Por Brenda Gomes | Redação Odara
No dia 25 de novembro de 2025, cerca de 300 mil mulheres negras ocuparam a Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Vindas de todas as regiões do Brasil e de mais de 40 países, elas transformaram a capital federal no centro da maior mobilização internacional de mulheres negras já construída a partir do Sul Global: a Marcha Global das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver.
Mas, para quem organizou aquele processo, a Marcha jamais foi concebida como um ponto de chegada. Ela era um ponto de partida. O compromisso firmado nos encontros políticos que antecederam a mobilização, consolidado na Carta Global das Mulheres Negras, estabelecia que a Marcha deveria inaugurar uma articulação internacional permanente, capaz de produzir incidência política, fortalecer alianças transnacionais e construir respostas coletivas diante do avanço do racismo, do patriarcado, da extrema direita e das desigualdades produzidas pelo capitalismo global.
O primeiro grande desdobramento desse compromisso aconteceu durante a 14ª edição do Julho das Pretas. Pela primeira vez em sua história, a maior agenda política construída por mulheres negras no Brasil assumiu caráter internacional. Durante o Julho de 2026, lideranças da América Latina, Caribe, África e diáspora reuniram-se em quatro webinários para aprofundar os debates iniciados em Brasília e responder a uma questão fundamental: como transformar Reparação e Bem Viver em um projeto político permanente?
TECNOLOGIAS PARA ATRAVESSAR OCEANOS
No dia 1º e 8 de julho aconteceram os “Webinários Globais – Seguimos em Marcha por Reparação e Bem Viver”, que reuniu mais de 110 mulheres, de 18 países, de forma virtual, em um bate-papo sobre memória, justiça racial, democracia, cuidado, economia, cultura e produção de conhecimento. O evento foi construído pela Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), Rede de Mulheres Negras do Nordeste e Rede Fulanas – Negras da Amazônia Brasileira.
Ao longo dos debates, ficou evidente que a reparação defendida pelas participantes ultrapassa a ideia de compensação financeira pelos crimes da escravidão. Trata-se de uma proposta de reorganização das relações econômicas, políticas e sociais, capaz de enfrentar os efeitos permanentes do colonialismo e do racismo.
Durante o encontro, a ex-vice-presidenta da Costa Rica, Epsy Campbell Barr, defendeu que as mulheres negras vêm propondo uma nova compreensão da reparação. Segundo ela, não basta reconhecer injustiças históricas. É preciso imaginar e construir outra forma de organizar o mundo.
“Estamos em um momento histórico onde a imaginação radical não é apenas um desejo, mas uma necessidade política. Quando falamos de reparação, não estamos falando apenas de uma transação financeira. Estamos falando de uma mudança profunda na estrutura do poder global. Estamos falando de um novo pacto civilizatório. As mulheres negras têm sido as guardiãs da vida em todos os nossos territórios. Nós mantivemos as nossas comunidades de pé, mesmo sob os ataques mais violentos do racismo sistêmico e do patriarcado. Por isso, a nossa visão de reparação deve incluir o Bem Viver como um eixo central. Não há reparação sem dignidade, sem acesso à terra, sem o direito à nossa própria memória e sem o fim da violência contra os nossos corpos.”
Essa perspectiva também apareceu na fala da presidenta do Fórum Permanente das Nações Unidas para Pessoas Afrodescendentes, a bahamense, Gaynel Curry. que chamou atenção para a necessidade de reconhecer a dimensão específica da violência sofrida pelas mulheres negras. Curry argumentou que as políticas públicas frequentemente invisibilizam a experiência das mulheres e meninas negras, mesmo quando tratam da escravidão ou do racismo. Para ela, qualquer política reparatória precisa considerar essa realidade para enfrentar as desigualdades produzidas pela violência colonial.
“As mulheres afro-brasileiras têm sido peças fundamentais na demanda global por justiça reparatória. Enfrentamos formas únicas e interseccionais de discriminação que exigem visibilidade e ação específica. Durante a escravidão, os corpos das mulheres negras foram locais de extração e reprodução a serviço do capital. Hoje, lutamos por um roteiro global de reparações, uma comissão independente para estudar o impacto sobre mulheres e meninas, e um fundo reparatório global ”, destacou Curry.
O PACTO DO BEM VIVER COMO HORIZONTE POLÍTICO
Valdecir Nascimento, fundadora do Instituto Odara e ativista da Rede de Mulheres Negras do Nordeste, afirmou que o debate proposto pelas mulheres negras não busca apenas denunciar injustiças, mas apresentar um novo projeto de sociedade.
“O Bem Viver emerge de um código sociopolítico radical em que justiça, equidade, solidariedade, autodeterminação e bem-estar coletivo são valores inegociáveis. Pensar formas de existir a partir desse Pacto do Bem Viver é começar a construir a nossa grande utopia, o nosso sonho, para que possamos apresentar às futuras gerações esperança, fôlego e capacidade de respiro.”
Ao longo de sua exposição, Valdecir explicou que a construção desse pacto exige reconhecer a pluralidade dos territórios, das experiências e dos conhecimentos produzidos pelas mulheres negras, compreendendo o Bem Viver como um horizonte que se contrapõe à lógica do capitalismo, do colonialismo e do patriarcado. Essa leitura foi aprofundada pela advogada e ex-senadora porto-riquenha, Ana Irma Rivera Lassen, que relacionou Bem Viver, democracia e geopolítica.
“O Bem Viver é um horizonte ético-político e um instrumento revolucionário contra o capitalismo racista patriarcal e colonial. No Caribe, somos territórios marcados pela colonialidade, mas também pela imaginação política. Não se pode falar de democracia sem enfrentar o colonialismo, o racismo e o sexismo. Precisamos organizar a nossa ‘raiva’ de uma maneira que não seja a tradicional, mas focada na dignidade e no acesso a direitos básicos como saúde, educação e moradia.”
Rivera também ampliou o debate ao defender o acesso às tecnologias da informação e da comunicação como um direito humano fundamental, elemento indispensável para a construção de sociedades verdadeiramente democráticas.
A ativista egípcia Ayat Osman, diretora da organização Ganoubia Hurra, trouxe para o centro do debate a experiência das mulheres negras núbias no sul do Egito.
“Para nós, o feminismo não pode ser separado das lutas pela igualdade e pelo desenvolvimento. Precisamos de representatividade, de acesso equânime aos direitos e de segurança. Quando falamos dessas questões, não estamos tratando apenas de desenvolvimento econômico. Estamos falando da possibilidade de uma mulher negra andar sem medo, celebrar sua cultura, cuidar de suas crianças com dignidade, ter acesso à saúde e viver com a certeza de que a sua vida importa. É isso que significa o Bem Viver.”
Ao refletir sobre as múltiplas violências enfrentadas pelas mulheres negras no norte da África, ela lembrou que sobreviver não pode ser o objetivo final da luta política.
“As feministas negras estão preocupadas com o acesso à felicidade, ao pertencimento e à esperança. Para mim, isso significa compreender que sobreviver é importante, mas a sobrevivência, sozinha, não basta. A mulher negra precisa de uma vida com significado”, destacou Ayat.
DISPUTAR NARRATIVAS TAMBÉM É DISPUTAR IMAGINÁRIOS
Se os dois primeiros webinários foram dedicados à construção e ao debate do projeto político das mulheres negras para o mundo, os encontros do ciclo “Narrativas para a Materialização do Impossível”, realizados em 13 e 15 de julho, deslocaram o foco para outra dimensão estratégica da luta: as narrativas. O evento, que reuniu mais de 150 participantes nos dois dias, foi construído a partir de uma parceria entre o Instituto Odara, a Revista Afirmativa e a Afrochingonas, do México, reuniu comunicadoras, ativistas e representantes da filantropia e de organizações do Brasil e da América Latina. Os debates partiram de uma pergunta decisiva: quem pode contar a história?
Alane Reis, coordenadora do Programa de Comunicação do Instituto Odara e coordenadora executiva da Revista Afirmativa, explicou que o objetivo do encontro não era apenas reunir comunicadoras negras, mas fortalecer uma infraestrutura continental de produção de conhecimento.
“As reflexões construídas ao longo deste encontro reafirmam o quanto esse debate é necessário. Um dos principais objetivos do webinário é reunir mulheres negras que habitam e disputam os meios de comunicação para começar a tecer uma rede de comunicadoras afrolatinas. Nesse contexto, a discussão também se volta para o papel da filantropia na compreensão da comunicação como estratégia para o enfrentamento ao racismo patriarcal e ao colonialismo.”
Scarlet Estrada, representando as Afrochingonas, enfatizou a importância estratégica de fortalecer a articulação entre comunicadoras negras em toda a América Latina. Ela destacou que a construção de redes sólidas é fundamental para amplificar a voz e o impacto dessas profissionais, indo além do simples registro de presença em eventos. “Um dos nossos principais propósitos é tecer e fortalecer redes de comunicadoras e jornalistas negras, afrodescendentes e afrolatinas por toda a América Latina. É fundamental que construamos esses laços para ampliar nossa voz e impacto.”
Alejandra Pretel, fundadora da Afrocolectiva, defendeu que a comunicação negra deve ser compreendida como um campo estratégico de disputa política. Para ela, fortalecer as mídias negras passa também por garantir condições materiais para sua existência, reconhecendo que a sustentabilidade financeira é parte fundamental da autonomia e da capacidade de incidência dessas iniciativas. “Precisamos criar contra narrativas com nossas próprias vozes e compreender que financiar nossas organizações não diminui o caráter político do nosso trabalho; ao contrário, nos permite sair da precarização e fortalecer nossa incidência.”
A historiadora e jornalista Ana Flávia Magalhães ampliou ainda mais esse debate ao apresentar a trajetória do Instituto Cultne, organização responsável pelo maior acervo audiovisual da cultura negra na América Latina. “A nossa comunicação não é apenas um espelhamento; ela é uma disputa de narrativa que busca visibilizar o que nunca teve representação nos meios de comunicação massivos, que são estruturados sob a lógica da branquitude.”
UMA REDE GLOBAL DE MULHERES NEGRAS
Os quatro encontros dos webinários revelaram que a Marcha Global das Mulheres Negras inaugurou não só uma mobilização histórica, ela consolidou uma infraestrutura política internacional. Ao conectar mulheres negras da América Latina, Caribe, África e diáspora em torno de agendas comuns, o Julho das Pretas 2026 demonstrou que o debate sobre Reparação Histórica, Bem Viver e outras formas de construir e narrar as histórias das populações negras em todo o mundo são urgentes.
Os debates mostraram que seu maior legado da Marcha das Mulheres Negras talvez seja a criação de uma rede internacional capaz de produzir pensamento, formular políticas, disputar narrativas e imaginar futuros que, durante séculos, foram considerados impossíveis.


