Faz mais de 30 anos que os movimentos de mulheres negras do Brasil, América Latina e Sul Global vêm empenhando esforços para fortalecer uma atuação transnacional por justiça racial e de gênero. Um dos grandes marcos desse processo foi o 1º Encontro de Mulheres Negras da América Latina e Caribe, realizado na República Dominicana, em 1992, com participação de ativistas de toda a região. Ali nascia o Dia Internacional da Mulher Negra Afro Latina, Americana e Caribenha, que passou a ser celebrado anualmente em 25 de Julho.
As ações em torno da data foram ampliadas em 2013, quando o Odara – Instituto da Mulher Negra criou o Julho das Pretas, com a proposta de fortalecer a atuação política coletiva dos movimentos de mulheres negras durante o mês inteiro. A construção da agenda coletiva do Julho das Pretas teve início na Bahia e, ano após ano, foi se expandindo para o Nordeste, o Brasil, a América Latina e o mundo.
Em sua 14ª edição, com o tema “Seguimos em Marcha por Reparação e Bem Viver”, o Julho das Pretas 2026 reúne 675 atividades que estão acontecendo em 24 estados brasileiros e em outros 3 países.
O Julho das Pretas 2026 é marco de continuidade da Marcha Global das Mulheres Negras Por Reparação e Bem Viver, realizada em 25 de novembro de 2025, em Brasília, que reuniu mais de 300 mil mulheres de todas as regiões do Brasil e de 47 países, celebrando uma década de resistência desde a mobilização histórica de 2015, após a realização da primeira Marcha de Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver, que mobilizou 100 mil mulheres negras no dia 18 de novembro de 2015.
Tecendo alianças para além das fronteiras
A segunda Marcha retoma uma estratégia tecida pelas mulheres negras lá em 1992, a partir da compreensão de que, apesar das especificidades que nos atravessam a nível local em nossos territórios, nos fortalecemos a partir do momento que conseguimos derrubar barreiras linguísticas e geográficas para nos irmanar e convocar a Reparação e o Bem Viver como soluções globais para as mazelas históricas da colonização, do racismo e do sexismo.
“Os sistemas que extraíram riqueza dos povos africanos, marginalizaram comunidades negras e desvalorizaram o trabalho das mulheres negras operaram para além das fronteiras, e nossas respostas também precisam fazê-lo. Ao criar espaços de troca entre mulheres de diferentes regiões, fortalecemos uma visão coletiva e construímos as alianças necessárias para avançar a justiça reparatória em nível global”, afirma Gaynel Curry, presidenta do Fórum Permanente sobre pessoas Afrodescendentes.
O diálogo e o fortalecimento de redes entre ativistas negras do Brasil e do Sul Global, que ganhou fôlego com a Marcha de 2025 e agora se renova com o Julho das Pretas em 2026, não se limitam a encontros pontuais. Os movimentos de mulheres negras estão consolidando um processo político contínuo, que atravessa fronteiras e mares e reposiciona as nossas estratégias de incidência diante de uma demanda global por justiça, Reparação e Bem Viver.
Para Durica Almeida, ativista do Instituto de Mulheres Negras do Amapá (IMENA), estreitar relações transfronteiriças é um caminho fundamental para fortalecer alianças políticas e ampliar o alcance das vozes. “[É importante] para o compartilhamento de experiências e ideias em temáticas como mulheres negras nos espaços de poder e na ciência, na preservação dos saberes ancestrais e em como torná-los fontes de desenvolvimento para as mulheres negras nos seus territórios.”
O Bem Viver e a imaginação radical das mulheres negras do mundo
Mesmo diante do acirramento das desigualdades, das violências e da crise climática que recai de forma mais acentuada sobre os territórios tradicionais e periféricos, as mulheres negras do mundo estão se propondo a exercitar sua imaginação radical para gestar uma sociedade de Bem Viver, baseada em outra concepção de vida, onde seja possível existir de forma harmônica.
Nessa perspectiva, Gaynel Curry defende que o Bem Viver e a justiça reparatória estão profundamente conectados. Ela pontua que “ambos nos convidam a ir além da simples gestão das desigualdades e a imaginar sociedades baseadas na equidade, na participação e na prosperidade compartilhada.”
A professora, pesquisadora e ativista do movimento de mulheres negras, Rosane Borges, afirma que o Pacto do Bem Viver propõe uma reviravolta nos modos de exercer a política, de viver as nossas subjetividades e de orientar os nossos desejos. Para ela, uma sociedade de Bem Viver modifica as concepções sobre a gestão de elementos que nos são comuns – como a economia, a educação, a saúde – e os reconfigura.
“Eu vejo, para as futuras gerações, uma outra partilha desse comum, uma outra concepção de humanidade e de existência, do modo da gente se pôr no mundo, porque a ideia do comum, daquilo que nos coloca numa mesma plataforma de existência, terá sido reconfigurada e liberta da colonização que hoje permanece, do racismo que hoje permanece por meio de um capitalismo de crise”, destaca.
As mulheres negras, ao firmarem um pacto transnacional de Bem Viver, estão dizendo ao mundo que têm acúmulo e capacidade política para gerir este projeto coletivo de transformação. “O cotidiano da vida das mulheres negras já é uma escola de aprendizados, na qual se fortalece e amadurece cotidianamente essa imaginação radical. Nós temos experiência para propor um novo projeto de sociedade impecável e mudanças estruturais fundamentadas em nossa experiência”, argumenta Durica Almeida.
Seguimos em Marcha
Neste dia 25 de Julho, milhares de mulheres do Brasil inteiro estão nas ruas, reafirmando que “Seguiremos em Marcha por Reparação Bem Viver”, articuladas e irmanadas em nossa perspectiva transnacional de incidência política. “Nós continuamos denunciando, resistindo, lutando, mas também propondo, fazendo, agindo, transformando, pensando, oferecendo estratégias e táticas não só para o feminismo negro, mas para a sociedade como um todo”, ressalta Rosane Borges.
Seguimos em Marcha para denunciar o racismo, o sexismo, a LGBTQIA+fobia, a gordofobia, o capacitismo, o epistemicídio e tantas outras formas de opressão que impõem sobre os nossos corpos e territórios. Seguimos em Marcha para gestar o impossível, transformar em realidade os sonhos historicamente negados e apontar caminhos para uma sociedade de Bem Viver, construída a partir da justiça, da reparação e da coletividade.
“Dizer que seguimos marchando é reconhecer que essa luta não começou conosco e não terminará conosco. As mulheres negras marcham há gerações, muitas vezes sob diferentes nomes e bandeiras, mas sempre com a mesma determinação de afirmar nossa humanidade, defender nossas comunidades e transformar sistemas construídos sobre a desigualdade”, conclui Gaynel Curry.


