Por Wagner Lemos*

Imagem: Johann Moritz Rugendas

Machado de Assis ironicamente escreveu que a ordem social nem sempre se alcança sem o grotesco e o cruel. Reitero: era uma ironia do grande mestre da literatura brasileira. Nesse texto, o conto “Pai contra mãe”, discutiu com sua pena mazelas da escravidão, as pancadas da vida sobre os pobres e as violências sofridas pelas mulheres. Ao se referir à ideia de que a ordem social era estabelecida com atos grotescos e cruéis, Machado tratava no conto sobre o instrumento de contenção chamado máscara de folha de flandres, objeto de tortura e aprisionamento como eram o ferro ao pescoço e o ferro ao pé. A máscara descrita no conto era algo bem similar ao que ficou conhecido em “O homem da máscara de ferro”: uma prisão para a cabeça. Uma cadeia que se leva sempre consigo. Quando lemos o texto machadiano, achamos difícil crer que existissem tais objetos tamanho é o absurdo da crueldade. No entanto, pude ver horrorizado, no Museu Afro Brasil, em São Paulo, o instrumento de contenção. Negros, como eu, Machado, meus avós, filho e irmãos eram encapsulados no metal.

Exatamente dois anos após o assassinato de George Floyd, em Minneapolis, nos Estados Unidos, mais um negro entrou para as estatísticas de “mais um caso isolado” de corpo negro executado pela ação de forças policiais. Desta feita, o horror não se deu longe, mas, aqui em Sergipe, menor estado da federação. Genivaldo de Jesus Santos, homem negro de 38 anos, neuroatípico, foi encapsulado pelo metal, não da máscara de folha de flandres, porém de uma viatura policial que se tornou naquele momento saleta de execução. Os homens fardados lançaram dentro da cápsula de metal o homem pobre de pele escura. Do lado de fora somente suas pernas amassadas pelo metal da porta, seus pés com paupérrimos chinelos e a fumaça advinda da bomba de gás que os fardados soltaram dentro da viatura. Mais uma vez um negro, desarmado, teve sua alma arrancada do corpo. Mais uma vez passara por “métodos de contenção”. De fato, contiveram definitivamente. O laudo do Instituto Médico Legal atestou asfixia. Ele realmente foi contido, mas desta vez, para uma madeira escura como sua pele para ser sepultado também numa terra escura como o luto que passam os filhos e viúva desse pobre homem.

O ato grotesco e cruel teve os requintes de recriar em um veículo pago por nossos impostos improvisada câmara de gás. Inspiração recreativa provavelmente de gente sórdida que, talvez, ao ler sobre o Holocausto não se compadeça das vítimas, mas encontre identificação com os algozes e queira repetir-lhes os crimes.

Nós, negros, sabemos o amargo sabor de um holocausto nosso de cada dia. O genocídio ocorre aqui e ali todos os dias em “casos isolados” que cotidianamente acontecem. Todos os dias, temos o cuidado de carregar as notas fiscais para não sermos tratados acusados de roubo; não importa o frio que faça, evitamos usar roupas com capuz a fim de não sermos acusados de estarmos tentando ocultar identidade; não nos atrevemos a esquecer um documento em casa, pois poderemos ser abordados e teremos que mostrar quem somos; temos receio de entrar em uma loja e sair sem comprar, já que vão especular que fomos furtar; de mesmo modo, andamos cuidadosos nas lojas e mesmo assim, somos seguidos pelos seguranças; evitamos determinados cortes de cabelo ou ainda temos que muito melindre na hora de escolher uma roupa para sair de casa, uma vez que se for muito simples ou informal, vão nos ter por pobres marginais e logo, seremos “enquadrados”. Esse caminhar cuidadoso é para que desviemos o nosso corpo das algemas, das balas, do joelho no pescoço ou do gás que nos sufoca. Todos os dias uma dose de morte. Todos os dias, vários crimes contra a nossa dignidade. Todos os dias, um caso isolado. Todos os dias, jogam os nossos corpos num mar de escárnio por onde, indiferente à dor, percorre esse remodelado navio negreiro. 

*Doutor em Literatura (USP). @prof_wagnerlemos