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Atlas da Violência 2026 aponta manutenção da violência letal contra pessoas negras, avanço da misoginia e invisibilização da comunidade LGBTQIA+

Relatório aponta redução de 33,4% na taxa de homicídios em dez anos, mas pessoas negras ainda representam 77% das vítimas letais da violência, com um homicídio registrado a cada 16 minutos
Atlas da Violência 2026 aponta manutenção da violência letal contra pessoas negras, avanço da misoginia e invisibilização da comunidade LGBTQIA+
Imagem: Tânia Rego/Agência Brasil

Por Catiane Pereira*

O Atlas da Violência 2026, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostra que o Brasil registrou em 2024 a menor taxa de homicídios da série histórica desde 1998. Ainda assim, o relatório alerta que a redução da violência letal não ocorreu de maneira igual para toda a população.

Segundo o estudo, o país registrou 42.590 homicídios em 2024, com taxa de 20,1 mortes por 100 mil habitantes. O número representa redução de 6,9% em relação ao ano anterior e queda de 33,4% na comparação com 2014.

Apesar da melhora nos índices gerais, os pesquisadores afirmam que a violência no Brasil continua atravessada por desigualdades raciais, de gênero e de sexualidade. Ao longo do relatório, o Atlas aponta que jovens negros seguem como principais vítimas da violência letal, feminicídios permanecem em estabilidade considerada “inaceitável” e pessoas LGBTQIAPN+ continuam afetadas pela ausência de dados oficiais consistentes.

Na apresentação do documento, os autores afirmam que um dos objetivos da publicação é “revelar as violências invisibilizadas sofridas por grupos sociais minoritários no Brasil”.

Violência segue concentrada sobre a população negra

Em 2024, o Brasil registrou 32.820 homicídios de pessoas negras, o equivalente a 77% de todas as vítimas de assassinato no país. Na prática, isso representa uma média de 89,9 pessoas negras assassinadas por dia, ou um homicídio a cada 16 minutos. Segundo o levantamento, a taxa de homicídios entre pessoas negras é 170,3% superior à registrada entre não negros.

A desigualdade racial também aparece na distribuição territorial da violência. As maiores taxas de homicídio de pessoas negras foram registradas no Amapá (56,8 mortes por 100 mil habitantes negros), Alagoas (48,9), Pernambuco (47,6) e Bahia (47,1). Já os menores índices aparecem em São Paulo (8) e Santa Catarina (10,3). O levantamento mostra ainda que, entre 2014 e 2024, 435.551 pessoas negras foram assassinadas no Brasil, contra 132.156 pessoas não negras.

Embora o relatório mostre melhora nos indicadores nacionais, os autores indicam que a redução dos homicídios não significou diminuição automática das desigualdades raciais. Para pesquisadores do Atlas, a violência letal segue operando a partir de marcadores históricos de raça, território e exclusão social.

Outro dado que chama atenção é o crescimento dos chamados “homicídios ocultos”, categoria utilizada para estimar mortes violentas que não foram oficialmente classificadas como homicídio devido à precariedade dos registros públicos. Segundo o Atlas, o Brasil registrou 7.083 ocorrências em 2024, aumento de 88,6% em relação ao ano anterior. Nesse cenário, o número estimado de homicídios no país sobe de 42.590 para 49.673 casos, elevando a taxa nacional de 20,1 para 23,4 mortes por 100 mil habitantes.

Feminicídios, misoginia e violência sexual

Enquanto os homicídios gerais seguem em queda, o Atlas afirma que os feminicídios permanecem em “estabilidade histórica inaceitável”. O relatório aponta que a violência contra mulheres continua sendo uma das expressões mais persistentes da desigualdade brasileira. Além das mortes, os pesquisadores destacam crescimento da violência sexual e fortalecimento de discursos misóginos nas redes sociais.

Segundo o Atlas, o Brasil registrou 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável em 2024. Desses, 76,8% foram classificados como estupro de vulnerável. Apesar do volume de registros, os autores afirmam que os números oficiais representam apenas “a ponta de um iceberg”. O estudo estima que ocorram cerca de 822 mil estupros por ano no Brasil, mas apenas 8,5% dos casos chegam à polícia e somente 4,2% são registrados pelo sistema de saúde.

O relatório também dedica parte da análise ao avanço da misoginia digital. Os pesquisadores associam o crescimento da violência de gênero à expansão da chamada “machosfera” e de grupos ligados à cultura “red pill”, responsáveis pela disseminação de conteúdos antifeministas e discursos de ódio contra mulheres.

Segundo o Atlas, essa ideologia “difunde a falsa ideia de que os homens estariam sendo prejudicados pelo feminismo”. Os autores alertam ainda que esse tipo de conteúdo tem influenciado o comportamento de adolescentes e jovens, reforçando práticas de assédio, humilhação e violência simbólica contra meninas e mulheres.

Violência contra população LGBTQIA+  enfrenta apagamento estatístico

O Atlas da Violência 2026 também dedica um capítulo específico à violência contra pessoas LGBTQIAPN+, destacando a precariedade dos registros oficiais sobre orientação sexual e identidade de gênero das vítimas. 

Segundo os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), os casos de violência contra pessoas homossexuais e bissexuais cresceram 5,5% entre 2023 e 2024, passando de 9.718 para 10.250 registros.  Já os registros de violência contra pessoas trans e travestis aumentaram 2,6% no mesmo período, chegando a 5.575 casos em 2024. 

Ao longo da última década, o Atlas contabilizou ao menos 59.790 casos de violência contra pessoas homossexuais e bissexuais e 35.779 casos envolvendo pessoas trans e travestis registrados no sistema de saúde.  

Apesar do aumento dos registros, os pesquisadores alertam que os números não refletem a totalidade da LGBTfobia no Brasil. O relatório aponta que a violência contra essa população permanece marcada pela subnotificação e pela invisibilidade institucional. 

O relatório também destaca que pessoas LGBTQIA+ negras aparecem em condição de maior vulnerabilidade, revelando como racismo e LGBTfobia atuam de forma combinada sobre esses grupos. Entre travestis vítimas de violência registradas no Sinan, 67% eram negras. Entre mulheres trans, as negras representavam 61% dos casos. Já entre homens trans, os negros correspondiam a 55% das vítimas notificadas. 

*Com informações do g1

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