Por Catiane Pereira*
A maioria dos brasileiros considera importante que a próxima indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF) contemple critérios de gênero e raça. Pesquisa Datafolha divulgada na última segunda-feira (18) aponta que 51% da população avalia como “muito importante” a escolha de uma mulher para ocupar uma vaga na Corte. Já 46% defendem que a indicação recaia sobre uma pessoa negra.
O levantamento foi realizado presencialmente entre os dias 12 e 13 de maio, com 2.004 pessoas de 16 anos ou mais em 139 municípios do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
Atualmente, o STF conta com apenas uma mulher entre os 11 ministros, a ministra Cármen Lúcia. Em relação à composição racial, dois ministros se declaram pardos: Kassio Nunes Marques e Flávio Dino.
Segundo a pesquisa, além dos 51% que consideram muito importante a indicação de uma mulher, 18% avaliam o critério como “um pouco importante”. Outros 27% afirmam que o fator não tem importância.
No caso da representatividade racial, 46% dizem ser muito importante a escolha de uma pessoa negra para o Supremo. Outros 16% consideram o aspecto um pouco importante, enquanto 34% afirmam que o critério não tem relevância.
O levantamento também identificou diferenças entre eleitores de diferentes campos políticos. Entre os entrevistados que pretendem votar no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2026, 64% consideram muito importante a indicação de uma mulher ao STF e 60% defendem a escolha de uma pessoa negra.
Entre os eleitores do senador Flávio Bolsonaro, os índices caem para 41% e 35%, respectivamente.
Pressão por ministra negra no STF
Desde 2023, organizações da sociedade civil, especialmente do movimento de mulheres negras, intensificaram a pressão para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) indicasse uma mulher negra ao Supremo, algo inédito nos mais de 130 anos de história da Corte. A mobilização ganhou força com a campanha “Ministra Negra no STF”, articulada pelo movimento Mulheres Negras Decidem.
A campanha ocupou ruas, redes sociais e espaços públicos para questionar a ausência histórica de mulheres negras na mais alta instância do Judiciário brasileiro e defender que representatividade também é um compromisso democrático e institucional.
A pressão começou ainda em março de 2023, quando entidades do campo jurídico divulgaram uma carta aberta cobrando a indicação de uma jurista negra para a vaga deixada pelo ministro Ricardo Lewandowski. Meses depois, com a aposentadoria da ministra Rosa Weber, a mobilização aumentou. Em setembro daquele ano, organizações sociais lançaram campanhas nacionais e internacionais cobrando coerência de Lula com os discursos de diversidade e inclusão adotados desde a posse presidencial.
Em outubro de 2025, o movimento Mulheres Negras Decidem chegou a entregar ao presidente uma lista com nove juristas negras consideradas aptas para ocupar uma cadeira no STF, defendendo que a escolha representaria um ato de reparação histórica e fortalecimento do Estado Democrático de Direito.
A articulação voltou ao centro do debate este ano, após o Senado rejeitar a indicação do então advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo (episódio inédito desde 1894, segundo levantamento da Agência Senado). A derrota política reacendeu a campanha “Ministra Negra Já”, com movimentos de mulheres negras argumentando que Lula tem uma nova oportunidade de fazer uma indicação histórica para a Corte.
Além de representar o maior grupo populacional do país, a presença de uma mulher negra no STF poderia ampliar debates sobre justiça reprodutiva, violência de Estado e liberdade religiosa, temas frequentemente atravessados pelas desigualdades raciais e de gênero no Brasil.


