Por Lecco França*

Assistir ao filme 12 anos de escravidão (2013) não deixa de causar certo incômodo. Com fortes cenas de sofrimento e humilhação, o diretor Steve McQueen consegue chocar retratando uma situação a ponto de transformar a dor física dos personagens em dor psicológica para o público. McQueen mantém os estalos de chicote ressoando pelos campos de algodão mesmo enquanto os escravos parecem trabalhar tranquilamente, cortando qualquer ilusão de atmosfera idílica que se pudesse ter diante das belas paisagens presentes no filme.

A narrativa traz uma sequência de surras e chibatadas, cada uma mais violenta que a anterior, e um aumento no nível de dor tanto para os personagens quanto para a plateia, culminando em um momento de profundo horror quando o personagem Solomon Northup, um homem negro livre, que, na condição de escravizado, pega ele mesmo o chicote e aplica chicotadas que esfolam a pele de Patsey, também escravizada, cujo único crime foi desejar um pedaço de sabão para se lavar. Em 12 anos de escravidão, Steve McQueen reafirma sua conhecida aptidão para encenações de violência explícita, já demonstrada em filmes anteriores como Hunger, de 2008, e Shame, de 2011.Voltando a transformar a crueldade em espetáculo, ele parte do relato memorialístico de Northup para pretensamente denunciar um crime, lançando mão do mesmo instrumento dos criminosos – a brutalidade.

O filme chegou aos cinemas brasileiros aproximadamente 126 anos após a abolição da escravatura no país, que ocorreu, oficialmente, em 1888. Os Estados Unidos acabaram com a escravidão algumas décadas antes, em 1863, mas em um processo, bem mais conflituoso, que gerou uma guerra que dividiu o país. 12 anos de escravidão tem sido compreendido e tomado como filme sobre os processos de escravização, equívoco induzido, inclusive, no Brasil, pela tradução do título original (12 years a slave), cujo sentido literal é “Escravo por 12 anos”, mas na verdade trata-se de um caso de injustiça individual. Solomon Northup, interpretado por Chiwetel Ejiofor, é um negro liberto, músico respeitado, que vive com a família em Nova Iorque, no norte dos EUA. Em um determinado dia, quando estava em Washington D. C., ele, enganado por parceiros de trabalho, foi sequestrado e levado ao sul, onde foi vendido como escravo, no ano de 1841. A partir daí, temos uma sucessão de cenas duras e de momentos angustiantes. Passando de uma fazenda a outra durante os anos seguintes, Northup (que era alforriado, sabia ler e escrever, tinha casa, família e profissão, era letrado e culto), foi rebatizado como Platt por seus “donos” e, aos poucos, assumiu esta nova identidade (de indivíduo não-alfabetizado, escravo, subserviente, sem família e oriundo da Geórgia) para sobreviver. A única característica que une estas duas identidades é o fato de ambos saberem tocar violino.

Ele experimenta a dura realidade enfrentada pelos negros no sul escravagista que seria um dos motivos por trás da Guerra Civil norte-americana. Neste período, as diferentes linhas de raciocínio entre o Norte e Sul dos EUA em relação à escravidão se encontravam em uma bifurcação problemática. Existiam os negros livres no Norte, enquanto no Sul eles ainda eram propriedade. Devido a dificuldades de comunicação e direitos irrisórios dos livres, esse mórbido esquema de sequestro se tornou um artifício a ser efetuado com frequência. No final, dificilmente um homem, na condição de escravizado, conseguiria provar que era livre, ainda mais se estivesse preso no Sul. Ele provavelmente seria taxado apenas como um negro fujão e mais nada. Após passar pelas mãos de William Ford (interpretado por Benedict Cumberbatch), Northup foi parar nas terras de Edwin Epps (Michael Fassbender), um senhor brutal que tratava seus escravos com extrema crueldade e possuía uma relação de possessão e desejo com a escrava Patsey (Lupita Nyong’o).  Northup permaneceu trabalhando em plantações no estado da Louisiana por doze anos antes de sua libertação.

Seguindo à risca o modelo hollywoodiano de narrativa, o filme dirigido por Steve McQueen, pela necessidade de ter um herói ou uma figura central, perde-se no sentido de representar um grupo ou massa. Faltou ao filme também um pouco mais de clareza sobre o funcionamento da escravidão como um sistema. Na verdade, ele não se propôs a falar da Abolição da Escravidão, nem da Guerra Civil Americana, nem das questões políticas e econômicas que praticamente transformaram os Estados Unidos em dois países diferentes no período em que a história se passa. O filme trata-se basicamente da jornada de um homem pela sobrevivência, em busca da liberdade que um dia foi sua. Ao destacar as características individuais daquele homem (a todo tempo os personagens brancos ressaltam o fato de Solomon ser um “negro excepcional), suas decisões, angústias e concessões, tirou-se o caráter universal de sua jornada.

Ao individualizar uma violência universal que permanece, como a escravidão, assumiu-se uma posição política que nada tem a ver com a resistência a ela. Tanto que Solomon cumpriu sua jornada de superação, deixou Patsey e muitos outros escravizados para trás, e retomou sua condição de homem livre. O fato de que, depois de liberto, ele tenha se tornado um ativista pelo abolicionismo somente é mencionado nos créditos finais. O filme sequer se dá ao trabalho de discutir o que é essa liberdade pela qual Solomon resistiu e esperou praticamente impassível por 12 anos, ou o que era ser negro e livre em um território dominado por brancos, em que você podia ser, simplesmente, sequestrado e vendido, por causa da cor da sua pele. Seria interessante talvez, como fez o diretor Joseph Sargent no filme Quase deuses (2004), mostrar como era a vida de um homem negro livre dentro de uma sociedade predominantemente branca durante e após a Abolição.

O roteiro de John Ridley, baseado no livro Twelve years a slave, publicado em 1853 encontrou uma forma adequada de resumir acontecimentos que, de fato, muitas vezes extirpam palavras, resultando numa construção carregada de argumentos e passagens significantes. Entretanto, em alguns momentos, o longa-metragem cai em estereótipos, ao retratar, por exemplo, o homem branco do Norte como progressivo e atencioso e o do Sul como a caricatura do mal, numa perspectiva maniqueísta.

A solução encontrada foi apresentar personagens mais complexos, como William Ford, aparentemente caracterizado como um senhor de escravos mais acolhedor e menos repressor. Apesar de ele não demonstrar prazer em torturar seus escravos e até demonstrar um pouco de carinho com Solomon, não deixa de tratá-lo como mercadoria; mesmo que lamente a sorte do escravo, suas dívidas vêm primeiro que a vida do outro. Poderia até mesmo salvá-lo desde que aquilo não se transformasse num inconveniente, com o bônus, claro, de levá-lo a se sentir nobre e caridoso. Assim, a compaixão é tida como algo extremamente relativo quando partindo dos senhores que dominavam aqueles homens e mulheres.

A esposa de William Ford, em certo instante, demonstra solidariedade a uma escravizada que foi separada dos filhos e, num tom caridoso, consola-a: “Você logo se esquecerá dos seus filhos” – uma afirmativa que só se torna possível em função da percepção (consciente ou não) de que aquela mãe em dor é uma criatura de espécie diferente e inferior e que, só por isso, conseguiria se libertar do sofrimento da separação de seus rebentos. Por outro lado, a mesma personagem demonstra impaciência com a insistência da escravizada em chorar. Edwin Epps, ao mesmo tempo em que acorda os escravizados para dançar para ele no meio da noite, demonstra possuir um sentimento verdadeiro (ainda que doentio) diante da jovem escravizada Patsey. Por outro lado, sua esposa, Mary Epps, com ciúmes de Patsey, agredia constantemente sua “rival”.

Aliás, a incapacidade de poder ajudar é um dos mais devastadores sentimentos abordados pelo filme. O vazio no olhar dos personagens exemplifica essa dor corrosiva. A incompreensão também abate o espectador quando vê um grupo em maior número se submeter a tamanha tortura. Nesse sentido, é preciso destacar a intervenção salvadora do branco, o carpinteiro canadense Samuel Bass (interpretado por Brad Pitt). A estratégia de se desvencilhar das possíveis críticas negativas ao filme é alegar que a história foi baseada em fatos verídicos. Portanto, este episódio se sustenta por estar nas memórias de Northup. Bass era, de fato, branco, e Northup não deixa dúvida quanto à sua importância: “Devo a ele uma dívida de gratidão imensurável. Se não fosse por ele, com toda probabilidade, eu teria acabado meus dias escravizado. Ele foi meu salvador – um homem cujo verdadeiro coração transbordava de emoções nobres e generosas. Até o último momento da minha existência lembrarei dele com sentimentos de gratidão” (NORTHUP, 2014). Essa passagem reforça a imagem estereotipada de conformismo dos negros escravizados, comumente apresentada em diversas narrativas sobre a escravidão.  Em determinadas cenas do filme, Northup toma iniciativas para recuperar sua liberdade, quando, por exemplo, uma vez tenta fugir, mas encontra um escravo sendo enforcado, justamente como punição por ter fugido, e recua, ou quando entrega suas economias a um homem, confiando que ele poderia ajudá-lo a denunciar sua situação, através de uma carta que escreve, contudo é traído por ele que revela todo o plano ao seu senhor. Depois disso, a sensação que se tem é de extremo conformismo do personagem a sua nova condição até, tempos depois, encontrar o carpinteiro Bass e, graças à atitude heroica do branco, recuperar sua liberdade.

Para a cena de Northup chicoteando Patsey (criticada negativamente pelo excesso de violência e por mostrar um negro conivente ao processo) Steve McQueen alegaria, com razão, que ela também está nas memórias de Northup: “[Epps, o proprietário da fazenda] pegou um chicote pesado, e pondo-o nas minhas mãos,mandou que eu a chicoteasse. Por mais desagradável que fosse, fui compelido a obedecê-lo. Em nenhum lugar, na face da terra, eu me arrisco a dizer, uma exibição tão demoníaca como a que se seguiu foi testemunhada” (NORTHUP, 2014). Northup conta ter dado, primeiro, trinta chicotadas, e mais dez ou quinze por insistência de Epps, antes de se recusar a prosseguir, quando “as costas dela estavam cobertas de longos lanhos dos açoites, cruzando uns com os outros como uma rede” (NORTHUP, 2014). Esta cena, de fato, está narrada no livro, mas seu impacto, embora comparável ao do filme, não é o mesmo dada a diferença entre encenar com imagens e descrever em palavras.

A veracidade dos fatos narrados por Solomon Northup, inclusive, foi comprovada por dois historiadores – Sue Eakin e David Fiske, em livros diferentes, que atestaram também a significativa contribuição de Northup na redação do livro, escrito com David Wilson (um homem branco), e que se tornou um best-seller quando foi publicado em 1853. Apesar disso, mais interessante seria, talvez, o filme (entre outros filmes que insistem em abordar o processo de escravização do negro africano em séculos anteriores) falar sobre a permanência de práticas escravagistas atualmente ou atualizar a discussão da segregação e discriminação racial, resultante desse contexto histórico.

 

Doze anos de escravidão. Direção: Steve McQueen. Produção: Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, entre outros. Roteiro: John Ridley. Intérpretes: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Lupita Nyong’o, entre outros. Estados Unidos; Reino Unido: Summit Entertainment, Regency Enterprises, River Road Entertainment, Film 4, Plan B, 2013. 1 DVD (134 min.), color.

 

 

*Lecco França é professor universitário, pesquisador, escritor, curador e crítico de cinema. Membro da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN). E-mail: leccofranca@gmail.com.

 

 

Referências:

NORTHUP, Solomon. Doze anos de escravidão. Tradução: Caroline Chang. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2014.