Polícia baiana é a que mais mata no Brasil e 94,76% das vítimas são negras, aponta relatório

Pela primeira vez em quatro anos o estado ultrapassou o Rio de Janeiro em letalidade policial no relatório da Rede de Observatórios da Segurança. Foram 4 vítimas a cada 24 horas em 2022.

Por Andressa Franco

Imagem: Divulgação

A Rede de Observatórios da Segurança divulgou nesta quinta-feira (16) pelo quarto ano consecutivo o relatório “Pele Alvo: a bala não erra o negro”. O estudo mostra que a Bahia é o estado onde a polícia mais mata no Brasil, ultrapassando pela primeira vez o Rio de Janeiro.

Das 1.465 vítimas da polícia baiana em 2022, 94,76% das que tiveram cor ou raça identificadas eram negras. Em contrapartida, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2022, 80,80% da população no estado se autodeclara negra.

Nos oito estados monitorados pelo levantamento, uma pessoa negra foi morta a cada quatro horas pela polícia ao longo de 2022. Foram 4.219 pessoas mortas por intervenção. Destas, 65,66% eram negras, o que equivale a 2.770 vítimas. O dado considera números da Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo, e foram obtidos via Lei de Acesso à Informação.

Atrás da Bahia, seguem Rio de Janeiro, com 1.330 mortes, e Pará, com 631. Todos os estados monitorados seguiram o padrão apresentada na Bahia, e tiveram os negros como maioria dos mortos. Outra informação sobre o perfil das vítimas da polícia baiana é a faixa etária: jovens de 18 a 29 anos representam 74,21% delas.

Imagem: Divulgação
A cada 24 horas, 4 pessoas foram mortas pela polícia na Bahia

O relatório da Rede de Observatórios de Segurança classificou os índices de letalidade policial atingidos na Bahia em 2022 como o ápice da brutalidade. “O número de 1.465 mortos ficará marcado na história baiana, que há pelo menos oito anos enfrenta um aumento desenfreado das mortes causadas por policiais.”

Ainda de acordo com o levantamento, o governo Rui Costa (PT) foi um marco para os recordes observados hoje. Em 2015, primeiro ano da gestão do atual ministro da Casa Civil, a Bahia registrou 354 mortes cometidas pelas forças de segurança. Em 2022, o ex-governador deixou o cargo entregando um aumento de mais de 300% na letalidade policial.

A chamada guerra às drogas é a principal motivação para as operações policiais no estado, e afeta cotidianamente a vida dos moradores das periferia. Ainda que segundo o estudo “Eu sou parte de você, mesmo que você me negue”, produzido pela Iniciativa Negra por uma Nova Política de Drogas em 2021, os números de apreensão de drogas sejam superiores em territórios ricos e brancos da capital baiana, como Barra e Pituba.

“Há manutenção e até acirramento de uma política beligerante, tendo como justificativa uma suposta guerra às drogas. Mas com uma atuação letal em determinados bairros e tendo como alvo determinados corpos”, avalia Daiane Ribeiro, assessora jurídica do projeto do Instituto Odara “Minha Mãe Não Dorme Enquanto Eu Não Chegar”, que acompanha famílias de vítimas do Estado. A advogada aponta ainda entre os fatores para o recorde de letalidade, a criação e ampliação de Unidades Especializadas de Policiamento, como RONDESP, BOPE e PETO, que tem um alto grau de letalidade, em paralelo ao pouco investimento nos departamentos de investigação e inteligência.

“O governo da Bahia segue apostando na política do confronto como única resposta. As escolas são fechadas, os postos de saúde também, os trabalhadores e trabalhadoras não saem de casa e, de forma sistemática, têm os direitos violados. No final, os únicos resultados dessas operações são as pilhas de corpos, vidas de crianças, adolescentes e jovens perdidas e esquecidas, sem nenhum tipo de responsabilização e reparação.”, aponta o relatório “Pele Alvo”.

Disputa de narrativas

A Rede de Observatórios também chama atenção para a importância da disputa de narrativas no debate sobre segurança pública e do combate a “manchetes de jornais” que forjam e reforçam estereótipos de demonização e criminalização da juventude negra.

“Nunca será demasiado o esforço de lembrar que os números frios retratando nossas mortes têm histórias de bolos de aniversário, férias em família, paixões adolescentes, mergulhos no rio e no mar. As estatísticas são, acima de tudo, o registro de vidas pulsantes tragicamente interrompidas.”, completa.

Compartilhar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *