Nordestinos são alvos constante de xenofobia por conta de estereótipos que vão na contramão dos fatos

Por Andressa Franco

Imagem: Shutterstock

Na última quinta-feira (9), o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgou a antecipação do resultado do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2022. Até o momento, a região Nordeste lidera o ranking de redações que alcançaram a pontuação máxima, ou seja, redações “notas mil”.

Os estudantes precisaram escrever uma redação sobre o tema: “Desafios para a valorização de comunidades e povos tradicionais no Brasil”. Ao todo, o Nordeste contabiliza 11 notas mil, lista encabeçada pelo Ceará, com três notas máximas. Seguida pela Região Sudeste com seis e pela região Sul, com apenas uma.

Vale destacar que o Ceará constantemente se destaca entre os indicadores de educação do país. Em 2021, 18 dos 20 municípios brasileiros com maiores notas no o Índice de Oportunidades da Educação Brasileira (Ioeb) eram cearenses. Em 2022 o estado alcançou outra marca positiva: as 10 melhores escolas nos anos iniciais (1º ao 5º ano) do país são cearenses, de acordo com dados baseados no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

Xenofobia e desigualdade social afeta região

Não é a primeira vez que o Nordeste se destaca, seja no Enem, seja no desempenho de suas universidades, ou entre premiações que reconhecem a contribuição de pessoas da região para as diversas áreas da ciência.

Inclusive em rankings internacionais. A edição de 2022 do World University Rankings da revista inglesa Times Higher Education, por exemplo, posiciona a Universidade Federal de Sergipe (UFS) como a terceira melhor do Brasil. O levantamento avalia indicadores de desempenho de mais de 1600 universidades de cerca de 100 países.

Ainda assim, nordestinos são alvos constante de xenofobia por conta de estereótipos que vão na contramão desses fatos. Para Sarah Menezes, educadora popular, terapeuta integrativa e ativista do movimento de mulheres negras no Ceará, se trata de uma visão que se relaciona com próprio racismo.

“Inclusive é a forma violenta como os grandes empreendimentos tratam as comunidades tradicionais, com desrespeito aos seus saberes e conhecimento. Acreditando que trarão desenvolvimento, quando na verdade acentuam desigualdades, conflitos e adoecimentos diversos.”

Sarah Menezes, educadora popular, terapeuta integrativa e ativista do movimento de mulheres negras no Ceará – Imagem: Arquivo Pessoal

A educadora popular observa que existe uma falsa retórica sobre pobreza, quando o que na realidade existe são desigualdades de investimentos, incentivos e oportunidades para as potencialidades encontradas na região.

Em 2021, de acordo com dados do IBGE, o Brasil atingiu recorde no número de pessoas em situação de pobreza (62,5 milhões) e extrema pobreza (17,9 milhões). A situação é mais grave na região Nordeste, onde está a maior concentração de pessoas pobres: 48,7%. Também segundo números do IBGE, de 2016, o Nordeste figura como a região com as maiores taxas de trabalho infantil no país: 33%. Esses e outros dados compõe um cenário que, consequentemente, afeta o desenvolvimento da região.

Hoje com 33 anos, Sarah participou das duas últimas edições do Enem, e também da edição de 2016. Para ela, a prova é uma ferramenta democrática. No entanto, ainda não vê o ensino superior como uma realidade no alcance da maioria das pessoas. A nota do exame é usada na seleção de estudantes para o ensino superior nas universidades públicas e privadas no Brasil, e também em instituições internacionais.

“Mas sempre que surgem temas que estão no horizonte de engajamento e atuação dos movimentos sociais, gera uma identificação e a motivação para escrever”, afirma a respeito do tema escolhido para a redação de 2022. Para ela, o tema deve seguir a emergência das discussões geradas na sociedade.

Foi seguindo a lógica da emergência das discussões da sociedade, que o estudante Caio Pinheiro, de 20 anos, imaginou que o MEC iria propor um debate sobre saúde, tendo em vista a pandemia de covid-19. Estagiário no Instituto Odara, em Salvador (BA), essa foi a sua segunda vez fazendo o Enem, e não estava esperando pelo tema escolhido.

Caio Pinheiro, de 20 anos, é estudante e estagia no Instituto Odara – Imagem: Arquivo Pessoal

“O ensino público ainda é muito difícil e sucateado, mas em meio a isso sinto que nós jovens procuramos cada vez mais cursos pré-vestibulares para tirar uma boa pontuação”, avalia. Ainda assim, acredita que o bom desempenho do Nordeste motiva outros jovens da região que não se acham capazes de tirar uma boa nota. “Acredito que é uma forma de preconceito e racismo. A xenofobia é um medo incontrolável do desconhecido”