O documento resgata a trajetória da mineração de larga escala no Brasil, em especial seu histórico de avanço sobre os povos indígenas e os territórios que eles preservam

Por Andressa Franco

Imagem: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e a ONG Amazon Watch lançam nesta terça-feira (22) a quarta edição do relatório Cumplicidade na Destruição. Esse ano, com o título “Como mineradoras e investidores internacionais contribuem para a violação dos direitos indígenas e ameaçam o futuro da Amazônia”.

O documento resgata a trajetória da mineração de larga escala no Brasil, em especial seu histórico de avanço sobre os povos indígenas e os territórios que eles preservam.

“No centro da intensa agenda do governo Bolsonaro para desmontar a legislação ambiental e apoiar o fortalecimento do setor mineral, está a abertura dos territórios indígenas para a mineração industrial e o garimpo. Segundo pesquisadores, a aprovação do Projeto de Lei 191/2020 pode causar a perda de 160 mil km² de floresta amazônica. O desmatamento ligado à mineração na Amazônia já aumentou 62% em 2021 em relação a 2018, ano da eleição de Bolsonaro à presidência do Brasil”, diz um trecho do relatório.

A Apib e a Amazon Watch denunciam que, apesar dos anúncios de grandes mineradoras como a Vale e a Anglo American de que iriam abandonar seus interesses em Terras Indígenas, milhares de requerimentos minerários com interferências nessas terras seguem ativos na base de dados da Agência Nacional de Mineração.

“O governo brasileiro é aliado do agronegócio, da indústria da mineração, e do garimpo e da extração de madeira ilegais. Essa atual aliança representa a perpetuação da invasão colonial sobre as Terras Indígenas que conseguiram permanecer protegidas”, destacam os autores do relatório em nota.

Quem financia as mineradoras?

O “Cumplicidade na Destruição IV” identifica ainda os principais investidores de nove mineradoras que são analisadas no relatório. Este, aponta que a Vale, Anglo American, Belo Sun, Potássio do Brasil, Mineração Mamoré (Grupo Minsur), Glencore, AngloGold Ashanti e Rio Tinto receberam nos últimos cinco anos um total de USD 54,1 bilhões em financiamento do Brasil e do exterior.

Corporações sediadas nos Estados Unidos continuam entre as principais financiadoras cúmplices na destruição. Juntas, as gestoras Capital Group, a BlackRock e a Vanguard investiram USD 14,8 bilhões nessas grandes mineradoras com interesses em Terras Indígenas.

Recebe destaque também a participação de instituições financeiras brasileiras na lista dos principais financiadores da mineração. O fundo de pensão brasileiro PREVI (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil) é o responsável pelos mais altos investimentos nestas mineradoras, com mais de USD 7.4 bilhões, seguido pelo banco Bradesco, com quase USD 4,4 bilhões.

Imagem: Nilma Lage/Greenpeace

Estratégias de Resistência

A Apib e a Amazon Watch trazem em seu relatório alguns exemplos de estratégias territoriais de resistência adotadas pelos povos indígenas. Como a autodemarcação da TI Sawré Muybu, realizado pelo povo Munduruku; estratégias socioeconômicas, como a gestão sustentável dos Territórios Kayapó-Panará; e uma experiência internacional, com a resistência do povo Shuar Arutam à mineração no Equador.

“Além das mobilizações de caráter nacional, povos indígenas de todo o Brasil e da América Latina têm encontrado diversas maneiras para resistir à mineração nos seus territórios e para aprofundar alternativas a esse modelo predatório de desenvolvimento. Alternativas que colocam a sustentabilidade da vida, e não o lucro, como objetivo principal”, finaliza o relatório.

O RELATÓRIO PODE SER LIDO EM: https://cumplicidadedestruicao.org/