, crédito rural e desenvolvimento tecnológico transformaram o Cerrado na maior fronteira de expansão do agronegócio brasileiro no âmbito da soja, milho, algodão e pecuária bovina, conforme Dossiê Terra-Território, da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado. Grande parte dessa expansão ocorre na região conhecida como MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), onde se perdeu a maior vegetação nativa nos últimos 20 anos, mais do que nos 500 anos anteriores, conforme Relatório Anual do Desmatamento (RAD) do MapBiomas.

Em 2025, o Cerrado lidera, pelo terceiro ano consecutivo, o desmatamento no Brasil, ao concentrar 55% da área destruída no país, com forte pressão da agropecuária na região do Matopiba, onde temos 70% da perda de vegetação nativa do país. Esses dados foram consolidados pelo RAD, que ainda aponta o Cerrado como o bioma mais atingido pelo fogo no Brasil em 2025, 69% do total nacional, majoritariamente acionado pela atividade humana. 

Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), o agronegócio consome 78,3% da água no país. No berço das águas, a área de corpos hídricos naturais do Cerrado, como rios e lagoas, diminuiu 38% desde 1985, uma redução de cerca de 348 mil hectares, de acordo com um levantamento coordenado por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). A perda de água em corpos hídricos naturais afeta 77% das regiões hidrográficas do Cerrado.  

Diante dos debates sobre direitos ambientais e a recente realização da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30) no Brasil, os acordos sobre os recursos naturais do Brasil também vêm se desenrolando no Cerrado enquanto um assunto alinhado a transição energética (terras-raras) e a busca por alianças com os Estados Unidos. Um exemplo disso foi a recente venda da mineradora brasileira Serra Verde, responsável por uma mina de terras raras em Minaçu (GO), adquirida pela empresa estadunidense USA Rare Earth em um negócio avaliado em US$ 2,8 bilhões. Outro exemplo é a implementação do acordo União Europeia-Mercosul, em vias de consolidação, e que exclui os locais de não floresta, como o Cerrado, dos requisitos de proteção ambiental no Brasil para oferecer recursos naturais à Europa. Ambas encabeçadas pelo governo federal sem consulta prévia às populações locais que serão diretamente impactadas.

Mulheres do Cerrado tocantinense realizando ações com mudas de plantas. Foto: Ludimila Carvalho.

“Para a humanidade continuar existindo, o Cerrado tem que existir. Uma coisa está vinculada a outra. Porque como como dizem muitos dos pensadores e pensadoras quilombolas, tradicionais, indígenas, uma hora ou outra vai ter um colapso, as mudanças climáticas estão batendo na porta. O Cerrado nos lembra que a existência da humanidade está vinculada à existência do Cerrado. Sem Cerrado não tem vida”, afirma Ludimila Carvalho.

São as mulheres que defendem o Cerrado e sua sociobiodiversidade, no entanto, ainda é nelas que a sobrecarga dos cuidados são lançados. Além do cuidado com a família, manter o Cerrado de pé e vivo demanda mais tempo e falta de descanso. O racismo ambiental gera sobrecarga às mulheres negras no campo e na cidade, pois são elas que primeiramente sentem o estado do território para entender como manter a subsistência na família.

“Os homens, os fecheiros [fundos e fechos de pasto], eles ia [sic] guerrear, mas quem sustentava as comunidades ali, quem cuidava dos filhos, quem tinha que se esconder quando chegava o agronegócio na casa, eram as mulheres que protegiam, que [davam e] dão a cara”, reflete Isidora dos Santos, do Quilombo Caruaru, Correntina (BA).

Ela integrou o mapeamento e diagnóstico das comunidades sobre a morte das águas nas sub-bacias dos Rios Corrente e Carinhanha, que identificou só no oeste baiano, ao longo de 2023 e 2024, mais de 7.120 km de extensão de águas mortas nas sub-bacias hidrográficas desses rios. Um documento que demonstra a devastação e sequestro das águas no Cerrado.

No entanto, Isidora nos lembra que a luta também adoece. Quem cuida das lideranças que adoecem e enfrentam os problemas do território? 

Mulheres negras contra o racismo ambiental

Os direitos do Cerrado estão cotidianamente mantidos pelas mãos das mulheres, em sua maioria, mulheres negras de povos e comunidades tradicionais, e periferias, viventes no campo e na cidade. Elas representam cerca de 28% da população brasileira, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“São as mulheres pretas, são as pessoas pretas, que garantem esse Cerrado em pé, mas também são as mais negligenciadas pelo poder público. Para garantir o Cerrado de pé é importante o debate que envolve justiça social para as mulheres negras e o direito à qualidade de vida, no contexto urbano e também rural”, ressalta Arilene Martins, do Quilombo do Cedro e ativista do Instituto Pretas.

Os processos que violentam o Cerrado e o impõe como celeiro do agro-hidronegócio e avanço dos agrotóxicos, têm afetado as mulheres e seus modos de vida de forma imponente. “Violentar o Cerrado é violentar as mulheres. O Cerrado tem cara de mulher” essa máxima mobilizada pela Articulação de Mulheres do Cerrado ressalta que a luta histórica por segurança nos territórios é também contra a violência às mulheres, contra a criminalização dessas lideranças, contra o racismo ambiental e contra o patriarcado.

“Se a gente olhar Goiás, a gente vai ver que só nós, mulheres negras, defendemos o Cerrado. Porque as mulheres brancas, a maioria delas, estão no agro [agronegócio]. Eu fico assustada, porque elas deveriam ajudar a gente. A violência vem para nós e vem para elas. Mas somos nós [mulheres negras] que estamos aí no dia a dia, segurando o meio ambiente, segurando as famílias”, conta Marta Cezaria, co-fundadora do Grupo de Mulheres Negras Dandaras no Cerrado.

Projeto Plantando Bem viver. Foto: Arquivo pessoal.

Práticas de cura, saberes da terra, mobilizações coletivas, combate ao fogo criminoso, cuidado com as sementes crioulas, reivindicações coletivas por saneamento básico, roçado e autonomia nos territórios se firmam como algumas ações que anunciam práticas lideradas por mulheres negras em seus territórios como forma de continuidade coletiva pela vida digna diante dos desastres.

Marta integra, junto com outras mulheres negras, o projeto “Plantando Bem Viver por justiça racial, de gênero, ambiental e climática”. A iniciativa contribui para gerar quintais produtivos, debater racismo ambiental e promover outro uso do espaço no âmbito urbano da região metropolitana de Goiânia (GO). “Porque a gente precisa mudar começando pelos quintais. É incentivar plantar coisas no quintal.”

O projeto, que ocorre desde maio de 2026, visa gerar alimentos saudáveis, educação ambiental e mutirões de plantio e manejo, e já distribuiu mais de 200 mudas e mobilizou mais de 100 mulheres. Além disso, promove rodas de vivência para compartilhar saberes sobre a terra, trocas de conhecimentos sobre justiça climática e modos de adaptação pensando no remanejamento do lixo, e combate ao racismo ambiental junto a mulheres negras. Uma forma de tornar a cidade um espaço de direito ao Bem Viver pela valorização da terra.

Negras Mariamas em apresentação. Foto: Ludimila Carvalho. 

Entre outras ações, Ludimila Carvalho, em Tocantins também lembra das atividades da Rede Flores de Sucupira, que é uma rede de proteção às mulheres camponesas; do Grupo Negras Mariamas, que pratica atividades de dança intergeracional como forma de contar a história do território; de Mulheres Raízes, laboratório para a produção de plantas medicinas, tradicionais e rezas e cuidados; Cacau Nascente, do assentamento Manuel Alves, município de Araguaína (TO), que são mulheres camponesas que estão investindo na produção de chocolate.

A importância de entender o Cerrado enquanto ser de direito está na manutenção da vida digna das mulheres negras em seus territórios. “O sonho do Cerrado perpassa esse caminho de reconhecer quem o defende, quem o protege e os territórios que o compõem. É manter seguras as mãos que o defendem, as mãos que o reflorestam, as mãos que, de certo modo, o alimentam”, finaliza Ludimila Carvalho.

*Ludmila Pereira é jornalista afrocerradeira, integra o Instituto Pretas, a Articulação de Mulheres do Cerrado, a Rádio e TV Quilombo e a Rádio Kalungueira.

*Este é o segundo texto da série “Heroínas da Justiça Climática: Série de reportagens sobre Mulheres Negras em defesa de seus biomas”. Ao longo de seis reportagens, apresentaremos histórias de ativistas negras que constroem estratégia de cuidado, preservam saberes ancestrais e enfrentam o racismo socioambiental para proteger seus territórios.

A série é produzida pelo Comitê de Mulheres Negras por Justiça Climática da Marcha Global das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, em parceria com a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), a Rede de Mulheres Negras do Nordeste, o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (CEDENPA) e a Revista Afirmativa.

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