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91% dos moradores de favelas do Rio dizem que polícia comete ilegalidades em operações, aponta pesquisa

Levantamento foi realizado em quatro grandes conjuntos de favelas do Rio de Janeiro e mostra que ações não aumentam a segurança das famílias e reproduzem racismo
Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Por Catiane Pereira

A maioria dos moradores de favelas do Rio de Janeiro desaprova as operações policiais realizadas em seus territórios e identifica práticas ilegais cometidas pelas forças de segurança durante as ações. É o que revela a pesquisa “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?”, realizada por organizações da sociedade que atuam diretamente na Rocinha, Maré, Complexo do Alemão e Complexo da Penha.

Segundo o levantamento, 91% dos entrevistados afirmam que a polícia comete “excessos e ilegalidades” durante as operações. A percepção aparece inclusive entre pessoas que apoiam esse tipo de ação: entre os favoráveis às operações, 85% também reconhecem abusos policiais.

O estudo ouviu 4.080 moradores entre os dias 13 e 31 de janeiro de 2026. A pesquisa foi construída por organizações comunitárias dos próprios territórios, entre elas Redes da Maré, Instituto Papo Reto, Instituto Raízes em Movimento, Frente Penha, Fala Roça e A Rocinha Resiste.

Além da percepção sobre ilegalidades, a rejeição ao modelo atual de segurança pública aparece de forma ampla. De acordo com os dados, 73% dos moradores discordam das operações policiais realizadas nas favelas onde vivem, enquanto 92% afirmam que as ações “precisam ser realizadas de outra forma” ou que sequer deveriam acontecer nesses moldes.

A pesquisa aponta ainda que 95% dos entrevistados consideram que as operações policiais não aumentam a segurança das famílias. Para 43%, elas pioram a proteção dos moradores; outros 52% avaliam que não há melhora nem piora.

“O que emerge dos dados é um quadro de esgotamento”, afirma o estudo. “As operações são experiências quase universais nesses territórios, interrompem rotinas, restringem a circulação, violam domicílios e produzem medo de forma permanente.”

A dimensão racial também aparece como elemento central da análise. Entre pessoas pretas, a discordância das operações chega a 81%, índice superior ao registrado entre moradores brancos e pardos. Além disso, 61% dos entrevistados afirmam que existe racismo na forma como as operações são planejadas e executadas nas favelas.

Nos grupos focais, moradores relataram abordagens marcadas pela seletividade racial. “Se é preto e jovem, já entra como suspeito”, afirmou um participante. Outro destacou: “A polícia não trata todo mundo igual, isso a gente vê todo dia”.

O levantamento mostra ainda que o medo da atuação policial é disseminado nos territórios pesquisados. Ao todo, 78% dos moradores disseram sentir medo da polícia durante as operações. Entre os entrevistados favoráveis às ações policiais, 59% também afirmaram sentir medo das forças de segurança — percentual superior ao medo declarado em relação aos grupos armados que atuam nas comunidades.

Outro dado destacado pelo estudo é a rejeição a operações com alta letalidade. Após a ação policial realizada nos complexos do Alemão e da Penha, em outubro de 2025, que deixou mais de 100 mortos, 85% dos moradores afirmaram que operações desse tipo não deveriam voltar a acontecer.

Para as organizações responsáveis pela pesquisa, os resultados revelam uma crise de legitimidade das operações policiais nas favelas do Rio.

“As operações policiais, tal como hoje se realizam, são percebidas como forma de gestão violenta do território”, aponta o relatório.

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