O livro será lançado no dia 9 de setembro, no Rio de Janeiro (RJ). Os autores apontam como os homenageados no espaço público nacional refletem certa construção histórica e política de uma comunidade integrada.

Por Andressa Franco

Desde 2020 têm crescido e dividido opiniões ações como a derrubada de estátuas de escravistas, colonizadores e bandeirantes em diversas partes do mundo. O movimento se popularizou nos Estados Unidos durante os protestos decorrentes do assassinato de George Floyd.

Foi nesse contexto que surgiu a Galeria de Racistas, iniciativa desenvolvida pelo Coletivo de Historiadores Negros Tereza de Benguela, em parceria com o Notícia Preta. O objetivo do mapeamento era pautar a partir de um aporte teórico e acadêmico a retirada desses monumentos pela participação dessas figuras na escravidão indígena e negra. Além disso, foi elaborado um Projeto de Lei com o mesmo objetivo.

Três anos depois, o trabalho resulta no lançamento de um Dossiê: “GALERIA DE RACISTAS:  Reparação, Agência e Resistência”. O lançamento acontece no próximo sábado (9), às 15h, no Tuia Café Cultural, localizado na Ocupação Manuel Congo, no Rio de Janeiro (RJ).

O livro questiona como a permanência da escravidão ainda hoje é expressa, principalmente, nos índices estatísticos das desigualdades sociais, econômicas e políticas entre negros e brancos. Destacando os espaços públicos e arte pública que revelam também essa desigualdade racial.

Os autores apontam como os homenageados no espaço público nacional refletem certa construção histórica e política de uma comunidade integrada, ressaltando valores que visam a coesão dos indivíduos pertencentes a essa comunidade nacional, ao mesmo tempo que mantem na periferia povos indígenas e negros vitimados no período da colonização e pós-colonial.

Para Camilla Fogaça, uma das autoras, mapear, catalogar monumentos e propor o PL servem para apontar parte dos problemas raciais e memorialistas do Brasil, além de sinalizar uma saída para tornar os lugares simbólicos mais democráticos. Já o Dossiê, explica, aprofunda os debates que envolvem os objetivos da Galeria, como Território, Interseccionalidades, Narrativas contra-hegemônicas e Negritude.

“A Galeria é uma expressão não só brasileira, mas de parcela significativa da sociedade contemporânea que exige ser integrada na memória dos espaços consagrados. Os eventos transnacionais de retirada dos monumentos, intensificados após 2020, evidenciam essa afirmação. Então, assim como a sociedade, estamos em movimento e o dossiê faz parte da ação”, afirma a historiadora.

Camila Fogaça – Imagem: Reprodução Redes Sociais

Os capítulos propõe reflexões entorno da ocupação do espaço público, a construção dos lugares de memória no Brasil e políticas de reparação para indígenas e negros vitimados pelo sistema colonial e pela colonialidade.

“Os autores buscaram analisar como ao longo da história os espaços urbanos foram lugares privilegiados para exaltar a branquitude. E de forma correlata apagar a agência de homens e mulheres negras”, completa Jorge Santana, que também integra a curadoria da Galeria e a autoria do livro.

Jorge Santana – Imagem: Reprodução Redes Sociais

O evento contará com a presença dos autores: a museóloga Ariane Corrêa, os historiadores Camilla Fogaça, Debora Simões, Jorge Santana, Nathalia Oliveira, a também pedagoga Cristiane Soares, a professora da UERJ Patrícia Elaine, a professora do Pedro II Suelen Julio, e a geógrafa Simone Antunes. A mesa será mediada pela jornalista e diretora do portal Notícia Preta Thais Bernardes.

Os autores falarão brevemente sobre suas contribuições para o dossiê, destacando a importância da luta contra os monumentos escravistas no Brasil e no mundo. O evento será finalizado com uma apresentação de 30 minutos realizada pela “Companhia de Dança Arte e Saber de Ouro”, que homenageará a ancestralidade negra. Haverá ainda venda do livro e sessão de autógrafos. Você pode adquirir a obra clicando aqui.

A obra é fruto de uma parceria em caráter transnacional entre o Coletivo Negro de Historiadores Tereza de Benguela, a Toppled Monuments Archive (Arquivo de Monumentos Tombados) e a New York University. A obra conta exclusivamente com autores negros e negras em sua produção, para pautar o protagonismo da negritude na academia, intelectualidade, ciências e em todas áreas que historicamente foram negadas pelo racismo em nosso país.