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Racismo religioso em instituições de saúde expõe pacientes de matriz africana a situações de violência

Casos em hospitais brasileiros revelam como o preconceito atravessa práticas de cuidado, viola direitos e impacta a saúde física e emocional de pessoas de religiões de matriz africana
Colagem: Karla Souza

Por Karla Souza e Luana Miranda

A virada para o ano novo foi logo ali, e as redes sociais voltaram a ser ocupadas por orientações sobre rituais da passagem: usar branco, pular as sete ondas, depositar flores ao mar… Esse calendário tradicional afro-brasileiro se estende com festas durante o verão, como a Festa de Yemanjá, que reúnem milhões de adeptos. 

Contudo, discutir a respeito da intolerância religiosa contra religiões ligadas à ascendência africana precisa percorrer caminhos para além da influência cultural e dos debates realizados até então nas redes sociais. É preciso compreender que a intolerância, neste caso, está intrinsecamente atrelada ao racismo e se estende a diversas esferas sociais, como a saúde.

A psicóloga, candomblecista, pesquisadora e mestre em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz), Ana Raquel Mattoso, relatou que há um certo descaso no campo da saúde quanto à questão do impacto do racismo religioso no bem-estar das pessoas. Para além das doenças psíquicas, em muitos casos, é possível identificar o adoecimento físico, cujas consequências são irremediáveis. 

Ana Raquel Mattoso é psicóloga, candomblecista, pesquisadora e mestre em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz) / Imagem: Acervo Pessoal

Ela dedicou sua pesquisa a entender os efeitos psicossociais do racismo religioso no município de Campos dos Goytacazes, interior do Rio de Janeiro, território marcado pela plantio de cana de açúcar no Brasil colonial, sendo o último município no país a abolir a escravidão. Atualmente, o município concentra cerca de 103 centros religiosos de matriz africana registrados.

Durante o estudo, a profissional identificou entre os entrevistados impactos no sono, casos de depressão, grande estresse e ansiedade. Também foram registrados casos de hipertensão, diabetes, acidente vascular cerebral (AVC) e morte súbita logo após as vítimas sofrerem episódios de racismo religioso. “Eu não quero tratar de intolerância e racismo religioso como uma questão apenas de saúde mental, porque o caminho natural que as pessoas vão fazer é justamente tratar com um sofrimento individualizado. Mas é um sofrimento produto do social”, acrescenta a pesquisadora, que ressalta a importância de olhar para os exames e determinantes sociais de saúde.

Para além dos impactos na saúde individual, o racismo religioso afeta toda a estrutura institucional da área da saúde. Segundo a enfermeira obstetra, candomblecista, professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Cristiane dos Santos, o racismo religioso no campo da saúde se expande, especialmente em contextos de cuidado institucionalizado. Em ambientes como hospitais, onde a vulnerabilidade é intensificada pela dependência do cuidado de terceiros, esse tipo de violência se manifesta por meio de discriminação, julgamentos morais e negação de direitos.

Cristiane dos Santos é enfermeira obstetra, candomblecista, professora da UFRB e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da UEFS / Imagem: Acervo Pessoal

A pesquisadora explica que o medo do desrespeito leva muitas pessoas a ocultar sua religiosidade. “Imagine uma pessoa que está dependente do cuidado de outras que não conhece, que podem jogar seu fio de conta no lixo, dizer que sua prática religiosa é ‘do demônio’ ou afirmar que o sofrimento vivido é consequência da sua fé. Situações como essas, que já presenciei, tornam ainda mais violenta a experiência de quem está hospitalizado.”

As reflexões apresentadas pela docente são expostas em relatos de vítimas de violação de direitos, como é o caso de Tainá Louriçal. Durante a internação no Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, no Rio de Janeiro (RJ), a dofona de Osumare e iniciada no candomblé há 17 anos, percebeu o desaparecimento de seus fios de conta. Segundo ela, os fios foram retirados apenas para o banho e deixados sobre a cama do quarto no dia 18 de abril de 2025. Ao retornar, já não estavam lá. A busca pelos objetos envolveu familiares, outros pacientes e setores do hospital, sem sucesso.

A situação ganhou contornos de violência religiosa quando, ao questionar uma profissional de enfermagem que havia auxiliado no banho, a então paciente ouviu: “só Jesus salva, só Jesus liberta”. Sem reconhecer inicialmente a dimensão do ocorrido, ela compartilhou o relato nas redes sociais como um desabafo. A repercussão levou à identificação do caso como racismo religioso e à formalização de denúncia na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi). 

“Para mim, os fios de conta são mais do que um símbolo religioso. No contexto do tratamento do câncer de mama, eles representam vida, continuidade e força espiritual quando o corpo cansa e se transforma. Eles me lembram que meu corpo é sagrado, que sou sustentada pela minha ancestralidade e pelo axé que me mantém de pé.”

Tainá Louriçal foi vítima de racismo religioso durante internação no Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, no Rio de Janeiro (RJ) / Imagem: Acervo Pessoal

Após a repercussão do caso, a vítima afirma que não recebeu nenhum pedido de desculpas ou apoio institucional por parte do hospital. Segundo ela, a resposta da unidade de saúde foi marcada por negligência, inclusive com a indicação inicial de que não haveria possibilidade de cirurgia. Diante da negativa, Tainá voltou a recorrer às redes sociais e, paralelamente, ingressou com ação judicial por negligência, o que resultou na realização do procedimento cirúrgico. 

Para a paciente, episódios como esse evidenciam a necessidade de responsabilização das instituições de saúde, que, segundo defende, devem investir na formação de profissionais, garantir o respeito à liberdade religiosa, preservar pertences de valor simbólico e assegurar respostas efetivas às denúncias. Passados nove meses do ocorrido, ela relata que a apuração anunciada pelo hospital segue sem conclusão.

“Que não tenhamos vergonha de quem somos e da nossa fé, que honremos nossos orixás, nossa ancestralidade e nossa existência”, acrescenta.

Para Cristiane, o caso de Tainá não é um episódio isolado, mas a expressão de um racismo religioso que atravessa a sociedade brasileira e se reproduz nos serviços de saúde. A pesquisadora avalia que profissionais chegam às instituições carregando preconceitos, o que impacta diretamente o cuidado prestado a pessoas de religiões de matriz africana. Segundo ela, a ausência de formação adequada e a recusa em reconhecer práticas de cuidado ligadas à ancestralidade africana produzem um atendimento marcado por desvalorização, medo e violência simbólica. 

Outras denúncias de racismo religioso em instituições de saúde

Embora a legislação brasileira assegure o direito à assistência religiosa em hospitais públicos e privados, a garantia prevista na Lei nº 9.982, de 2000, nem sempre se concretiza na prática. 

Em 2022, no Hospital Estadual Carlos Chagas, em Marechal Hermes, no Rio de Janeiro, a ialorixá Ana Paula Santana de Souza, conhecida como Iya Paula de Odé, foi impedida de acessar a unidade para realizar um ritual religioso em Jerônimo Rufino dos Santos Júnior, seu filho de santo, internado em estado grave após sofrer um AVC.

Segundo a liderança religiosa, o procedimento seria rápido e não oferecia riscos ao ambiente hospitalar, o que foi explicado à direção da unidade com o apoio de sua advogada. Ainda assim, a entrada foi negada. Após horas de espera, o caso foi registrado na delegacia e encaminhado à Comissão de Combate às Discriminações da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, sendo apurado como intolerância religiosa.

“Poderia ter feito mais e não consigo pela intolerância religiosa. Eu queria falar pra família: ‘fizemos tudo o que foi possível’. Essa dor que a gente está sentindo vai se transformar em luta, não vai parar”, relatou na época ao G1.

Jerônimo Rufino dos Santos Júnior morreu após sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Sua Mãe de Santo foi impedida de realizar um ritual enquanto ainda estava internado / Imagem: Reprodução Redes Sociais

Outra denúncia veio a público em 2024, envolvendo o carioca Jorge Adão. Ele acusa o Hospital São Francisco na Providência de Deus, também no Rio de Janeiro, de intolerância religiosa após sofrer uma queimadura durante uma cirurgia na coluna que atingiu uma tatuagem em homenagem ao orixá Ogum. O caso motivou uma ação judicial por danos morais.

A cirurgia, realizada em agosto do ano anterior, durou cerca de nove horas. Ao despertar da sedação, Jorge Adão foi encaminhado ao centro de terapia intensiva com lesões graves no braço, incluindo bolhas e desprendimento da pele. Segundo ele, a equipe médica apresentou versões divergentes sobre a causa da queimadura, atribuindo o ferimento ora a uma falha técnica, ora a uma suposta reação química da tatuagem. O episódio ganhou repercussão após o paciente relatar o caso à imprensa, o que levou o Ministério Público Federal a recomendar que o hospital elaborasse um protocolo específico de atendimento para pessoas de religiões de matriz africana. 

Em nota, a instituição negou a acusação de intolerância religiosa e afirmou que o acidente foi involuntário.

Imagem: Acervo Pessoal

A repetição desses episódios revela como o racismo religioso segue naturalizado em espaços que deveriam garantir cuidado e proteção. Cristiane avalia que, se o racismo é crime, as instituições precisam assumir a responsabilidade de criar mecanismos firmes de punição. Para ela, não basta que a lei exista no papel: é necessário incentivar a denúncia, acolher as vítimas e dar transparência aos desdobramentos dos casos. “A gente vive numa sociedade em que existe lei contra o racismo, mas todo mundo diz que não é racista. Quando não há punição, o crime se repete.”

Intolerância religiosa mantém ritmo elevado de denúncias

Dados reunidos pelo Disque Direitos Humanos (Disque 100), canal vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), indicam que a intolerância religiosa segue como uma violação recorrente no Brasil. Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, foram registradas 2.774 denúncias relacionadas a esse tipo de violência, número superior aos casos contabilizados em 2024. A comparação reforça que os ataques motivados por religião não são pontuais, mas parte de um padrão que se repete ano após ano.

Quando observadas as religiões atingidas, os dados evidenciam um impacto desproporcional sobre práticas de matriz africana. A Umbanda concentra 228 denúncias, seguida pelo Candomblé (161), por registros que mencionam Umbanda e Candomblé conjuntamente (47) e por outras religiosidades afro-brasileiras (40). Há ainda ocorrências envolvendo pessoas evangélicas (72), católicas (37), espíritas (30) e casos em que a vítima não soube informar sua religião (50).

No recorte territorial, os estados com maior número de registros foram São Paulo (667), Rio de Janeiro (446), Minas Gerais (323) e Bahia (211), embora haja denúncias em todas as regiões do país. Especialistas e entidades de direitos humanos destacam que os números não refletem a totalidade dos casos, já que a subnotificação ainda é comum, sobretudo quando as violações ocorrem em ambientes institucionais ou no âmbito privado.

Esse quadro dialoga com os resultados do levantamento nacional “Respeite Meu Terreiro”. O estudo aponta que 76% dessas comunidades já sofreram algum tipo de racismo religioso e que 80% relataram agressões diretas contra seus integrantes. Entre as violências mais recorrentes estão discriminação institucional, agressões verbais, ameaças, interrupções forçadas de rituais e depredações.

Casos de racismo religioso podem ser denunciados pelo Disque 100, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia e permite o registro anônimo de violações. Além deste canal, as vítimas também podem procurar delegacias comuns ou especializadas em crimes raciais, quando existentes na localidade.

O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa

Em 2007, foi instituído o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Celebrada em 21 de janeiro, a data foi promulgada pela Lei nº 11.635, elaborada em memória ao falecimento da Iyalorixá Gildásia dos Santos e Santos, conhecida como Mãe Gilda de Ogum

A líder religiosa foi uma das muitas vítimas do preconceito direcionado às religiões de matriz africana, episódios que geraram consequências irreversíveis a sua saúde. A história de Mãe Gilda ficou marcada pelo ativismo na comunidade local e pelo combate ao racismo religioso. Fundadora do Ilê Axé Abassá de Ogum, terreiro aberto em 1988,  no bairro de Itapuã, em Salvador (BA), a Iyalorixá sofreu diversos ataques à sua religiosidade, mas os últimos anos da sua vida foram fortemente impactados pelo racismo religioso de membros da Igreja Assembleia de Deus e da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). O estopim das violências ocorreu no ano 2000, quando Mãe Gilda foi atacada dentro do próprio terreiro por integrantes da IURD. 

No mesmo ano em que ela teve o terreiro invadido, o jornal intitulado “Folha Universal” publicou uma foto de Mãe Gilda, ao lado da seguinte frase: “macumbeiros charlatões lesam a vida e o bolso de clientes”. Segundo os filhos de santo da Iyalorixá, após ter acesso ao jornal, a líder religiosa teve um ataque fulminante e morreu. Assim, a data de seu falecimento, 21 de janeiro, se tornou o marco de luta contra o racismo religioso.

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