Texto: Divulgação
Com o objetivo de identificar e combater possíveis vieses raciais em tecnologias utilizadas no Sistema Único de Saúde (SUS) o Ministério da Saúde acaba de divulgar o desenvolvimento do projeto Saúde Digital sem Racismo. O projeto marcou as ações do Governo Federal para o 27 de outubro, Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra, e tem como objetivo o enfrentamento das desigualdades raciais e a promoção de uma saúde pública mais justa e inclusiva.
A data chama a atenção para os impactos do racismo nas condições de saúde da população negra e para a importância de políticas públicas que garantam acesso equitativo aos serviços de saúde. Nesse contexto, o projeto pretende contribuir para que os avanços da transformação digital do SUS não reproduzam ou ampliem desigualdades raciais.
O projeto Saúde Digital sem Racismo está estruturado em três frentes de investigação: a revisão da literatura científica, a coleta e a análise de dados e a elaboração de documentos técnicos com recomendações para uma saúde digital antirracista. A expectativa é que os resultados contribuam para a criação de metodologias e protocolos capazes de identificar e reduzir desigualdades raciais nos sistemas de informação em saúde, fortalecendo a integração entre inovação tecnológica, participação social e políticas públicas de promoção da equidade.
A primeira prevê auditorias em sistemas automatizados utilizados na saúde, com o intuito de identificar possíveis diferenças de desempenho entre grupos raciais. A segunda frente está voltada ao monitoramento da implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) nas políticas de digitalização da saúde. A terceira contempla o mapeamento e a escuta de lideranças negras e quilombolas, para compreender suas experiências, necessidades e desafios relacionados ao acesso às tecnologias digitais em saúde.
Na segunda-feira (26), a Secretaria de Informação e Saúde Digital realizou uma oficina com pesquisadores e representantes de áreas técnicas para discutir estratégias de identificação do racismo algorítmico e definir os próximos passos do projeto. O encontro teve como foco a seleção de tecnologias e sistemas digitais que poderão ser analisados, além da definição de indicadores e metodologias de pesquisa.
O coordenador do projeto, professor doutor Deivison Faustino, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), chamou a atenção para os riscos do racismo algorítmico, que ocorre quando sistemas automatizados reproduzem ou ampliam desigualdades raciais. A pesquisa “Racial Bias in Clinical and Population Health Algorithms: A Critical Review of Current Debates” de 2025 examina como algoritmos usados na saúde podem produzir taxas diferentes de decisões e erros entre grupos raciais, inclusive quando não utilizam explicitamente a raça como variável. Os autores também alertam que medidas adotadas para corrigir vieses podem gerar outros efeitos indesejados.
“Existem pesquisas que mostram que o reconhecimento facial é mais falho com pessoas negras, principalmente quando são mulheres. É um tema que, infelizmente, ainda é pouco discutido”, afirmou.
Paulo Sellera, secretário-adjunto da SEIDIGI, falou durante o encontro sobre a importância do trabalho conjunto em prol do desenvolvimento do projeto. “Temos um compromisso com a sociedade e sabemos que, para avançar, é fundamental pensar, planejar e construir soluções de forma conjunta.”


