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Jovem que sonhava em ser radialista é morto durante operação policial em Simões Filho (BA)

Comunidade contesta a versão de que o jovem já estaria ferido antes da chegada dos policiais
Imagem: Arquivo Pessoal

Por Jamile Novaes

Moradores da localidade de Riacho Doce, em Simões Filho (BA), contestam a versão da Polícia Militar sobre a operação que terminou com quatro pessoas mortas no final da tarde da última quinta-feira (6).

Segundo testemunhas, três homens em fuga teriam invadido a casa de João Vitor Silva de Jesus, de 26 anos, enquanto ele descansava para ir trabalhar à noite. Em seguida, policiais também foram vistos entrando na residência em busca dos supostos fugitivos. As denúncias apontam que os agentes foram responsáveis pelas quatro mortes.

João Vitor vivia sozinho no imóvel onde tudo aconteceu. Em imagens que circularam após a operação, o interior da casa aparece com o chão coberto de sangue.

A Polícia Militar, por sua vez, apresentou outra versão. Em nota, a corporação afirmou que os agentes realizavam patrulhamento na região quando ouviram disparos vindos de uma residência. Ao entrarem no local, teriam encontrado João Vitor ferido e, na sequência, entrado em confronto com outros três homens, que, segundo a PM, atiraram contra a equipe. Os policiais afirmaram ainda que João Vitor e os três suspeitos baleados foram socorridos, mas não resistiram aos ferimentos.

Querido pela vizinhança e descrito por pessoas próximas como um jovem proativo, educado e respeitador, João Vitor teve uma infância difícil, mas pôde contar com o acolhimento de suas professoras. Foi na família de uma delas, em meio às festas de final de ano e passeios à praia, que ele conheceu Lenison Nascimento, com quem desenvolveu um forte vínculo de amizade.

“Vitor era um menino sonhador. Ele era muito puro, uma raridade para esse mundo tão cruel. Por isso dói tanto a forma como ele se foi. A pureza da alma dele não condiz com a forma que ele partiu”, conta Lenison. Sem acesso à televisão, Vitor sempre escutou muitos programas de rádio e cresceu alimentando o sonho de se tornar radialista. “A Piatã FM era a paixão dele. Ele conhecia todos os locutores, ia lá visitar e interagia em todos os programas.”

O amigo relata ainda que incentivava o amigo a iniciar os estudos na área, mas que a necessidade de se manter financeiramente fazia com que o jovem priorizasse o trabalho em uma empresa de marketplace. “Ele era jovem e teria tempo para isso [estudar e se tornar locutor], mas infelizmente sua vida foi tirada antes que isso se concretizasse”, lamenta.

Vitor era chamado de “tio” pelo filho de Lenison e costumava estar presente no dia a dia da casa. Segundo o amigo, ele estaria de folga no fim de semana seguinte e já havia combinado de passar os dias com a família.

De acordo com o relatório “Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã”, lançado em julho pela Rede de Observatórios de Segurança, só em 2025 a Bahia registrou 1.570 mortes em decorrência de ações policiais. Assim como Vitor, mais de mil vítimas eram jovens entre 18 e 29 anos e 93,9% delas eram pessoas negras.

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