O caso aconteceu em no Colégio Vitória Régia, em Salvador (BA). Em entrevista ao Portal Umbu, a professora Daniela Torres desabafou sobre os últimos anos.

Por Andressa Franco

Imagem: Portal Umbu

A professora Daniela Torres, demitida em 2021 após trabalhar livro de Conceição Evaristo em uma escola de Salvador (BA), ainda lida com as consequências do caso. Daniela lecionava no Colégio Vitória Régia, no bairro Cabula, onde tentou estudar a obra da premiada escritora mineira com os estudantes do ensino médio, que se sentiram incomodados com a proposta.

O livro Olhos D´água seria aplicado para participação em um concurso escolar que também funcionaria como atividade extracurricular. Ou seja, a obra não foi indicada pela educadora, mas fazia parte de uma relação de livros exigidos para a participação do concurso em que o Colégio estava inscrito.

A obra reúne 15 contos que abordam a vivência da população afro-brasileira, tratando de temas como pobreza e violência urbana.

“Não vamos lidar com uma dor que não é nossa”, foi a justificativa apresentada pelos alunos, e 15 dias depois a professora foi afastada da turma. O afastamento aconteceu após pedidos de oito famílias contrárias à obra.

Em entrevista para a Afirmativa na época, a mãe de um aluno que já frequentou o colégio e moradora do Cabula, Janice Nicolin, contou que a unidade atende a população de classe média da localidade. Relatou ainda que a instituição mudou muito depois que a gestora se tornou adepta da religião evangélica, exemplificando que antes disso o colégio fazia atividades antirracistas e o ensino era ancorado na criticidade.

“A obra de Conceição Evaristo é considerada por estas famílias por obra de ‘mau gosto’, já ouvi isto. Por que mau gosto? Por denunciar a realidade hostil que vive a maioria da população brasileira. E mais: mostra as desigualdades de gênero e raça”. A também professora disse ainda que as reações negativas se dão porque falar das experiências de negritude mexe com a consciência, mesmo daqueles que negam o racismo. 

No primeiro momento, a instituição afastou a professora. Até que Daniela foi desligada definitivamente.

Em entrevista ao Portal Umbu na última semana, ela relata que desde o episódio tem buscado atuar em outras escolas, mas que sempre encontrava desculpas para dispensar sua candidatura quando a reconheciam.

“Fiz entrevista em uma escola e a coordenadora me ligou, falou que ainda não é o momento. A última escola em que eu fiz entrevista, cheguei até a avançar bem no processo. Quando já estava quase para contratação, eles me ligaram e falaram que a escola não contrata professores que tem muitos seguidores no Instagram.”

A educadora contou ao Portal Umbu que chegou a conversar com a advogada que a representa, que indicou que o critério apresentado deveria estar contido nos requisitos da vaga. 

O processo contra a escola, aberto com apoio do sindicato dos professores para apurar o caso, foi motivado pela discriminação e pelo racismo sofridos pela docente e ainda está em andamento. A última audiência aconteceu no dia 25 de setembro deste ano.

“Alguns amigos perguntaram se eu tinha certeza que queria seguir com o processo, se eu realmente iria falar com a imprensa e se eu queria que o meu nome saísse. Eles me questionaram porque eles têm medo que eu perca o emprego que tenho hoje, já que não estou conseguindo outros empregos”, desabafa.

Torres atua na educação há mais de 20 anos, e acredita que a instituição de ensino prejudicou sua carreira, associando sua imagem como “inconsequente, ridícula e problemática”. A professora relata que é perseguida pela escola onde o episódio aconteceu e que a mesma instituição intimida possíveis testemunhas do processo. 

“Eu quero que meus amigos professores saibam que alguém lutou um dia e que, por mais que pareça que eu estou perdendo, estou ganhando, lutando pela causa.”

Em nota, o Colégio Vitória Régia afirmou, que alguns alunos e familiares não se sentiram confortáveis com a obra, “por acharem a linguagem inapropriada para a faixa etária, nos termos da Lei nº. 8.069/90”. Isso por conta das narrativas de violência e os eventuais palavrões. Mas a nota enviada ao Portal Umbu não explica a manutenção do afastamento e da responsabilização da professora.