Texto: Divulgação
Neste sábado (25), acontece a 11ª edição da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, sob o lema “Há 10 anos por Luana Barbosa e por todas nós! Por direitos, reparação e bem-viver! Mulheres negras nas ruas e nas urnas!”. A mobilização recoloca no centro do debate público a exigência de justiça após 10 anos da morte de Luana Barbosa, a defesa da democracia e o direito das mulheres negras de decidir os rumos do país. A data também celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela.
A concentração começa a partir das 13h, na Praça Roosevelt, região central da capital. Além do cortejo pelas ruas de São Paulo, a programação reúne formação política, intervenções culturais, artísticas e ocupação das ruas. Entre os destaques, está uma aula pública, em formato de roda de conversa de intelectuais mais velhas, com Cida Bento, Lenny Blue e Astrogilda. As crianças também fazem parte da programação, com a marchinha.
Também fazem parte da programação música e atividades de acolhimento. O cortejo contará com o tradicional bloco Ilu Obá de Min e com a rapper Luana Hansen, e seguirá pelo centro de São Paulo, marchando por diversos pontos de referência e locais públicos, entre a Biblioteca Mário de Andrade, com encerramento no Theatro Municipal, com a intervenção artística de Dandara Kuntê.
Durante o percurso, as participantes também farão a leitura coletiva do manifesto da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo 2026.
Dez anos de organização, mobilização, articulação e luta permanentes
A história celebrada em 2026 remonta à primeira mobilização nacional, de 18 de novembro de 2015, quando a Marcha Nacional das Mulheres Negras reuniu cerca de 50 mil mulheres em Brasília (DF) em torno do enfrentamento ao racismo e à violência e da construção do Bem Viver. As mulheres de São Paulo participaram dessa articulação e, no ano seguinte, deram continuidade à mobilização no estado. Em 25 de julho de 2016, cerca de 3 mil mulheres ocuparam as ruas da capital na primeira Marcha das Mulheres Negras de São Paulo.
Já em 2025, a mobilização ganhou dimensões internacionais, com a Marcha Global das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, que levou 300 mil para as ruas da capital federal no dia 25 de novembro.
Para Juliana Gonçalves, militante do Movimento de Mulheres Negras e cofundadora da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, refletir sobre o impacto das duas grandes marchas na 11ª Marcha do estado, é pensar o quanto o Movimento de Mulheres Negras vem acumulando na sua organização política uma ferramenta para a emancipação social.
“Um dos principais legados que eu sempre gosto de lembrar sobre 2025 foi a gente poder aprofundar várias questões e produzir conhecimento por meio dos comitês temáticos que existiram. Assim como 2015 impactou uma década, o que aconteceu em 2025 também vai seguir impactando o movimento de mulheres negras, tanto com relação à organização política, como em relação às disputas sobre o Estado que a gente quer construir.”
A articulação paulista já vinha sendo construída quando, em julho de 2014, mulheres negras de diferentes organizações, movimentos, partidos, sindicatos, coletivos e trajetórias independentes realizaram, em São Paulo, o lançamento da mobilização nacional para a Marcha de 2015.
De acordo com a organização, a participação na Marcha de Brasília fortaleceu a rede de mulheres negras do estado, que, diante dos retrocessos políticos de 2016, com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, e o lesbocídio de Luana Barbosa, decidiu manter-se organizada e presente nas ruas. Desde então, a Marcha se consolidou como um coletivo popular organizado e articulado por mulheres negras, com atuação que não se limita ao ato anual.
Justiça por Luana Barbosa
A memória de Luana Barbosa atravessa a origem e o presente da Marcha paulista. Mulher negra, lésbica, periférica e mãe, Luana foi vítima de uma abordagem policial em abril de 2016, em Ribeirão Preto, em que foi brutalmente espancada por policiais militares diante do filho adolescente e morreu em consequência dos traumatismos sofridos. A violência que interrompeu sua vida tornou visível a combinação entre racismo, lesbofobia, machismo e violência do Estado.
Naquele 25 de julho de 2016, a exigência de justiça por Luana levou milhares de mulheres negras às ruas. Dez anos depois, o Manifesto da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo reitera que nenhum dos responsáveis foi preso e que a família ainda aguarda justiça. Por isso, Luana não aparece como lembrança lateral ou símbolo abstrato: sua história organiza uma reivindicação concreta por responsabilização, memória e garantia do direito à vida.
“Até hoje os policiais não foram responsabilizados devidamente e a família ainda espera uma indenização. Então, é importante trazer a Luana Barbosa enquanto uma mulher lésbica, negra, periférica, que sofreu na mão armada do Estado, enquanto esse símbolo da nossa luta por liberdade e reparação”, acrescenta Juliana.
Direitos, reparação e mulheres negras nas urnas
O manifesto das ativistas paulistas de 2026 articula a luta contra a violência policial e o genocídio da população negra ao enfrentamento dos feminicídios, lesbocídios e transfeminicídios. Também reivindica trabalho digno, fim da escala 6×1 sem redução salarial, combate à informalidade e à retirada de direitos, fortalecimento da saúde pública, garantia dos direitos sexuais e reprodutivos e construção de uma política nacional de cuidados que reconheça a contribuição histórica das mulheres negras e assegure dignidade às mulheres idosas.
Na educação e na cultura, a Marcha defende o ensino público, os saberes negros, indígenas, quilombolas e dos povos de terreiro, a proteção dos saberes e manifestações culturais afro-brasileiras e periféricas e o enfrentamento à censura e à criminalização de expressões como o funk.
O documento também denuncia o racismo ambiental e os efeitos desiguais da crise climática sobre comunidades negras, atingidas com maior intensidade por alagamentos, deslizamentos, falta de áreas verdes, poluição e insegurança hídrica. O manifesto defende a derrota da extrema-direita, a ampliação da presença de mulheres negras cis e trans nos espaços de decisão, o cumprimento das cotas eleitorais e o enfrentamento à violência política. Também assume posição favorável à reeleição de Lula em 2026, atribuindo essa escolha à necessidade de impedir o retorno de um projeto político que, na avaliação da Marcha, aprofundou a violência, o desmonte de direitos e as desigualdades no país.


