Mortes de Genivaldo de Jesus a Mateus Félix amedrontam juventude negra sergipana

Por Laila Thaíse Batista de Oliveira*

Sergipe tem pontuado, sem pudor, no ranking de homicídios da população negra no Brasil. Isso porque, apesar de ser o menor estado do país, está entre os mais violentos. O último Atlas da Violência, divulgado em 2021, coloca o estado de Sergipe em terceiro lugar com relação às taxas de mortalidade violenta juvenil, e em segundo lugar no aumento das taxas de homicídios que vitimaram mulheres. Os homicídios que vitimaram pessoas negras apresentaram crescimento de 55,8% no período entre 2009 e 2019, e a taxa de homicídios de negros e negras em 2019 foi de 51,5%. 

 Mateus Félix figura mais uma vítima para as graves estatísticas de mortalidade da população negra sergipana, com suspeita de vítima de violência do Estado, um jovem de 21 anos, negro e de periferia, teve sua vida ceifada e a família só conseguiu localizar o corpo dias após sua morte.  

O jovem desapareceu  em cinco de outubro por volta de 20h30min na Avenida Pantanal, local conhecido com pracinha. Ele e mais dois jovens da comunidade foram abordados por policiais militares, porém Mateus estava na beira do rio quando foram abordados. Pessoas da localidade ouviram alguns disparos de arma de fogo, a situação foi filmada por alguns moradores da comunidade do São Conrado.  

No dia seguinte a família e moradores iniciaram as buscas por Mateus, porém não obtiveram sucesso. Somente na manhã de sete de outubro, dois dias após o desaparecimento,  o corpo de Mateus Félix foi encontrado  por moradores no mangue por volta das 8h, próximo do que fora relatado pela comunidade. 

 Em seguida, foi acionado o Corpo de Bombeiros para fazer o resgate, porém, moradores relatam que a Polícia Militar impediu que familiares pudessem fazer o reconhecimento. 

Desde então, a família não teve acesso ao corpo no Instituto Médico Legal – IML. Os laudos emitidos até o momento relatam a causa da morte por afogamento, constatação que moradores e família não aceitam  e solicitam nova perícia do corpo.  

Diversas manifestações foram realizadas pelos moradores, movimentos sociais e família, mas não tiveram retorno do poder público e instituições que denunciam as violações de direitos humanos em Sergipe.  

Segundo morador que não quer se identificar, as abordagens violentas são frequentes e os moradores vivem com medo, principalmente a noite.  

A última notícia a respeito do caso, é que a família terá que retirar o corpo do IML, mesmo em desacordo com o laudo final, devido à mudança de sede do Instituto. A retirada do corpo dificulta uma nova perícia independente, que pode confirmar a versão apresentada pela família e a comunidade. 

“O descaso dos governantes do nosso Estado, para com o genocídio do povo preto, é gritante. E esse descaso naturalizou a ação truculenta da polícia, principalmente, nas periferias. Nós queremos, e estamos lutando, junto à família e aos demais movimentos sociais, para que se investigue o caso com rigor e respeito. A comunidade do Pantanal tem lidado com essas abordagens descabidas, que não vemos acontecer, por exemplo, em festas e raves de pessoas de classe alta, como dizem. É cruel a forma como a justiça tem lidado, não só com o caso de Mateus, mas também de Clautenis e Genivaldo. E mais repugnante ainda, são os políticos, que não se posicionam, não ajudam a cobrar uma resposta. Mas é justamente na periferia que visitam para pedir votos e fazer promessas.  Continuaremos cobrando justiça e uma investigação por parte da corregedoria da polícia. Pelo visto, a morte de pessoas pretas é rentável para o estado e seus governantes. Vergonhoso”, declarou Wanessa Fortes, da coordenação do Movimento Negro Unificado de Sergipe.   

Diante da gravidade dos fatos, a situação foi denunciada no Encontro Internacional em comemoração aos 30 anos da Red de Mujeres Afrolatinoamericanas, Afrocaribeñas y de la Diáspora, que  aconteceu entre os dias 18 e 20 de novembro, em Salvador, subscrita pelos movimentos sociais presentes.  

Assinaram o documento organizações como o Instituto Geledés, CRIOLA, Rede de Mulheres Negras do Ceará, Race and Equality, Coletivo Ayabás, Rede Candaces, ABDJ (tocantins), Fórum de Entidades Negras de Sergipe, Rede de Mulheres Negras de Sergipe, Setorial de Negros/as do PSOL Sergipe, Afronte/SE e a Auto-organização de Mulheres Negras de Sergipe Rejane Maria. As entidades solicitam dos órgãos públicos, como Ministério Público Estadual e Defensoria Pública de Sergipe, que possam acompanhar o caso e dar assistência à família para uma melhor apuração dos fatos, considerando a possibilidade de violência policial.

*Jornalista, mestra em Comunicação e Sociedade (PPGCOM/UFS) e membra da Auto-organização de Mulheres Negras de Sergipe Rejane Maria