Para retratar um pouco da diversidade possível de ser encontrada na paternidade, a Revista Afirmativa conversou com três pais, de diferentes gerações, pautadas por diferentes desafios

Por Andressa Franco e Patrícia Rosa

Imagem: Arquivo Pessoal Gabriel Veiga

O segundo domingo de agosto, esse ano, dia 14, marca o Dia dos Pais que, como muitas datas comemorativas, foi criado com fins comerciais. Independente de suas origens, a data se tornou uma oportunidade não só de reconhecimento da figura paterna, mas também para reflexão de temas mais densos e complexos, como o papel dos pais na criação dos filhos, e também o abandono parental.

 “Existe uma vida antes e depois do filho”

Até um ano e meio atrás, Gabriel da Veiga, de 29 anos, poderia se apresentar como desenvolvedor de aplicativos, gestor de TI, designer gráfico, ou até mesmo como um dos criadores do primeiro aplicativo que conecta afroempreendendores de todo o Brasil, o Páginas Pretas Classificados. Mas, desde que descobriu que seria pai do Heitor, de oito meses, ele divide a vida em antes e depois.

“Quando descobri que seria pai, eu fiquei ansioso, nervoso, com bastante medo. Medo do desconhecido. Parece que você vive uma vida antes do filho e uma depois que descobre que ele vai chegar.”, relata.

O que acalmou o jovem, foi lembrar das referências que tinha dentro da própria casa, não tem admiração apenas pelo próprio pai, mas por todos os pais da sua família. “Eu não precisei ir tão longe pra conseguir uma referência.”.

Apesar de o filho ainda não ter completado nem mesmo um ano, Gabriel já vê como a parte mais difícil da paternidade, a formação do caráter. “Com base nisso você forma uma pessoa. Acredito que seja uma parte bem delicada.”. Mas não é a única. O empreendedor acredita que debater a paternidade preta é algo cada vez mais fundamental para a sociedade.

No último sábado (6), o Páginas Pretas Classificados promoveu o encontro “Paternidade Africana” no Quilombo Cultural Urbano Casa do Nando, no Rio de Janeiro (RJ). A ideia era realizar uma roda de conversa onde pais pretos pudessem trocar experiências.

“Eu pude ter uma visão de como é um tema importante, principalmente devido à questão do abandono. É um tema muito complexo. Fiquei realmente surpreso com os relatos das pessoas, e só através do debate podemos mudar esse cenário para as próximas gerações.”

Debate esse que precisa acontecer de forma constante, e não apenas em datas comemorativas, defende. E não só o debate da paternidade preta, mas a crescente pauta da participação dos pais na criação dos filhos, e da sobrecarga das mães com dupla jornada. “Esse debate só fica em alta no Dia dos Pais. A gente ainda precisa avançar muito nessa discussão e a sociedade precisa parar de jogar essa responsabilidade para mãe.”

“Eu fui pai bem precoce, pai gay”

Aos 17 anos, o ainda adolescente baiano Nildson Veloso se casou, e um ano depois já tinha seu primeiro filho. Aos 23, já era pai de três. “Eu fui pai bem precoce, pai gay, essa é a verdade, meu casamento hétero levou 10 anos.”

Nildson hoje tem 56 anos, é professor de teatro e produtor de audiovisual. Pai de três filhos adultos, conta como a paternidade foi um grande desafio em meio a juventude. Enquanto seus filhos estavam nas fraldas, ele iniciava a vida universitária.

“Eu tive que aprender fazendo. Ainda estava sendo educado por meus pais, então o que eu aprendia, passava pra eles”. Hoje, o filho mais velho tem 38 anos, e Nildson o considera quase como um irmão caçula. “Às vezes a gente até discutia como se fossemos irmãos, eu tive que criar uma maturidade que eu não tinha ainda pois tinham três seres ali que precisavam de mim”. O apoio dos pais foi essencial não só como referências para educar as crianças, afinal, Nildson precisava dar conta da faculdade e do estágio.

Nildson Veloso foi pai na adolescência, ao mesmo tempo que amadurecia e se descobria, ele educava os 3 filhos.
Imagem –
Arquivo Pessoal

Ser pai e ser gay lhe rendeu sentimentos de culpa e medo, devido a falta de referências na época. “Eu pensava muito sobre como eu ia dizer isso para meus filhos e como eu construiria essa relação de pai gay, mas fui aprendendo”. A família do produtor teve resistência em entender sua sexualidade, “hoje me incomoda ter que voltar atrás e explicar que naquele momento eu estava me descobrindo gay, que eu não entendia bem qual era minha orientação sexual”. Mas, para os filhos, com o tempo, o que já era normal foi se naturalizando e ele pôde apresentar seu namorado para eles. A relação dos quatro é de parceria e companheirismo.

Hoje, a filha caçula é mãe de três filhos, e assim, tão cedo quanto se tornou pai, Nildson também se tornou avô, passando a exercer a paternidade em dobro com seus netos.

“O mundo que eu conheci quando tinha a idade deles não existe mais”

Para Geraldo Seara, a paternidade chegou aos 46 anos, quando o professor de inglês recebeu a notícia da gravidez da esposa, no meio de uma aula na escola que leciona na rede pública de ensino, em Salvador (BA). “A notícia me deixou tão eufórico, que os estudantes me incentivaram a parar tudo e ir ver minha esposa. Eles acharam que o meu filho já tinha nascido, eu já estava comemorando como no dia do pênalti de Roberto Baggio, na copa de 94”, lembra.

Ele conta que sentiu o seu mundo mudar naquele momento e o peso da responsabilidade batendo na sua porta. No sexto mês de gravidez, soube que seria uma menina: Isabel. “Até hoje não sei como eu consegui assistir ao parto, a alegria era imensa, ver aquela criaturinha vindo ao mundo e a responsabilidade só foi aumentando.”

Geraldo hoje tem 61 anos e sua primogênita tem 15. Para aumentar a família, veio Toni, de 9 anos. Ser presente na vida dos filhos é algo que considera fundamental, mas admite, no entanto, que não consegue dar o tanto o quanto gostaria.

“Quando eles chegam da escola e eu do trabalho, tenho o cuidado de ajudar nas tarefas da escola. Mas, o mais importante é que ganhei dois professores, que são meus dois filhos”.

Geraldo Seara valoriza o tempo de qualidade na troca de experiências,  “O mais importante é que ganhei dois professores, que são meus dois filhos”. – Imagem: Arquivo Pessoal

Apesar de separar o tempo entre trabalho e responsabilidades com os filhos, quando está em sala de aula, Geraldo reflete muito sobre a paternidade, por notar “carência nas atitudes” de algumas crianças. “Muitas vezes eu sou a única referência paterna que alguns deles têm, mesmo que tenham pais vivos. Saem cedo para trabalhar e voltam muito tarde, eles acabam não tendo contato com esse pai e a figura do professor se torna essa representatividade.”

Os desafios geracionais fazem com que o pai da Isabel e do Toni se reinvente todos os dias e se dedique a aprender as diferenças dos dois mundos. “O mundo que eu conheci quando tinha a idade deles não existe mais. É minha função mostrar para essas crianças como esse mundo está e como eles podem intervir nessa realidade. Para mim ser pai é isso: preparar os filhos para essas realidades”, finaliza.