Coletivo de mulheres negras se mobiliza para cobrar justiça

Por Andressa Franco
Imagem: Divulgação

O corpo de uma mulher negra, identificada como Katiana, foi encontrado na manhã do dia 22 de fevereiro dentro de uma kitnet em São Luís, no Maranhão. A vítima trabalhava como vendedora ambulante, e também vigiava carros. Segundo vizinhos, morava no local com um homem, que não foi identificado.

“O que se sabe a respeito do crime é o que a mídia comenta. Aliás a mídia comentou de maneira bastante superficial”, explica Lúcia Gato, integrante do grupo de mulheres negras Mãe Andresa e do grupo de estudos feminismos negros Marielle Franco, na capital maranhense. “Porém sabemos que estamos diante de um caso de feminicídio, e mais uma vez uma mulher negra é morta possivelmente pelo seu companheiro”.

Gato, que também integra a Rede de Articulação de Mulheres Negras, destaca que o crime teve requintes de crueldade. Mas que são poucas as informações a respeito da vítima.

“Alguns dados básicos não sabemos porque essa é uma mulher que não está numa faixa visível na sociedade. O caso é chamado de caso Katiana. Precisamos descobrir sobrenome, idade, onde ela morava, saber da família. Nada disso é valorizado para as mulheres negras”, completa a ativista, que também informa que a vítima deixa filhos e netos, e era egressa do sistema prisional. “Nos interessa saber como o Estado vai tratar isso no sentido da assistência desses filhos e netos que ficaram”.

Katiana não era vista desde o dia 19 de fevereiro, um sábado. E, de acordo com a polícia, moradores próximos decidiram arrombar o imóvel devido ao forte odor. No local, encontraram o corpo da mulher enrolado em um lençol e já em estado avançado de decomposição.

A Polícia Militar e o Instituto de Criminalística (Icrim) estiveram no local, em seguida o corpo foi removido e encaminhado para passar por exames no Instituto Médico Legal (IML). Os resultados serão anexados a investigação do caso, que será realizada pela Superintendência de Homicídios e Proteção à Pessoa (SHPP).

Uma reunião de mulheres negras de coletivos de São Luís online e presencialmente, aconteceu no dia 25 de fevereiro, três dias após o crime ser noticiado. O encontro tinha por objetivo a construção de um ato contra feminicídio para visibilizar o caso e pedir compromisso das autoridades com a investigação.

Reunião de mulheres negras de coletivos de São Luís – Imagem: Acervo

“Se nós da sociedade civil não estivermos atentas monitorando quais ações o Estado pode viabilizar numa situação como essa, os números vão se agravar cada vez mais”, pontua Gato, que também faz parte do Conselho Estadual da Mulher-MA, tendo atuado como coordenadora executiva da última gestão, além de professora da rede pública e especialista em saúde da mulher negra.

Além de acompanhar os boletins da polícia a respeito do caso, entre os encaminhamentos da reunião, está a construção de um ato, aproveitando o 8 de março, para reivindicar respostas mais céleres na investigação do assassinato de Katiana. O coletivo também vai enviar uma carta e pedir uma audiência a Secretaria de Segurança Pública do estado, para realizar um acompanhamento mais humanizado.

“Casos como esse exigem que as pessoas se sintam acolhidas. Então estamos tentando acionar tanto os meios de assistência social como os meios relacionados à segurança pública pra um melhor monitoramento”, Gato acrescenta ainda que mobilização dos meios de comunicação locais para dar maior visibilidade ao caso, também está entre as deliberações da reunião.

Também será encaminhado um contato com a Casa da Mulher Brasileira e com a Casa da Mulher Maranhense, aparelhos institucionais que podem provocar uma situação de maior celeridade na elucidação do que aconteceu com a Katiana.

O coletivo está levantando mais informações a respeito da vítima, para tornar público todo e qualquer acompanhamento realizado. “A gente vai repassar na medida que as coisas forem sendo solucionadas do ponto de vista legal, Porque a atrocidade já foi feita e a impunidade não pode mais imperar”.

Dados do Departamento de Feminicídio da SHPP indicam que o número de casos de feminicídio caiu 16% no Maranhão em 2021, em relação ao mesmo período em 2020. Em contrapartida, o 15º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho do ano passado, mostra que 52% dos assassinatos de mulheres no estado, na pandemia de covid-19, foram caracterizados como feminicídio.

“Sabemos que o Maranhão em 2021 apontou 56 casos oficiais de feminicídio. E que esse ano, ainda estando no início de março, já temos cinco casos. Não precisamos ser grandes matemáticos pra compreendermos que, por projeção, os números chegarão a ser mais alarmantes do que já foram no ano passado”, continua a ativista.

Lucia Gato

Para Gato, a frase “parem de nos matar” só pode ser efetivada a partir do momento que o Estado trabalhe com políticas públicas que não só permitam um monitoramento, mas que alcancem a ponta, algo que ela observa grande deficiência.

“Esses números não são alavancados à toa. Se você tem uma política de estado que a nível federal não dá atenção necessária para questões ligadas aos parâmetros sociais, os resultados são esses. Nos falta um staff realmente preparado para absorver esse tipo de denúncia e absorver também uma outra posição pública diante do número de feminicídios que nós vemos não só no Maranhão, como no Brasil”, finaliza.