Por Catiane Pereira
Aleilda dos Santos, de 55 anos, trabalha com serviços gerais, mora em Feira de Santana (BA), e frequenta uma igreja evangélica pentecostal. Em sua casa, a escolha eleitoral não é compartilhada por todos. Enquanto o marido e o filho apoiam Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, ela afirma que vota em Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A diferença tem consequências no cotidiano. Ao falar sobre a reação da família à sua decisão, Aleilda relata que o filho a questiona por votar no presidente. O marido também critica sua escolha. “Só eu que voto no Lula”, resume.
A trabalhadora não apresenta uma elaboração política extensa para justificar sua posição. Quando perguntada sobre o que considera positivo no governo petista, menciona a possibilidade de acesso à moradia. “Lula ajudou muito, né? Tinha pessoas que não tinham condições de ter uma casa, hoje tem uma casa”, afirma.
A experiência de Aleilda ajuda a colocar em perspectiva uma ideia repetida no debate eleitoral brasileiro, a de que mulheres evangélicas formariam um eleitorado naturalmente alinhado à ultra direita e ao bolsonarismo. A associação ganhou força com a presença de lideranças religiosas em campanhas conservadoras e com o uso de símbolos cristãos no discurso político de Flávio Bolsonaro. Mas a vida das mulheres que frequentam as igrejas é mais complexa do que essa imagem socialmente construída sugere.
A fé pode orientar valores e decisões, mas não elimina as diferenças de opinião nem determina automaticamente o voto. Questões como moradia, renda, acesso à saúde, emprego, segurança e proteção contra a violência também atravessam as escolhas eleitorais.
A fé não determina o voto
A pesquisa Mulheres evangélicas, política e cotidiano, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), oferece elementos para compreender essa relação. O levantamento reúne mais de 180 entrevistas realizadas entre 2022 e 2025.
No relatório, nenhuma das participantes considerou a identidade religiosa de um candidato, isoladamente, motivo suficiente para elegê-lo. Propostas, honestidade e confiança também entraram na avaliação.
Na edição referente a 2025, 30 das 45 participantes ainda não haviam decidido em quem votariam para presidente em 2026. Cinco disseram que votariam em Bolsonaro, se pudessem, e três mencionaram Lula. Os números mostram que, naquele grupo, a escolha presidencial ainda estava em aberto para a maioria.
O estudo também identificou que 63% das participantes consideravam possível ser cristã e feminista. O resultado aponta para uma relação que costuma ser apresentada como incompatível no debate público, embora muitas mulheres encontrem na própria fé argumentos para defender a igualdade de gênero e combater a violência.
É o caso de Rita da Paz, de 65 anos. Biomédica, pedagoga, gestora pública e pastora batista, ela se identifica como feminista e participa de iniciativas voltadas ao enfrentamento da violência contra as mulheres. Sua trajetória inclui a atuação em fóruns de mulheres cristãs e em espaços de discussão sobre políticas públicas.
Para Rita, a questão central não é abandonar a fé, mas questionar as interpretações religiosas utilizadas para limitar direitos e controlar decisões individuais. Ela critica a ideia de que lideranças religiosas devam determinar o comportamento ou a orientação política das fiéis. “Eu acredito que não pode haver cristianismo sem justiça social, isso é inegociável. Se Flávio não defende os direitos humanos, como podemos elegê-lo?”, questiona.

A frase sintetiza a maneira como Rita relaciona a prática religiosa à garantia de direitos. Para ela, o voto deve considerar se as propostas políticas contribuem para o bem-estar da população, especialmente de quem enfrenta mais dificuldades para acessar serviços e oportunidades.
Ao explicar quais critérios deveriam orientar a escolha de uma mulher evangélica, Rita recorre aos ensinamentos de Jesus sobre o cuidado com pessoas pobres e vulneráveis. Alimentação, saúde, segurança e proteção contra a violência, diz ela, precisam estar entre as prioridades. “Se eu digo que sou cristã, eu tenho que pensar que meu voto tem que ser orientado pelas práticas de Cristo. Amor ao próximo deve orientar nossas escolhas e não o ódio, egoísmo e a violência.”
O que acontece fora da igreja também importa
A relação entre fé e política não se limita às interpretações bíblicas. Ela também se constrói a partir das experiências concretas de cada mulher, de sua condição econômica e dos serviços públicos dos quais depende.
Débora Oliveira, gestora de projetos e integrante da Rede de Mulheres Negras Evangélicas, observa que as preocupações cotidianas pesam na avaliação dos governos. “O preço dos alimentos, a existência de creches e escolas, o acesso a medicamentos e as condições de deslocamento são parte da experiência política dessas mulheres”, pondera.
A fala da gestora ajuda a deslocar a discussão de uma suposta disputa entre religião e política para uma pergunta mais concreta. Quais projetos políticos respondem melhor às necessidades de quem trabalha, cuida da família, enfrenta dificuldades para chegar aos serviços públicos e depende de políticas de proteção social?
A edição de 2025 do estudo do ISER ajuda a situar algumas dessas experiências. Entre as 45 participantes, 66,7% se identificaram como negras. Além disso, 64,4% disseram que suas igrejas arrecadavam ou distribuíam alimentos, roupas e itens de necessidade básica.
Os números ajudam a compreender como a experiência religiosa pode estar ligada a redes de acolhimento e assistência, ao mesmo tempo que as mulheres convivem com desigualdades que exigem respostas mais amplas.
Débora argumenta que a ação comunitária é importante, mas não substitui políticas públicas capazes de enfrentar as causas da pobreza. “A minha fé dialoga com a defesa dos direitos humanos, com a defesa dos direitos das mulheres, do povo negro e com a democracia. Ela também se coloca contra todo tipo de opressão.”

Essa diferença de perspectiva também aparece quando se observam os planos de governo de Lula e Flávio Bolsonaro. Embora nenhum dos dois documentos mencione nominalmente a palavra “igreja”, há diferenças na maneira como abordam as liberdades e os direitos. O plano de Lula, nas páginas 6 e 26, defende a dignidade humana, a construção de um país democrático e inclusivo, o respeito às liberdades e aos direitos humanos e o combate a todas as formas de discriminação. O documento também ressalta a importância de uma opinião pública plural para a democracia.
Já o plano de Flávio Bolsonaro não apresenta, nos trechos analisados, uma referência direta aos direitos humanos, embora mencione, nas páginas 9 e 34, valores como a liberdade religiosa, a liberdade de expressão e o “papel das famílias” na definição dos valores transmitidos aos filhos. O contraste permite questionar quais princípios recebem maior ênfase em cada proposta. A valorização de determinados “valores familiares”, sem que o documento esclareça exatamente quais são esses valores, também abre espaço para uma crítica à perspectiva ultraconservadora do candidato, sobretudo quando essa ênfase é colocada em relação às liberdades individuais e à garantia de direitos.
Segurança pública também é uma variável para o voto
A segurança pública é uma das questões que mais mobilizam o debate eleitoral. Para mulheres que circulam entre casa, trabalho, transporte e igreja, a violência interfere na liberdade de ir e vir e pode restringir oportunidades de estudo, renda e convivência.
Uma pesquisa nacional realizada em março de 2026 pelo Instituto Ideia, Instituto Update e Instituto Fogo Cruzado, ouviu 2 mil pessoas por telefone. O levantamento identificou que 92% consideravam a segurança pública uma prioridade nas eleições deste ano. Além disso, 67% disseram não se sentir seguros onde moravam.
Os resultados não se referem especificamente às mulheres evangélicas, mas mostram que a preocupação com a violência ultrapassa divisões religiosas e ideológicas. A questão é como responder a ela.
O mesmo estudo encontrou uma diferença entre a percepção da necessidade de segurança e a confiança na atuação policial. Apenas 41% dos entrevistados acreditavam que a polícia efetivamente protege a população. O percentual caía para 13% entre moradores de favelas. Em relação às grandes operações policiais, apenas 23% afirmaram que elas melhoram a segurança.
O dado ganha outra dimensão quando observado a presença dos templos religiosos nesses territórios. Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 5,3% dos estabelecimentos localizados em favelas são religiosos, quase o dobro da proporção registrada no conjunto do país, de 2,8%. Ao mesmo tempo, por exemplo, as unidades de saúde representam apenas 0,3% dos estabelecimentos nas favelas, contra 12% no país.
Rita defende uma atuação policial voltada à proteção da população, à investigação e à garantia do direito de circular pela cidade. Ela também critica a liberação indiscriminada de armas, que pode ampliar em 85% os riscos de violência doméstica, segundo o Instituto Sou da Paz.
“A segurança pública não pode ser confundida com o armamento da população nem com a violência policial. Quando o Estado responde à insegurança com mais armas e operações violentas, em vez de garantir proteção e direitos, corre o risco de aprofundar a violência que deveria combater”, declara a biomédica.
A discussão importa na comparação entre os projetos políticos dos candidatos. Para Rita, o discurso de Flávio Bolsonaro sobre endurecimento, ampliação do armamento ou fortalecimento das operações policiais precisa ser confrontado com evidências sobre suas consequências na vida da população pobre e periférica.
“A promessa dele de combater a criminalidade é péssima, não enfrenta as raízes da violência e corre o risco de aprofundá-la ao apostar em respostas mais repressivas em vez de priorizar a prevenção”, diz.
Quando a religião vira argumento eleitoral
A associação entre cristianismo e bolsonarismo também se fortalece quando lideranças políticas e religiosas apresentam a eleição como uma disputa entre pessoas que defendem a fé e adversários que supostamente ameaçariam a religião.
Uma das falsas narrativas recorrentes nesse ambiente é a de que Lula fecharia igrejas ou proibiria a Bíblia. Contudo, o presidente jamais afirmou isso em suas redes sociais ou em qualquer declaração pública, sendo, inclusive, uma fake news que circula pelas redes sociais desde 2022.
Lauana A. Flor, doutora em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e fundadora da Associação Mulheres EIG – Evangélicas pela Igualdade de Gênero, defende que as pessoas assumam responsabilidade pelo conteúdo que recebem e compartilham e que na Bíblia existem exemplos para verificar sempre toda e qualquer informação.
“Na cultura cristã é possível acessar várias analogias para a compreensão e enfrentamento das fake news […] Há também referências bíblicas que se referem à comunidade de Bereia: foram pessoas crentes que conferiam tudo antes de aceitar. As mentiras chegam em tom de alarde […] Mas em qualquer contexto (família, igrejas, trabalho etc), cada pessoa precisa se responsabilizar pelo que recebe e aceita como verdade”, afirma Lauana.

A pesquisadora também ressalta a importância do Estado laico, que não exige que as pessoas abandonem sua fé, mas impede que uma crença se imponha como regra para toda a sociedade.
“A defesa do Estado laico ressuscita a memória do que já enfrentamos no passado e nos guia ao horizonte de tolerância, pacificação e inclusão. No Brasil colônia, por exemplo, temos vários registros de como a religião foi usada para oprimir e matar”, declara.
Segundo Lauana, essa distinção é fundamental para compreender a diversidade evangélica. Defender políticas públicas, direitos humanos e a liberdade religiosa não é afastar-se do cristianismo. Para ela, fé e justiça social fazem parte de sua própria interpretação religiosa.
Para as mulheres ouvidas nesta reportagem, a resposta sobre a escolha no voto em Lula passa pela democracia, o direito à vida e a rejeição a um discurso violento. Também está na possibilidade de ter uma casa, encontrar atendimento de saúde, garantir a alimentação da família e com segurança da população.
Para Luciana Petersen, jornalista, diretora do Novas Narrativas Evangélicas e pastora da Comunidade Oásis, a tentativa de associar o cristianismo exclusivamente à direita é também uma forma de apagar uma longa história de resistência dentro das igrejas. “É por meio da fé que eu me torno uma pessoa de esquerda, feminista, associada aos movimentos negros.”

Ela critica o fundamentalismo religioso que tenta impor uma única interpretação da Bíblia e deslegitimar cristãos que defendem a igualdade e os direitos humanos. “Cristãos de esquerda sempre existiram”, ressalta.
Diante da possibilidade de um governo de Flávio Bolsonaro, a pastora manifesta preocupação com o que considera o risco de novos retrocessos. Sua crítica parte tanto da experiência do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro quanto dos impactos que políticas de segurança repressivas e a ausência de políticas públicas podem ter sobre pessoas negras e comunidades vulneráveis.
“Eu tenho muito medo, lembro de quantos irmãos próximos morreram na pandemia de Covid-19 por negligência do então presidente. Além disso, eu vi pessoas próximas, irmãos da igreja, sendo afetados pela violência policial, pelo racismo, por esse sistema de morte”, completa.


