Os saberes com e sobre os biomas se conectam ao pautar o protagonismo de quem se situa na proteção de seus territórios. Mulheres Negras são corpos-territórios, são Cerrado, Pantanal, Pampa, Caatinga, Mata Atlântica e Amazônia. Essa sociodiversidade também passa pela diversidade de estratégias e soluções climáticas contra o racismo socioambiental e as violências que são impostas sobre às mulheres negras.
Os textos desta série de reportagens “Heroínas da Justiça Climática: Série de reportagens sobre Mulheres Negras em defesa de seus biomas” levantam debates que perpassam por preocupações comuns em todos os biomas brasileiros e que têm impactado os modos de vida das mulheres negras em seus territórios.
O direito à água de qualidade, a falta de políticas públicas, as leis ambientais que são insuficientes e sem fiscalização adequada; a sobrecarga de cuidado que recai sobre as mulheres lideranças – a propósito, quem cuida quem cuida?; a busca cotidiana pelo esperançar, por viver em segurança e sem ameaças em seu próprio território, e a busca por Reparação e Bem Viver para os corpos-biomas, são alguns elementos apresentados pela série, que nos convida a compreender que assegurar o futuro da humanidade é, antes de mais nada, assegurar a sobrevivência da própria casa.
Estimulado pela Marcha Global das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver e pela reorganização do Comitê por Justiça Climática, as reportagens atuam em consonância com a importância das Mulheres Negras como intelectuais orgânicas e guardiãs territoriais biopolíticas de seus biomas. Cada mulher negra é um bioma de saberes e possibilidades, cada texto caminha nesse sentido acionando que a saída das injustiças climáticas e sociais está nos saberes ancestrais e na valorização das tecnologias que os territórios-biomas já utilizam constantemente para não sucumbirem e que são fertilizados/semeados pelas mão das mulheres.
A negrura de mulheridades dos e nos biomas é ressaltada como forma de conhecimento, tática ancestral do cuidado com a terra-território, ações coletivas de restauração ambiental, produção de hortas em áreas urbanas, o alimento e a cura como formas de manutenção da vida, e a permanência nos territórios como caminho para co-gestar os biomas historicamente.
A garantia de vida digna às mulheres negras, a maioria da população do país, está diretamente vinculada à garantia de que seus territórios estejam de pé e vivos. O combate ao racismo socioambiental, que afeta de forma desproporcional pessoas negras e indígenas, é um combate a todas as formas de violência que recaem, historicamente, sobre as mulheres negras enquanto múltiplas mortes.
Na densa floresta da Amazônia, vamos na contramão do imaginário de uma região que aparece como origem mítica de uma ideia política pronta ou como uma paisagem única, disponível para ser interpretada de fora. Levantando uma pergunta que atravessa esta que é a maior floresta tropical do mundo: qual Amazônia o Brasil costuma enxergar e quais vidas ficam fora desse enquadramento?
Ao passear pelo bioma mais antigo do mundo, ouvimos as mulheres quilombolas cravarem que para a humanidade continuar existindo, o Cerrado tem que existir. São as mulheres que defendem o Cerrado e sua sociobiodiversidade, no entanto, ainda é sobre elas que a sobrecarga dos cuidados são lançados. Além do cuidado com a família, manter o Cerrado de pé e vivo demanda mais tempo e falta de descanso, o que as fazem ficar alertas diante das violências territoriais.
Ameaçada de extinção, a Mata Atlântica celebra em dezembro 20 anos da legislação que orienta a utilização e a proteção do bioma, considerado como um dos mais ricos ecossistemas do planeta. Mas há mesmo o que comemorar?
Comumente retratada como um lugar de escassez, na nossa série lembramos que a Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro. Mas também mostramos que a interferência humana direta, através do desmatamento, da expansão da agroindústria e das múltiplas explorações de recursos naturais, têm ameaçado os modos de vida tradicionais e a segurança alimentar de quem vive e depende da região.
Cenário de novelas, filmes, lendas e canções, o Pantanal brasileiro é um bioma único, considerado a maior planície inundada do mundo e tombado como Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO. Nós buscamos entender como o bioma, que até 2023 era considerado o mais preservado do país, tem enfrentando períodos de seca severos e queimadas frequentes que alteram profundamente o funcionamento do ecossistema e das populações que dele sobrevivem.
Encerramos nossa jornada no Pampa, onde o Quilombo Von Bock dá continuidade ao legado de resistência do povo negro gaúcho na luta pelo direito à terra e justiça climática. A trajetória ocorre em meio a disputas fundiárias, à expansão agrícola e da silvicultura e às pressões sobre um território inserido no Pampa, o bioma menos protegido do Brasil.
Não há justiça climática sem Mulheres Negras vivas!


