Por Márcia Guena*

 

Só hoje consegui expressar a minha indignação por Vilma Reis ter sido preterida por uma militar como pré-candidata do Partido dos Trabalhadores à prefeitura de Salvador, na Bahia, no Brasil. Quem é Vilma Reis? Uma mulher negra que não tem medo do poder. Um mulher intelectual, militante, ex-trabalhadora doméstica que cresceu por fora da institucionalidade, defendendo quilombolas, nosso povo negro dos presídios, mulheres negras feministas que bradam por suas vidas, de seus filhos e arrombam as portas da política. E entrou na institucionalidade com a mesma gana!

Na cidade de maior concentração de população negra do país, onde a ideologia militar mata a juventude negra nas periferias como uma política anti-crime, ou necropolítica – e nunca reconhece isso – como o Partido dos Trabalhadores escolhe essa instituição para dirigir a cidade? Que mensagem é essa que está nos enviando? Tenta escamotear esse discurso atrás da imagem de uma mulher negra e elege o patriarcalismo militar.

Antes de mais nada é preciso dizer que eu voto na esquerda e não tenho nenhum acordo com a direita golpista. Não tenho nenhuma relação com o fascismo que está no poder no Brasil. Porém, nós, negras e negros, precisamos questionar essa esquerda velha, que do alto de sua branquitude nunca divide os espaços de poder com  os povos negros e indígenas que conduzem as lutas mais duras desse país e morrem diariamente, enchendo estatísticas similares a uma guerra.

Como diria Aníbal Quijano, intelectual peruano, o PT operou na lógica da colonialidade, privilegiando as alianças com o poder mais conservador, sem olhar para as bases que o levaram a ser o maior partido de esquerda da América Latina. Foi Quijano quem cunhou o termo colonialidade e norteou inúmeros pensadores a quebrar essas amarras e fazer o giro decolonial, que nos arrancaria da velha lógica eurocêntrica e nos colocaria no centro da história. Esse foi o caminho negado.

Diante da possibilidade de eleger uma mulher com projeção e alianças nacionais com o que há de mais revolucionário nos movimentos populares, nos movimentos negros e nas organizações feministas negras, optou pelo conservadorismo eleitoreiro.

O que significa isso? Quer dizer que nunca fomos levados a sério politicamente. Estivemos na base de toda resistência à ditadura militar, compondo sindicatos, engrossando a luta no campo, nos movimentos estudantis, lotando os presídios. Entretanto toda a representação e as lideranças homenageadas, lembradas e indenizadas é composta por pessoas brancas. Com raras exceções, como Carlos Marighela e Osvaldão.

Desde lá, e desde muito antes, a luta para ocupar a presidência dos partidos, a indicação a vereança ou aos parlamentos recaem, majoritariamente, sobre homens brancos heterossexuais. Uma luta contra o racismo e o sexismo que ainda precisa ser vencida porque o pensamento eurocêntrico não interpreta esse como um problema estrutural, que necessita ser vencido com representação política e não migalhas de poder.

Se na década de 1960 bradamos poder para o povo negro, o grito ainda é válido. O debate sobre gênero e raça apenas começa a ganhar peso político, eleitoral. Vilma Reis significa o início de uma ruptura que se anuncia e se mostra como o caminho conflituoso que a colonialidade/modernidade terá que trilhar: as lutas das mulheres negras, dos povos negros e indígenas que vão se encorpando e produzindo discursos próprios, mundialmente interconectados.

Os condenados da terra estão construindo um mundo novo. Rupturas que passam pela política, mas também pelos afetos, pela arte, pelos feminismos e pelo Bem Viver. Passam por outras formas de ver o mundo, o corpo, a saúde, a luta e a festa. Utopias que vão se forjando em novos centros do planeta.

O PT perdeu, mais uma vez, a oportunidade se ser o arauto dessa boa nova e escolheu o caminho velho. Nossas filhas e filhos negros lamentam. Por que são eles que estão na frente dessa batalha. Uma parte morre, mas a outra se renova e se multiplica em mil Vilmas Reis, nas favelas, nas universidades, nas artes e na cultura. Produzindo tecnologia, reinventando quilombos, fazendo filmes, dançando, rezando e acreditando na história e na herança que nos permitiu sobreviver até aqui.

 

* Jornalista; professora do curso de Jornalismo da UNEB em Juazeiro; doutora em história e mestre em integração na América Latina.