Benny Briolly é a primeira mulher trans a ser eleita para casa legislativa da cidade e é mais uma vítima da violência política que atinge preferencialmente as mulheres negras

Por Andressa Franco

Imagem: Reprodução Instagram

Na noite da última quinta-feira (25), a Câmara Municipal de Niterói (RJ) foi palco de uma violência contra a vereadora Benny Briolly (PSOL-RJ) por parte do vereador bolsonarista Douglas Gomes (PTC-RJ). “Hoje fui agredida com transfobia, racismo e quase fisicamente pelo vereador fascista Douglas Gomes, que segurado pelos meus companheiros de bancada para que não me encostasse. Foi horrível e doloroso!”, relatou em uma publicação em suas redes sociais.

Briolly é primeira mulher trans a ocupar uma cadeira na casa legislativa de Niterói. De acordo com a equipe da vereadora em nota à Revista Fórum, a congressista fazia uma fala contra a composição de Gomes na Comissão de Direitos Humanos da Câmara, considerando que ele desrespeita de forma recorrente os direitos humanos com gestos e declarações.

Em reação à fala, o vereador se dirigiu ao microfone e a chamou de “vagabundo, moleque, seu merda e mentiroso”, em seguida tentou agredi-la fisicamente, sendo impedido pelos colegas de bancada. Na sequência, a sessão foi encerrada.

Segundo a própria parlamentar, oficialmente, nenhuma medida legal foi encaminhada para investigar o caso até o momento, mas a equipe da sua mandata já está trabalhando nisso. “O que já adianto é que seguirei firme na presidência da comissão de direitos humanos, da criança e do adolescente e garantindo que aquele seja um espaço que enfrente as violências, as violações de direitos e todo tipo de arbítrio. Teremos reuniões com a bancada do PSOL, com a presidência da Câmara e conto também com o prefeito de Niterói para garantir esse espaço tão importante para nossa cidade”, informa Briolly.

Correligionários como a deputada estadual Erica Maluguinho (PSOL-SP), a deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) e o candidato do PSOL à prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, declararam apoio a Briolly através das redes sociais.

Na tarde dessa sexta-feira (26), o Instituto Marielle Franco – responsável pelo estudo em que 52% das entrevistadas relataram ter sofrido racismo durante o período eleitoral – comunicou através de suas redes que se uniria à mandata coletiva de Benny. A entidade se junta às organizações Justiça Global e Terra de Direitos – responsáveis pela pesquisa “Violência Política e Eleitoral no Brasil”, que destaca o aumento significativo dessas violências de 2016 a 2020 – para “acionar as autoridades competentes do município cobrando investigação do crime cometido contra ela, e a promoção de mecanismos de proteção para toda sua mandata”.

 

Violência Política

Para Briolly, o caso é um exemplo clássico de violência política. “A truculência, a ameaça, a agressividade. É o tipo de atitude que vai limitando nossa atividade parlamentar, cerceia nossa liberdade e afasta as mulheres da política”, explica. “Falo com tranquilidade, que se fosse um vereador homem ele não agiria daquela forma. As postagens nas redes sociais e o histórico no plenário mostram que eu sou seu alvo preferido. Mulher, negra, travesti. Quer oprimir para que eu desista”.

A vereadora defende, de forma prática e imediata, uma maior responsabilidade das casas legislativas na segurança das parlamentares. “É preciso também respeito à própria norma legislativa, aquilo ontem foi quebra de decoro ou não? Se foi, as medidas necessárias precisam ser tomadas. Como posso fazer o trabalho de presidência da comissão de direitos humanos, da criança e do adolescente com um vice-presidente que tem como principal linha política me atacar e violentar?”, questiona.

O que aconteceu com Benny, infelizmente, não se trata de um caso isolado. Ainda no início desse mês, aconteceu a primeira ação programada da agenda do Março de Lutas, organizado pela Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), que trouxe o debate da imbricação do racismo e sexismo com a violência política e eleitoral no Brasil e as possíveis estratégias de enfrentamento.

Presente na mesa estava a primeira vereadora negra trans da cidade de São Paulo, Erika Hilton (PSOL-SP), que também sofreu ataques similares aos da vereadora Briolly, como tentativas de invasão ao seu gabinete dentro da Câmara Municipal de São Paulo.

“Causamos tanto estranhamento que somos recebidas com esse tipo de violência, porque sabem que nossa presença ali significa uma transformação da política e da sociedade como um todo e que nós temos projeto. E esse projeto faz enfrentamento direto às estruturas patriarcais, racistas, capitalistas, e é tudo que eles mais odeiam”, declarou Hilton durante a live.

Quem também sofreu com ataques racistas e machistas e até mesmo ameaças de morte durante as últimas eleições municipais, foi Ana Lúcia Martins (PT), primeira vereadora negra de Joinville, município de Santa Catarina.

Também presente na mesa organizada pela AMNB, Ana Lúcia desabafou “Queremos seguir o exemplo de luta e resistência da Marielle, mas queremos fazer isso vivas e saudáveis. Precisamos nos unir sim, mas a responsabilidade não é nossa. O Estado precisa garantir a nossa segurança, os nossos partidos precisam entender que estamos aqui, o nosso corpo está representando esse partido e precisamos encontrar estratégias. Precisamos efetivamente criar políticas de proteção para as mulheres negras que ousaram derrubar as barreiras e chegaram nesse lugar”.