Por Andreia Ramos*

 

Escrevo essa carta para te contar uma história que marcou minha infância e que me constituí como corpo-mulher-negra que insiste e persiste com coragem a vida cotidiana. Maria, nós nascemos e crescemos em tempos diferentes.

Na minha época, colecionávamos papéis de carta e usávamos um caderno de perguntas e respostas, para saber dos gostos das pessoas, e isso era também uma forma de comunicação entre os grupos, um meio de sabermos em que nos parecíamos e em que nos diferenciávamos. Naquele tempo, não eram todas as casas que podiam contar com um telefone fixo, pois as contas eram caras, então o telefone não servia para conversar, mas para combinar o encontro. Hoje, você e sua geração usam a rapidez das redes sociais para conversar, embora ela guarde um pouco da ideia do caderno, e os celulares estão por toda parte.

Na infância brincávamos com terra molhada, de desenhar no chão com galhos e subíamos em árvores para viver o tempo da vida com alegria. Muitas das nossas brincadeiras de infância são desconhecidas de vocês, com o avanço das tecnologias, a sua geração busca outros modos de diversão e encontros.

Maria, quero te contar um acontecimento que somente há pouco tempo fui entender o que de fato aconteceu comigo.

Dona Judite, uma senhora branca, bordadeira, começou a ofertar vagas para ensinar crianças a bordar. Eu e minha coleguinha de infância, Maresa, fomos nos oferecer para participar das aulas de bordado. Recordo que, nas primeiras aulas, Dona Judite apresentava certa impaciência em me orientar na arte de bordar, até que um dia ela me disse:

Você não tem jeito para bordar porque sua mão é suja!

E eu disse:

Vou lavar bem as minhas mãos para ficarem limpinhas e eu poder participar das aulas e aprender a bordar.

E ela repetiu:

Você não tem jeito para bordar porque sua mão é suja!

Maria, saí descontente da aula naquele dia e nunca mais voltei. Já em casa, lavei muito minhas mãos para tentar limpá-las da sujeira que Dona Judite disse que estava nelas. Recentemente, minha filha, lendo contos escritos por mulheres negras entendi o que de fato aconteceu comigo naquele dia. O que vivi na infância foi RACISMO. Foi preciso resistir com coragem o desprezo que imperava e impera na sociedade brasileira, e, como criança negra, ressignificar sentidos e re-existir diariamente aos racismos cotidianos.

Maria, desejo que você siga com alegria de viver, de conviver, de estar com pessoas para conversar e conhecer suas histórias, com amorosidade para continuar costurando nossas vidas com esperança e resistência.

De sua mamãe que te ama!

 

* Sou mãe da Maria, nasci e vivo na Ilha de Vitória, ES. Gosto de gente, de caminhar, pedalar, nadar, dançar, cozinhar, conversar, ler, escrever e amar. Aprecio cachoeiras, florestas, rios, praias e manguezais. Sou um corpo-mulher-negra que persiste, insiste e re-existe com coragem, amor, alegria e esperança.