Por Elizabeth Souza
Naquela noite o noticiário anunciava a morte de mais uma vítima: a médica Andréa Marins Dias, mulher negra de 61 anos, que teve o seu carro “confundido” com o de bandidos e terminou sendo alvejada pela Polícia Militar ao sair da casa dos pais, no dia 15 de março, na Zona Norte do Rio de Janeiro.
A cena de um policial batendo com o cano de sua arma no vidro do carro de Andreia, que àquela altura já estava morta, é estarrecedora. No país onde 18 pessoas são mortas por dia pela polícia, a ansiedade e a insegurança são sensações constantes nos territórios que concentram essa letalidade. Todas nós perdemos perante essa guerra onde a regra é atirar primeiro e perguntar depois.
Os números divulgados em fevereiro deste ano pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) sobre as mortes ocorridas em 2025 não deixam mentir e nem parecer uma manifestação exagerada: foram 6.583 mortes por intervenção policial no Brasil.
O número representa um aumento de 5,55% em relação a 2024 e de 149,26% quando comparado a 2015, ano dos primeiros dados divulgados na plataforma do MJSP. O Rio de Janeiro é o terceiro estado mais perigoso nesse sentido: foram 798 mortes em 2025 (um aumento de 13% em relação ao ano anterior), seguidas por São Paulo, com 835 e a Bahia liderando o ranking com 1.570 mortes provocadas por policiais.
Pele alvo
A esmagadora maioria das vítimas são homens: 6.396, enquanto que 64 mulheres perderam a vida nesse cenário no ano passado. Apesar dos dados disponibilizados na plataforma do MJSP não trazerem informações sobre raça, levantamentos anteriores realizados por outras instâncias atestam que o principal alvo é a pele negra. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, 82% das vítimas mortas por policiais em 2024 no Brasil eram pessoas negras. Nesse sentido, o relatório constatou que a chance de um cidadão negro ser morto pela polícia é 3,5 vezes maior do que um branco.
Gabriela Ashanti, advogada e coordenadora do projeto “Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar”, do Odara – Instituto da Mulher Negra lembra que as s polícias brasileiras foram instituídas em um contexto próximo ao da abolição da escravidão, um período marcado por diversas revoltas negras em prol da liberdade. “Nesse cenário, essas instituições surgem com o objetivo de exercer controle sobre os corpos negros, buscando conter e vigiar a população negra mobilizada. Assim, sua criação atende, em grande medida, ao medo das elites brancas diante da força e da organização das lutas negras no país.”, explica.

“Esses dados representam a desumanização histórica e atual dos corpos negros. Isso fica evidente quando observamos que a maior parte das pessoas mortas nessas operações são negras, que compõem a maioria dos grupos que vivem nas zonas periféricas, marcadas pela violência e pelo abandono do Estado”, complementa Paula Alexandre Lopes, psicóloga e integrante do Centro de Pesquisa e Ativismo de Rondônia sobre Tecnologia, Estado e Sociobiodiversidade (C-PARTES).
Rondônia em alerta
Paula Alexandre nasceu em Rondônia, estado do Norte do país que chama bastante atenção no levantamento do MJSP. Apesar de, à primeira vista, representar um quantitativo menor de mortes quando comparado a localidades maiores, como Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, Rondônia foi o estado brasileiro com o maior crescimento percentual em letalidade policial em 2025: um aumento de 487,5% em comparação a 2024, quando oito pessoas foram mortas. Em 2025, esse número subiu para 47.
“Esse é um processo que já vinha ocorrendo no estado, ou pelo menos já estava sendo planejado, e que acabou sendo potencializado pelos confrontos entre as facções e a polícia”, afirma a psicóloga, que atribui o quadro ainda à intensificação das operações policiais, principalmente em áreas periféricas como o Residencial Orgulho do Madeira e o Residencial Morar Melhor, na capital Porto Velho. Esses locais são conjuntos habitacionais do Minha Casa, Minha Vida, onde vivem, em sua maioria, pessoas negras.

A crescente letalidade na Bahia
Por sua vez, a Bahia lidera, desde 2022, o ranking do MJSP de estados com mais mortes decorrentes de intervenções policiais. Apesar da pesquisa apresentar dados desde 2015, até 2019 não foram disponibilizados registros sobre o estado baiano, o que passou a ocorrer a partir de 2020. Naquele ano, o estado do Rio de Janeiro liderou a lista com 1.245 mortes, e a Bahia ficou em segundo lugar, com 1.140 óbitos provocados por ações policiais.
Em 2021, o estado fluminense mais uma vez registrou o maior número de mortes (1.356), um quantitativo muito próximo ao da Bahia, que naquele ano registrou 1.352 óbitos. Naquele mesmo ano, o Rio de Janeiro assistiu a um dos episódios mais sanguinários de sua história recente: a Chacina do Jacarezinho, que deixou 28 pessoas mortas, em 6 de maio de 2021.
Em 2022, a Bahia passou a liderar o ranking de estados com a força policial mais letal do país, atingindo um total de 1.468 mortes. Em 2023, o estado registrou um aumento de 15,94% em relação ao ano anterior, com 1.702 mortes, o maior número já registrado pelo estado, de acordo com o levantamento do MJSP. Em 2024, esse número caiu para 1.556, voltando a subir em 2025, quando foram registradas 1.569 mortes.
Apesar dos números estarrecedores, ainda há disparidades entre os dados apresentados e as realidades vivenciadas nos territórios, o que indica um cenário ainda mais grave do que o revelado pelos dados oficiais. Embora a Bahia tenha sido inserida nos levantamentos apenas em 2020, em anos anteriores o estado já registrava episódios extremamente violentos protagonizados pela polícia, como a Chacina do Cabula, que ocorreu em 6 de fevereiro de 2015, quando 12 jovens negros foram executados pela Polícia Militar do estado. Onze anos depois, o caso permanece parado no Tribunal de Justiça da Bahia.
“A maioria das vítimas de violência policial no país são homens negros e jovens, entre 15 e 35 anos. Isso é um dado, e é a forma como o Estado brasileiro captura esse sujeito homem negro para controlá-lo, para limitar as suas possibilidades de ascensão, para limitar a sua possibilidade, inclusive, de exercer a sua humanidade”, assevera Gabriela Ashanti, que chama atenção para a forma como essa estrutura genocida também afeta as mulheres negras. “Essa é outra forma de forjar a violência contra as mulheres negras: quando o Estado mata seus filhos, ele também desestrutura famílias inteiras e aprofunda desigualdades econômicas e sociais.”
Informações do Mapa de Chacinas Norte e Nordeste apontam que a Bahia é o estado, entre as duas regiões analisadas, com o maior número de chacinas. No período entre 1988 e 2023, foram registrados 104 eventos, sendo 46 deles em Salvador. Em segundo lugar está o Ceará, com 75 eventos, e, em terceiro, o Pará, com 69. A letalidade policial é apontada como um dos principais fatores desse cenário de morte, que escancara o que o relatório classifica como um “genocídio sistemático”. O relatório é fruto de parceria entre a Rede Liberdade e o grupo de pesquisa e extensão Clínica de Direitos Humanos do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa.


