Anunciação Silva* / Imagem: Ismael Silva

Os episódios que descrevo abaixo lhes permitirão entender por que “Eu, entre esquerda e direita, continuo sendo mulher preta” que respeita e teme profundamente o gatilho de uma arma, não confio nem voto em candidatos gestados a partir de ideologias patriarcais, brancas e dominantes presentes na cidade de Salvador. Defendo que a escolha de uma mulher negra para a prefeitura da cidade deve estar associada a uma trajetória cujos discursos e as práticas cotidianas sejam marcadas por ações e intervenções antirracistas e de luta contra o extermínio da juventude negra e periférica. O silêncio, a inércia ou a passividade em relação ao racismo e as diferentes formas de violência transforma o governante e seus agentes em coautores.

Há alguns anos as campanhas eleitorais baianas utilizam as linguagens do axé e os símbolos do candomblé como mecanismos para captar votos. Os traços culturais impressos na culinária, danças, músicas e práticas religiosas anunciam, encantam, comunicam e revelam ao mundo a existência de corpos negros e suas identidades. Essa centralidade nas questões étnico-raciais como estratégia de comunicação é entendível, já que estamos em uma cidade majoritariamente negra. Contudo, questionável, quando assim, seu uso resume-se a uma alegoria[i].

Tornam-se alegoria, pois, tanto os partidos de direita quanto de esquerda, ao assumirem o poder não utilizam a equidade racial e de gênero para compor os cargos do primeiro escalão. Referidas práticas podem ser assimiladas como, no mínimo, uma negação ou distorção de sentidos. O que essas ausências, nos cargos de primeiro escalão do poder, enunciam? Práticas sutis de afirmação e/ou confirmação do racismo estrutural na Roma[ii] negra? Um marcador inquestionável de manutenção do patriarcado e dos privilégios da branquitude que domina a política local?  Ângela Daves nos lembra que: Numa sociedade racista, não basta não ser racista é preciso ser antirracista. E com certeza essas práticas não são antirracistas. Ademias, sabemos que é preciso enfrentar e combater o racismo, também, com políticas de Estado.

 

Apesar de tanto não, tanta marginalidade, somos nós, a alegria da cidade

Somos nós, negros e negras, quem decidimos as eleições municipais, pois, somos maioria. Elegermos nossos vereadores negros e nossas vereadoras negras e entender quem são os secretários e secretárias negros/negras que estão no exercício da função e quais são suas secretarias também faz parte do processo político. Compreender essas escolhas é reivindicar nossos espaços e direitos na hora de priorizar as construções, reformas ou fechamento de escolas, postos de saúde, conjuntos habitacionais e tantas outras estruturas necessárias ao bem-estar da população. É não silenciar para as estratégias abusivas de manutenção das violências cotidianas que estruturam e disseminam o racismo.

Tomar consciência dos discursos de equidade racial como estratégia exclusivamente eleitoral é abrir-se para mudanças. Uma tentativa possível de desviar ou desativar os gatilhos das pistolas e dos revólveres que atingem, diuturnamente, jovens negros nos diferentes espaços da cidade, especialmente os bairros populares e periféricos, pelo simples fato de serem negros. É identificar a maioria racial que estuda nas escolas públicas com estruturas físicas e materiais sucateadas, com carência de recursos humanos em nível pedagógico e administrativo e cujo secretário de educação desrespeita e humilha publicamente a categoria docente, majoritariamente negra e feminina.

É recordar quem são os principais grupos populacionais impactados com a perda do emprego e da renda familiar em decorrência da pandemia e que perfilam as casas lotéricas, as agências da Caixa Econômica em busca do auxílio emergencial. De igual modo, as pessoas que estão nas filas dos supermercados em busca do auxílio estudantil. Nos dois casos, expostos durantes horas às intempéries do clima. Qual o perfil racial das pessoas que estão nas filas dos postos de saúde e das UTIs dos hospitais na busca por atendimento médico?  É necessário também, olhar nos dados estatísticos o perfil racial e o gênero dos desempregados dessa cidade, que ocupa o terceiro lugar em desemprego no país. Essas são algumas situações reveladoras das condições desiguais vivenciadas pelo povo preto e pobre soteropolitano.

É importante lembrar que as décadas de lutas incansáveis do movimento negro brasileiro, do feminismo negro, os diferentes ataques raciais pelo mundo, a campanha vidas negras importam em 2018, Epsy Campbell torna-se a primeira vice-presidente negra da Costa Rica e da América Latina, o mês de novembro de 2020 anuncia a vitória eleitoral de Kamala Harris a vice presidente dos EUA, primeira vice-presidente afro-americana do país. Esses episódios tornam-se marcos sinalizadores que o mundial de eliminar toda forma de supremacia racial e de gênero na sociedade contemporânea.

“Apesar de tanto não, tanta dor que nos invade” diariamente, quebrar essa bolha não é fácil, mas, é possível, necessário e urgente! 15 de novembro vem aí. Temos mulheres negras com representação e ativismo político nas diferentes áreas da sociedade, detentoras de habilidades políticas e intelectuais para ocupar os espaços de poder tanto na prefeitura quanto na câmara de vereadores. Eleger uma mulher negra à prefeita de Salvador é colocar no topo das decisões políticas e administrativas da cidade mais negra fora da África, uma candidata, cujo movimento político e ideológico sempre esteve voltado a favor da redução das desigualdades, é criar um divisor de águas na política soteropolitana sempre escrita por mãos masculinas, brancas e burguesas.

Que Exu Orixá, senhor das diferentes formas de comunicação, responsável em dar significado e movimento ao universo, nos permita comunicar ao povo dessa cidade que é chegada a hora de mudar o rumo da história, fazer a roda girar e colocar na prefeitura de Salvador uma mulher preta, que sempre utilizou e utiliza como estratégia de superação das desigualdades raciais e de gênero, a militância de esquerda e a educação.

 

* Professora da UNEB e Doutoranda da USP

 

 

 

 

 

Referências:

 

Sueli Carneiro.  Revista “Caros Amigos” n° 35, fevereiro de 2000.

 

  1. Para Walter Benjamin, parte do sentido etimológico do termo, entende a alegoria como a revelação de uma verdade oculta. Opor-se a este olhar sobre a nossa identidade é no mínimo uma forma de subliminar comunicar-se. Ou Uma alegoria é aquilo que representa uma coisa para dar a ideia de outra através de uma ilação moral. Ver Carlos ceia, http://www.pgletras.uerj.br/matraga/nrsantigos/matraga10ceia.pdf.

 

  1. De acordo com o antropólogo Vivaldo da Costa Lima, a expressão “Roma Negra” é uma derivação de “Roma Africana”, cunhada por Mãe Aninha, fundadora do Ilê Axé Opó Afonjá. Nos anos 1940, em depoimento à antropóloga cultural Ruth Landes. Segundo Mãe Aninha, assim como Roma é o centro do catolicismo, Salvador seria o centro do culto aos Orixás.