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Quase dez anos sem Valdir Macário: legado na estética negra resiste enquanto família espera por Justiça 

Referência da estética negra em Salvador, Valdir transformou o cuidado com cabelos negros em espaço de autoestima e valorização. Após cinco adiamentos do júri e quase dez anos de espera, sua família mantém vivo seu legado enquanto luta por Justiça.
Imagem: Acervo Pessoal

Por Brenda Gomes e Catiane Pereira*

Quase todo mundo que acompanha o campo da Estética Negra em Salvador há mais de 10 ou 15 anos se lembra de Valdir Macário. Durante anos, seu nome foi referência quando o assunto era estética e cuidado com os cabelos negros na cidade. Cabeleireiro, pesquisador e referência na estética afro, Valdir construiu na Avenida Vasco da Gama um salão que reunia de artistas a militantes do movimento negro e uma clientela que encontrou em seu trabalho cuidado, autoestima e valorização da identidade negra. O salão era frequentado por nomes como Alexandre Pires, Márcia Short, Márcio Victor, Beto Jamaica, Arany Santana e Valdecir Nascimento.

Autodidata e inquieto, pesquisava produtos e técnicas, buscava se qualificar e compartilhava o que aprendia com as irmãs. Seu salão cresceu, tornou-se referência em Salvador e ajudou a construir outras formas de pensar o cuidado e a estética da população negra.

Em 12 de novembro de 2016, aos 45 anos, Valdir foi assassinado enquanto trabalhava dentro do próprio salão. Quase dez anos depois, sua família mantém vivo o trabalho que ele construiu, mas ainda espera por justiça.

Depois de cinco adiamentos do júri, dois acusados pelo assassinato devem ser julgados no próximo dia 10 de setembro, no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador. A espera de quase uma década coloca uma pergunta que acompanha esta história: por que uma família negra precisa esperar tanto tempo por uma resposta da Justiça?

A morte interrompeu a trajetória de um profissional que havia construído reconhecimento em Salvador justamente em uma área que historicamente também é atravessada pelas disputas de representação, autoestima e valorização da população negra.

“Valdir sempre foi um pesquisador nato de tudo que ele buscou fazer. E eu acho que a estética negra foi uma das maiores identidades da vida dele. É como ele sempre dizia: ‘Eu morro por isso, mas os meus não vão ficar desmoralizados’”, relembra Idy Macário, irmã de Valdir, ao recordar a trajetória do irmão  e o cuidado com a comunidade. 

Segundo Idy, que segue administrando o negócio da família, o trabalho de Valdir estava ligado à beleza, mas também à educação e à autoestima de seus clientes.

“Ele valorizava a educação e a beleza. Ele dizia: ‘Não adianta ser bonita e não ser inteligente. Vai estudar. A gente vai fazer seu cabelo, você vai chegar na sala toda bonita. Não tem negócio de ficar de cabeça baixa, não.”

A família conta que Valdir começou cortando cabelos na porta de casa. Depois, passou a trabalhar em um pequeno ponto alugado, que comportava apenas uma cadeira. O negócio cresceu aos poucos, com o esforço dos irmãos e com o atendimento de pessoas que muitas vezes não tinham dinheiro para pagar.

“A gente não começou na área de beleza por amor. Eu acho que a necessidade foi maior do que o amor, e depois isso foi transformado. Mas inicialmente foi a necessidade de alimentar a nossa família”, relembra Idy.

Legado de cuidado com a população negra 

Imagem: Acervo Pessoal

O reconhecimento conquistado por Valdir não estava ligado apenas à técnica ou ao sucesso do salão. Seu trabalho ajudou a construir, em Salvador, um espaço pensado para o cuidado com pessoas negras, seus cabelos e suas diferentes formas de expressar beleza.

Para Valdecir Nascimento, ativista do movimento de mulheres negras e idealizadora do Instituto Odara, Valdir Macário fez parte de uma transformação na maneira de pensar a beleza na Bahia.

“Para mim, Valdir anuncia uma transição na forma de pensar o cuidado e a estética negra. Até então, muitos desses espaços eram improvisados. E Valdir organiza um espaço de qualidade, bem cuidado, bem organizado, com uma diversidade de produtos específicos para os cabelos das pessoas negras.”

Essa preocupação não se restringia à estrutura do salão. Valdir buscava formação, pesquisava técnicas e produtos e procurava compreender as necessidades de cada cabelo.

“Ele não pensava apenas na estrutura, em ter um espaço de qualidade. Ele pensava também na própria qualificação. Valdir foi estudar, buscou se qualificar cada vez mais para oferecer o que tinha de melhor para a gente”, conta Valdecir.

Essa relação de cuidado também atravessou a trajetória da jornalista aposentada Isabel Ribeiro. Além de ter escrito sobre o trabalho de Valdir, ela foi sua cliente e confiava a ele o cuidado com seus dreads. Para Isabel, o trabalho desenvolvido por Valdir precisa ser compreendido também a partir do contexto em que surgiu.

“Valdir chega nessa cidade num momento de invisibilidade negra. E aí ele traz um movimento estético muito forte. As pessoas começam a se descobrir belas. Valdir foi um movimento estético e cultural de descoberta.”

A relação de Isabel com Valdir, no entanto, não ficou restrita ao jornalismo. Ela também se tornou cliente e confiou a ele, durante anos, o cuidado com seus dreads. Entre as lembranças que guarda está o dia em que decidiu que queria cortá-los. “Ele cuidou dos meus dreads. Eu lembro que um dia pedi para ele cortar e ele ficou com muita pena: ‘Ah, não, né? Não se corta dread’. Ele era a pessoa mais confiável e gentil do mundo.”

Cuidados que detalham que aquele espaço se tornou parte de uma rede de convivência, cuidado e valorização da população negra que permaneceu mesmo depois do assassinato de Valdir.

Um assassinato dentro do próprio salão

Imagem: Acervo Pessoal

Valdir Macário foi assassinado em 12 de novembro de 2016, enquanto trabalhava em seu salão, na Avenida Vasco da Gama, em Salvador. Homens armados entraram no estabelecimento e atiraram contra o cabeleireiro. Os suspeitos fugiram sem levar nada do local.

As investigações apontaram Patric Ribeiro Tupinambá, conhecido como “Bagão”, como um dos envolvidos na execução, e Edgar da Silva Santos, conhecido como “Chocolate”, como mandante do crime. Um terceiro homem que aparece nas imagens das câmeras de segurança nunca foi identificado.

Segundo a denúncia do Ministério Público da Bahia, o assassinato teria sido motivado por vingança. Edgar teria ordenado a morte de Valdir por acreditar que o cabeleireiro havia acobertado uma relação extraconjugal envolvendo seu irmão. O inquérito foi concluído e encaminhado ao Poder Judiciário em março de 2017. Desde então, a família espera pelo julgamento dos acusados.

Ao longo desses anos, o júri foi marcado e adiado sucessivas vezes. Em uma das ocasiões, um dos acusados chegou ao fórum sem advogado. Como os dois respondem juntos ao processo, o julgamento de ambos acabou novamente adiado.

Para a família, cada nova data seguida de um novo adiamento prolonga uma espera que já se aproxima de dez anos. Para Idy Macário, irmã de Valdir, as sucessivas remarcações produzem uma sensação de silenciamento, mas não interrompem a mobilização da família.

“Tantas remarcações me fazem pensar que é para nos silenciar, para nos acovardar. Nós somos mulheres, na sua maioria, e estamos à frente de um negócio. De nenhuma forma a gente vai silenciar. A gente precisa de uma resposta da Justiça”, afirma Idy.

A espera também é marcada pelas ausências acumuladas ao longo desses anos. O pai e a mãe de Valdir morreram sem acompanhar o desfecho judicial do caso. Familiares, amigos e pessoas que conviveram com o cabeleireiro seguem esperando pelo julgamento.

O júri está previsto para ocorrer no dia 10 de setembro, no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador. Os dois réus serão julgados por homicídio qualificado.

A história de Valdir também levanta uma pergunta que ultrapassa o caso individual. Quanto tempo uma família negra precisa esperar para que a morte de alguém seja tratada com a urgência e a importância que merece?

Para Valdecir Nascimento, a demora enfrentada pela família de Valdir não pode ser vista como um caso isolado. Ela se aproxima da experiência de outras famílias negras que atravessam anos de espera por respostas do sistema de Justiça. 

“É uma jornada, é uma maratona. Se uma família negra quiser justiça neste país, é uma maratona, porque a Justiça é branca, a Justiça é racista. Depois de quase dez anos do assassinato dele, a gente vive um adiamento atrás do outro para que esse julgamento aconteça. Isso, para mim, beira o descaso. Isso tem a ver com racismo institucional. Tem a ver com um racismo que está impregnado nas estruturas do Judiciário do nosso país, que não respeita a população negra, que não respeita as famílias negras”.

* Reportagem produzida a partir da parceria entre o Instituto Odara e a Revista Afirmativa.

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