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“Cadê o PIX, Juca?” : vítimas expostas, dinheiro desviado e uma justiça que demora a chegar

Quase um ano depois da última audiência, réus voltam a julgamento de esquema que roubou doações de dinheiro feitas por telespectadores na Bahia
“Cadê o PIX, Juca?” : vítimas expostas, dinheiro desviado e uma justiça que demora a chegar
Imagem: Reprodução Redes Sociais

Por Luana Miranda*

Acontece hoje (6) e amanhã (7), em Salvador (BA), a terceira etapa do julgamento dos crimes de desvio de dinheiro e formação de quadrilha, supostamente orquestrados pelo apresentador Marcelo Castro – o Juca –, e pelo jornalista Jamerson Oliveira. Os réus são acusados de desviar aproximadamente 400 mil reais de doações enviadas para crianças doentes e em vulnerabilidade financeira, durante um programa da televisão baiana. 

O crime, identificado no início de 2023, é investigado a passos lentos pela Justiça da Bahia e carrega o formato exato do funcionamento do racismo estrutural no Brasil. Mais de três anos depois, a história segue sem desfecho para as vítimas, que além de serem roubadas, tiveram suas vidas expostas e objetificadas publicamente. 

Em 28 de fevereiro de 2023, foi ao ar mais uma edição do programa baiano de televisão, Balanço Geral, apresentado por José Eduardo – o Bocão. O programa, veiculado pela Record Bahia, desbancava a audiência do estado com quatro horas seguidas de uma programação focada em operações policiais, intrigas entre vizinhos em bairros periféricos, escândalos públicos e assistencialismo. O que parecia mais uma transmissão comum na rotina de gravações, se tornou a primeira fagulha para a explosão pública de um dos maiores crimes de desvio de doações financeiras da televisão baiana. 

Antes da notícia sobre o crime se alastrar por toda a configuração do Balanço Geral, o programa tinha entre os funcionários, Jamerson Oliveira, editor-chefe, e o repórter Marcelo Castro, responsável por acompanhar, muitas vezes ao vivo, as operações policiais em Salvador (BA). Ao longo de sua trajetória no programa, Marcelo desenvolveu diversos bordões, entre eles o “entrando no terreno”, para ilustrar ao telespectador que estava in loco nos conflitos entre os criminosos e a polícia; e o codinome “Juca”, forma com que o repórter se referia aos polícias durante entrevistas, operações e apurações. Uma maneira de manter as identidades dos agentes em sigilo, e que, não ironicamente, se tornou a sua própria assinatura.

Também era função de Marcelo cobrir as ausências do âncora José Eduardo, além de apresentar um quadro de assistencialismo dentro do Balanço Geral. O quadro apresentava histórias de pessoas com problemas de saúde e em situações de vulnerabilidade econômica junto com um número de PIX, assim, os telespectadores sensibilizados podiam enviar suas doações. Os casos apresentados seguiam um mesmo padrão: eram quase sempre mães, acompanhadas de filhos portadores de doenças graves e/ou pessoas com deficiências. Elas precisavam de apoio financeiro para adquirir acesso a tratamentos, consultas médicas, equipamentos e até remédios. 

No dia 28, até então, uma terça-feira qualquer, Marcelo recebeu ao vivo a mãe de uma criança de um ano, com dois tumores espalhados pelo corpo. Os familiares precisavam comprar um remédio, cuja dose custava mais de R$70 mil reais. A criança necessitava de cinco aplicações. Na ocasião, o jogador de futebol Anderson Talisca que atuava fora do Brasil, estava, coincidentemente, em Salvador (BA) e assistiu ao programa. Comovido com o relato, o esportista se disponibilizou a doar o valor da primeira dose do remédio. De acordo com o depoimento do delegado Charles Leão à equipe da Revista Piauí, o PIX que Anderson viu na TV não foi o mesmo enviado por Marcelo à equipe do jogador. Diante da inconsistência, o advogado do esportista entrou em contato com a direção da emissora, que instaurou uma investigação interna.

O que foi descoberto daí em diante é que o PIX exibido na tela durante as apresentações dos casos não eram das pessoas em vulnerabilidade, e sim de indivíduos que atuavam no esquema criminoso como laranjas. O valor arrecadado era repartido entre os envolvidos e apenas uma pequena parcela era repassada para as vítimas. O caso ganhou repercussão pública no dia 14 de março de 2023 e, em julho do mesmo ano, os acusados foram indiciados pela Polícia Civíl. Segundo informações do Ministério Público da Bahia (MP-BA) divulgadas pelo G1, além de Marcelo Castro e Jamerson Oliveira, investigados como orquestradores do golpe, outras 10 pessoas estão envolvidas no esquema. Dentre elas, Lucas Costa Santos, motorista de aplicativo e amigo pessoal de Jamerson. O inquérito aponta que Lucas era responsável por angariar as pessoas que forneceriam o PIX para o golpe, muitas delas eram familiares do motorista. 

Marcelo Castro e Jamerson Oliveira foram demitidos do programa Balanço Geral poucos dias depois que o escândalo veio à tona, mas as consequências negativas pelo suposto crime tiveram um prazo curto. No ano seguinte, a emissora TV Aratu, afiliada ao SBT na Bahia, lançou o programa “Alô Juca”, apresentado por Marcelo Castro, que também tem um portal online de notícias e um programa de rádio na Piatã FM. Jamerson também foi contratado pela TV Aratu, assumindo um posto ainda maior, o de coordenador geral de conteúdos da emissora. Ao contrário dos homens e mulheres negras frequentemente expostos e ridicularizados no programa de Juca, ele e Jamerson seguem a vida normalmente, gozando dos privilégios da branquitude.

A primeira audiência sobre o golpe do PIX ocorreu em 18 de fevereiro de 2025, quando metade das vítimas envolvidas no processo foram ouvidas. A segunda etapa do julgamento ocorreu no dia 13 de março do mesmo ano. Já a terceira audiência, que deveria ocorrer no dia 22 maio de 2025 foi adiada por um ano. As vítimas do caso e os 12 réus serão interrogados novamente nos dias 6 e 7 de maio.

*Escrito com informações da Revista Piauí e do portal de notícias G1.

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