Conheça a primeira mandatada coletiva do estado da Bahia, formada por   Cleide Coutinho, Gleide Davis e Laina Crisóstomo

Por Patrícia Rosa e Andressa Franco

Das 43 cadeiras da Câmara Municipal de Salvador, apenas nove são ocupadas por mulheres. Quando feita uma comparação com a população da capital baiana a discrepância é grande, já que as mulheres são 54,7% da população, enquanto que na Câmara equivalem a 20,93%.

Uma dessas cadeiras pertence hoje à primeira mandata coletiva do estado, as “Pretas Por Salvador”, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). A chapa foi eleita com 3.635 votos, em 2020 e é composta por três mulheres, Cleide Coutinho, Gleide Davis e Laina Crisóstomo. A Justiça Eleitoral ainda não permite que mais de uma pessoa possa exercer a função, por isso a mandata não é oficialmente reconhecida pelo Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA). Em termos oficiais a mandata é representada por Laina Crisóstomo. 

“Existem vários questionamentos pela bancada do governo. Hoje existe um reconhecimento respeitoso, mas ainda tem vários entraves da burocracia para que a gente não consiga exercer plenamente nosso mandato coletivo. Mas, a gente tem feito os enfrentamentos, debates e diálogos necessários para seguir ocupando esses espaços de poder a partir do que a gente acredita, que é na coletividade”, diz Crisóstomo.

A mandata é composta por mulheres pretas de comunidades, que pautam movimentos e lutas diferentes, por um mesmo propósito. Atuam pelo direito das mulheres, pelo antirracismo, contra o genocídio da juventude negra, pelo direito à moradia digna, educação popular, igualdade de gênero e raça, pelo combate à intolerância religiosa, à gordofobia e a LGBTfobia. O formato se espelha na experiência de grupo de vereadoras semelhantes em outros estados. 

Cleide Coutinho

A co-vereadora Cleide, de 47 anos, é graduada em hotelaria, militante do movimento Sem Teto e, como ela mesma diz, é forjada no movimento sindical. Evangélica progressista e feminista, foi filiada ao PT, onde militou durante 13 anos. Hoje, faz parte da Frente de Mulheres de Cajazeiras, dirige o Movimento Nacional de Luta por Moradia e atua na executiva municipal do PSOL/Ba. 

Imagem: Arquivo Pessoal

O caminho de Cleide na política institucional vem de outros passos, ela já havia tentado a experiência como candidata à deputada federal, e em 2018, no mesmo ano que sua companheira de mandata, Laina Crisóstomo. “No fim da eleição, a Laina teve um estouro de votos, faltando pouco para ser eleita. E eu percebi que se tivéssemos somado nossos votos, a gente hoje teria uma deputada federal”. 

A parlamentar sente a responsabilidade da presença da mandata na Câmara de Vereadores e admite existir divergências entre as três parlamentares em pontos específicos, mas que utilizam do diálogo para centralizar as pautas. “O entendimento é esse, para que seja o melhor pra população, a gente faz consulta popular também, pois queremos ouvir o povo”.

Uma consulta pública realizada pela mandata, em outubro de 2021, foi para análise do projeto de lei estadual, que tem como intuíto instituir a Semana Municipal de Conscientização pelo Aborto Legal e Seguro, através do Projeto de Lei nº 327/2021. A intenção é coletar dados para a elaboração de políticas públicas de saúde para as mulheres.

Uma proposta de grande repercussão da mandata, foi o Plano Municipal de Cultura, aprovado em dezembro do ano passado, depois de ter sido rejeitado pela bancada evangélica da Câmara por conter trechos a respeito da comunidade LGBTQIA+. O discurso de Laina durante a sessão em defesa do projeto, viralizou nas redes sociais, e a vereadora chegou a chorar ao relembrar o preconceito que já sofreu por ser lésbica. 

Em sua experiência com esse formato de candidatura, Cleide avalia que, apesar de não ter possibilidade de fala nas sessões, pois nessa  legislatura o poder de fala e votação é de Laina, tanto ela como a Gleide têm acesso às comissões. “Ainda que seja conservador, ainda que nos neguem algumas coisas, eu vejo isso como avanço”.

A co-vereadora, no entanto, não deixa de apontar os desafios vividos na trajetória de uma mulher negra que ocupa esse espaço. “É um espaço que, quando eu entro, os olhares me flecham, porque eu vou com meu cabelo black, chinelo de couro, roupas do dia a dia. O meu sonho é um dia ver aquela Câmara ocupada pela população negra, por mulheres que representam as nossas lutas, bandeiras, que construam comigo uma cidade mais justa”, desabafa.

Cleide lembra do contraste nos olhares que recebeu ao ocuparem a Câmara de Vereadores de Salvador. “As pessoas que faziam a limpeza e serviam cafezinhos, quando a gente entrou que eles viram que era uma mandata de três mulheres pretas, olharam pra gente e as lágrimas caíram. Eu logo pensei na responsabilidade que a gente tinha”.

Gleide Davis

Gleide Abigail Lemos Fraga, de 28 anos, é conhecida como Gleide Davis, é graduada em administração, candomblecista,  e sua trajetória política teve início nos movimentos populares na Suburbana, região onde mora em Salvador. O Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) foi outro espaço onde sua vida política se fortaleceu. A estudante de serviço social da Universidade Federal da Bahia (UFBA) também atuou na internet, no blog Feminismo sem Demagogia, uma página que aborda o debate na luta por um feminismo de Gênero, Raça e Classe.

Imagem: Arquivo Pessoal

Gleide sempre teve como bandeiras indispensáveis  a juventude e a política contra o extermínio e o encarceramento em massa. “Comecei a pautar isso quando o meu irmão foi assassinado sem precedentes e sem justificativas. E eu entendo que essa política de encarceramento, de guerra às drogas, nada mais é do que uma desculpa para extermínios, para o encarceramento em massa”.

A mandata tem suas ações focadas em mudanças políticas  na comunidade e no direito a vida, sobretudo de mulheres e homens negros. “A gente tem conseguido acompanhar bem a conjuntura no sentido de refletir e brigar a favor dos direitos das mulheres negras dessa cidade, da juventude, das pessoas pobres, para que sobrevivam e vivam com dignidade”, aponta Gleide.

A co-vereadora aborda a conjuntura atual como a vivência de um cenário de caos sanitário e econômico, onde a população mais pobre segue  “pagando a conta” e em vulnerabilidade. Outra problemática que cresce nesse contexto, é a violência policial. “O número de operações policiais clandestinas que não são divulgadas e combatidas, que os responsáveis não são criminalizados, continuam acontecendo. As pessoas negras continuam sendo assassinadas nas periferias, em maior número inclusive”, acrescenta.

O impacto da presença de mulheres negras na política institucional é visto com grande importância de representatividade pela mandata. “É uma mandata coletiva de mulheres negras, duas de candomblé, uma evangélica feminista, que entende a importância da diversidade religiosa, do aborto como uma escolha individual e de direito reprodutivo e sexual do corpo da mulher”. As dificuldades também são colocadas, “temos que ver muitas figuras políticas utilizando das nossas pautas para se elegerem e efetivamente não cumprirem com suas agendas”, completa Davis.

Laina Crisóstomo

Para Laina Crisóstomo, mãe solo e filha de mãe solo, “ser mulher é difícil, mas ser mulher preta é o dobro”, afirma. Aos 14 anos, a hoje advogada, começou sua trajetória política no Grêmio Estudantil, participando da ‘Revolta do Buzu’, contra o aumento nos preços das passagens de ônibus, que ocorreu em setembro de 2003.

Laina é formada em direito pela Universidade Católica de Salvador (UCSAL), e em 2016 começou a atuar na advocacia feminista criando a organização “Tamo Juntas’, que atua de forma voluntária na assistência multidisciplinar a mulheres em situação de violência. Foi em 2018 que Laina dispôs seu nome para a política partidária pela primeira vez, como deputada federal. “Eu acreditava que ia ser uma candidata potente, mas eu não tinha dimensão de que eu ia ter quase 14 mil votos”,  pondera. 

Imagem: Reprodução Facebook

Atualmente, em um cenário nacional, a mandata levanta a preocupação para a gestão de um país por um presidente negacionista. “Ele nega a ciência, nega a importância do acesso à saúde pelas pessoas. A gente, os movimentos sociais, temos nos juntado numa grande frente ampla de esquerda, pela derrubada do Bolsonaro”, explica Laina, que no cenário eleitoral de 2022, destaca que essa frente não vai organizar um único projeto político. “Cada um vai pensar seus projetos, mas neste momento é fundamental ter uma unidade para a derrubada do Bolsonaro”.