Por Cristiane Sobral

O corpo de Verônica foi, durante muito tempo, um lugar desconhecido. Uma identidade silenciada, condenada aos estereótipos de subalternização. Desde a escola, as pessoas sempre tiveram regras para o seu corpo, como e com quem devia andar, como sentar, falar em público, como vestir-se para causar uma boa impressão. Quanto ao seu cabelo, aprendera que não havia jeito, porque ninguém sabia o que fazer com ele, era um dos culpados por não fazer parte do padrão das capas de revista, assim como a pele escura, os lábios grossos e o nariz arredondado.

Na sua vida estudantil, a timidez e o silêncio sempre pareceram oportunos para enfrentar as dificuldades. A invisibilidade cabia bem para quem não tinha privilégio algum. Perdeu as contas dos apelidos pejorativos, dos meninos com os quais sonhou inutilmente, porque sempre havia alguém mais bonito e inteligente do que ela. Aliás, beleza e inteligência não eram atributos atribuídos aos negros e negras que conhecia.

Sempre achou que ser negra era o problema. Mais tarde descobriu que o racismo era a questão. Habitar um corpo negro e feminino nunca seria um mero detalhe biológico. Se soubesse disso há mais tempo, não teria sido vítima de tanta violência, não teria ficado em silêncio diante de tantas agressões e humilhações. Poderia ter olhado pra frente e não para baixo nas horas certas, poderia ter entrado com decisão ao invés da postura acuada que tantas vezes utilizara. Mas em toda parte, falar de negritude parecia ser algo proibido, subversivo. Estavam todos contaminados, negros e não negros, poucos ousavam denunciar a opressão. O racismo era um crime perfeito.

Lembranças que giravam ruidosamente na sua cabeça no dia em que foi presa por agressão, depois da tentativa de estupro do seu chefe que queria mais do que os serviços prestados. Levou muita pancada, principalmente no rosto. Pingava um sangue que não conseguia limpar por causa das algemas. Nunca havia apanhado dos seus pais, nunca havia sofrido tamanha brutalidade. Durante o encarceramento encontrou pessoas ótimas, outras nem tanto. Todas negras, como ela. Conseguiu a liberdade depois de alguns dias, porque seu pai pagou a fiança. Saiu no mesmo momento em que a Paula, que conheceu no xadrez. Ao sair, Paula entregou um pedaço pequeno de papel com números:
-Ficarei feliz se puder ligar, temos muito que conversar.

Verônica foi para casa. A mãe nervosa, preocupada como as mães, sem entender a situação, querendo saber o que tinha feito de errado afinal o emprego era ótimo, o patrão era tão bom! Mas ela ainda não conseguia falar sobre o assunto. Trancou-se no quarto. O corpo ainda doído e machucado. Não conseguia dormir. Na madrugada, ligou para Paula, disse que aceitaria o encontro. Marcaram.

No dia seguinte, sentaram em um café perto da casa de Paula. Ela era estudante universitária, cursava direito, foi presa durante uma manifestação contra o governo. Começou a falar sobre tanta coisa, tudo parecia fazer sentido, o racismo, o machismo, a pobreza e o descaso do Estado com a maioria preta e parda desse Brasil. Enquanto ela falava, Verônica revisitava vários momentos de sua vida, pensando em como poderia ter agido, como tudo poderia ser diferente. Paula estava ali porque conhecia um grupo de advogados, queria ajudar Verônica com a questão judicial. Paula perdeu um irmão, também estudante, assassinado pela polícia. Conversaram muito. Foi a primeira vez em que encontrou alguém com disposição para uma escuta sincera.

Verônica ficou ali sentada depois que Paula saiu. Marcaram outro encontro, seria apresentada aos membros do grupo de estudos negros da Universidade onde Paula estudava. Ela, que achava que a Universidade não era para pessoas como ela, que havia desistido de vários sonhos há muito tempo. Foi para casa, tomou banho. Debaixo do chuveiro entregou um choro compulsivo acumulado, lágrimas de um corpo com mais dispositivos para o sofrer do que para o prazer. Tocou seu corpo, as marcas ainda doídas da crueldade policial, mas havia muitas outras violências invisíveis no seu corpo feminino. Havia muito choro, medo, dúvida. Raiva. Verônica agora olhava para os seus espelhos interiores. Nascia em seu choro imenso, negro, cheio1 de vida.


Cristiane Sobral é atriz, escritora e professora de teatro. Mestre em Teatro com pesquisa sobre as estéticas nos teatros negros brasileiros. Publicou cinco obras com maior destaque para “Não vou mais lavar os pratos”. Sua poética busca inspirar as mulheres a se conhecerem (ou se reconhecerem), se aceitarem e se posicionarem diante do preconceito e do racismo.  Seus textos mesclam crítica e suavidade em uma linguagem atual, ousada e motivadora, transgredindo as representações estereotipadas, privilegiando os afetos, a subjetividade, a cultura e a intelectualidade das mulheres negras.