Por Catiane Pereira*
Nos Estados Unidos, ações recentes revelam a força e a variedade de estratégias adotadas por ideologias supremacistas e de extrema-direita. De um lado, no Arkansas, a criação da comunidade Return to the Land (“Retorno à Terra”, em tradução livre), sinaliza um atentado direto às leis antidiscriminação, com exigências de comprovação de branquitude, entrevistas presenciais e exclusão de negros, judeus e pessoas LGBTQIAP+. De outro, no centro de Indianápolis, uma marcha neonazista mascarada, com bandeiras suásticas e manifestações de “poder branco”, viralizou nas redes sociais.
Esses eventos, além de despertarem repúdio imediato, não são incidentes isolados. Eles se inserem em um contexto mais amplo de fortalecimento de grupos radicais nos EUA. Segundo relatórios, embora o número total de organizações extremistas tenha caído levemente (1.371 em 2024, ante 1.430 em 2023), a influência dessas células permanece robusta, desdobrando-se tanto em ações violentas quanto em estratégias de infiltração em espaços institucionais. Para especialistas, esses atos revelam o aprofundamento da supremacia branca em meio ao atual clima político estadunidense.
Grupo nos EUA cria comunidade exclusiva para brancos e heterossexuais
Um grupo de estadunidenses está construindo, no estado do Arkansas, uma comunidade que só aceita pessoas brancas e heterossexuais. O projeto, batizado de Return to the Land (“Retorno à Terra”, em tradução livre), se apresenta como um espaço voltado a valores “tradicionais”, mas tem sido acusado de promover segregação racial e supremacia branca.
Localizada nas Montanhas Ozark, a comunidade exige dos candidatos entrevistas presenciais, checagem de antecedentes criminais e comprovação de “herança familiar”. De acordo com os fundadores, o processo inclui até mesmo a análise de fotos de parentes para assegurar que apenas pessoas brancas sejam aceitas.
A iniciativa gerou investigações oficiais. O procurador-geral do Arkansas, Tim Griffin, anunciou uma apuração sobre possíveis violações das leis de habitação do país. Pela legislação federal, em vigor desde 1968, a discriminação no acesso à moradia por motivos de raça, etnia ou religião é ilegal.
Organizações de direitos civis também contestaram a legalidade da proposta. Para ReNika Moore, diretora do programa de justiça racial da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), o projeto não passa de uma tentativa de reembalar práticas de segregação.
“As leis federais e estaduais proíbem a discriminação habitacional com base em raça, ponto final. Reformular a segregação residencial como um ‘clube privado’ ainda é uma violação clássica da lei federal”, afirmou Moore ao The New York Times.
Mesmo diante das críticas, os criadores da comunidade afirmam que se amparam em brechas jurídicas relacionadas a associações privadas e grupos religiosos. Até agora, cerca de 40 pessoas já vivem no espaço, que conta com casas em construção, um centro comunitário e até criação de animais.
Nas redes sociais, a Return to the Land tem ampliado sua base de apoiadores. O grupo mantém canais no Telegram e no X (antigo Twitter), onde soma milhares de seguidores e publica conteúdos que exaltam “a pureza da ancestralidade europeia” e defendem que os EUA são “uma nação de colonos, não de imigrantes”.
Para especialistas, o surgimento de iniciativas como essa reflete o fortalecimento da extrema-direita no país. A retórica antiminorias ganhou força no cenário político norte-americano, especialmente após a eleição de Donald Trump em 2016 e sua volta à Casa Branca em 2024.
A comunidade tem sido associada a ideias de supremacia branca e à chamada “teoria da Grande Substituição”, que sustenta, de forma infundada, que populações não brancas estariam substituindo a população branca nos EUA. A investigação do governo do Arkansas segue em andamento.
Marcha neonazista em Indianápolis (EUA)
Uma manifestação neonazista no centro de Indianápolis, nos Estados Unidos, gerou indignação de autoridades locais, parlamentares e organizações de direitos civis. No dia 16 de agosto, um grupo de pessoas mascaradas marchou ao redor do Monument Circle carregando bandeiras com suásticas, gritando “poder branco” e fazendo saudações nazistas.
De acordo com testemunhas, alguns manifestantes estavam armados. O ato ocorreu sem aviso prévio e foi monitorado pelo Departamento de Polícia Metropolitana de Indianápolis (IMPD).
O chefe de polícia, Chris Bailey, afirmou que o departamento não tinha informações sobre a mobilização, mas acompanhou o grupo assim que a marcha começou. Em nota a veículos de imprensa estadunidenses, ele condenou a manifestação:
“Ontem, um grupo de ódio escolheu marchar no centro de Indianápolis. Sua tentativa de espalhar mensagens de medo e divisão contrasta diretamente com os valores de nossa cidade. Salvaguardar os direitos da Primeira Emenda não significa endossar essas crenças. Nem agora, nem nunca.”
Organizações de direitos civis classificaram a marcha como perigosa e alertou para o avanço do extremismo. O Conselho de Relações Americano-Islâmicas (CAIR) afirmou que o episódio é mais um reflexo do crescimento da intolerância racial no país.
“Esta terrível demonstração de ódio e intimidação deve ser inequivocamente condenada por todos os americanos. É fundamental rejeitar a normalização do ódio e proteger a segurança e os direitos de todos”, destacou a entidade. Nenhum dos participantes foi preso. A polícia informou que continuará monitorando manifestações semelhantes.
*Com informações do The News York Times e Indianapolis Recorder News