Por Jamile Novaes
Com três horas de atraso, o primeiro dia de julgamento de Arielson da Conceição Santos e Marílio dos Santos, acusados pelo assassinato da líder quilombola Bernadete Pacífico, teve início às 11h da manhã da última segunda-feira (13), no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador (BA). No banco dos réus, apenas Arielson esteve presente, já que Marílio segue foragido.
Além dos dois, Josevan Dionísio dos Santos, Sérgio Ferreira de Jesus e Ydney Carlos dos Santos de Jesus, conhecido como “Café”, também são acusados de envolvimento no assassinato e serão julgados em um momento posterior.
O júri popular começou com os depoimentos de dois agentes de segurança pública que atuaram na investigação do caso. Em ambos os depoimentos, os investigadores discorreram sobre as provas que indicam Arielson e Josevan Dionísio dos Santos, conhecido como “BZ”, como autores dos 25 disparos que vitimaram Mãe Bernadete.
De acordo com a investigação conduzida pela Polícia Civil, os homens teriam agido sob o mando de Marílio, conhecido como “Maquinista”. Ele teria encomendado a morte da líder quilombola após descobrir que ela, supostamente, acionou a polícia para solicitar a retirada de uma barraca chamada Point Pitanga City, na comunidade quilombola de Pitanga dos Palmares, em Simões Filho (BA).
Segundo as informações reunidas durante o processo, a barraca foi construída e era administrada por homens relacionados ao tráfico de drogas na região. O espaço seria utilizado para a realização de festas que aconteciam frequentemente e incomodavam os moradores por conta do volume alto do som. Após ser procurada por pessoas da comunidade, Mãe Bernadete teria denunciado a situação à polícia, o que acabou chegando ao conhecimento de Marílio, dando origem, de acordo com a Polícia Civil, à ordem para a execução da liderança quilombola.
O que disse o réu
Durante o depoimento de Arielson, no entanto, negou conhecer Marílio. Ao contar sua versão dos fatos, o réu afirmou que Mãe Bernadete se incomodava com sua presença no quilombo e teria tomado atitudes como proibi-lo de acessar a comunidade e chamar a polícia para retirá-lo do local.
Arielson afirmou que, por conta dessa suposta desavença, resolveu chamar Josevan para ir até a residência de Bernadete lhe “dar um susto”. Ainda segundo ele, não estava armado ou planejando cometer o assassinato e teria ficado surpreso com a atitude de Josevan, a quem aponta como responsável por levar as armas até o local do crime e realizar 22 dos 25 disparos feitos contra a vítima. “Eu errei, não era pra ter feito isso com ela. Era só pra dar um susto porque ela não me queria lá”, confessou.
Ele ainda alegou ter sido pressionado e torturado por policiais para assumir a autoria do crime. Arielson também relatou que, ao ser capturado pela polícia, não foi informado sobre seu direito de permanecer em silêncio.
Para o advogado Hédio Júnior, assistente de acusação do Ministério Público, o conjunto de provas apresentadas contra os réus é robusto e irrefutável. “As provas apontam que houve participação do tráfico de drogas na determinação, na ordem, e no planejamento [do crime]”, afirmou.
Acusação diz que não há provas sobre possível envolvimento de fazendeiros
O advogado foi questionado pela Afirmativa sobre a hipótese do assassinato de Mãe Bernadete ter relação com conflitos fundiários envolvendo fazendeiros e empresários da região e respondeu que, do ponto de vista do processo penal, a acusação não conseguiu produzir provas sobre isso. “As provas apontam para Marílio, para Ydney. Apontam a oposição a interesses do tráfico de drogas, apontam para a facção. A facção hoje impediu a comunidade de vir ao júri.”
Wellington Gabriel de Jesus dos Santos, neto de Bernadete, também foi ouvido no primeiro dia do júri. Emocionado ele reviveu o horror de ter a casa invadida, ser rendido, ouvir os disparos e depois se deparar com o corpo de sua avó, já sem vida e com o rosto desfigurado. Ele, que durante a ação foi mantido em um quarto pelos criminosos , relatou ter ouvido a avó falar que os homens poderiam levar o que quisessem, por pensar que se tratava de um assalto.
O júri popular segue nesta terça-feira (14). Josevan Dionísio dos Santos, Sérgio Ferreira de Jesus e Ydney Carlos dos Santos de Jesus, serão julgados depois. Sérgio chegou a ser citado em alguns depoimentos, como alguém que também teria uma desavença com Mãe Bernadete, que o teria denunciado por extração ilegal de madeira no território. Ele é padrasto de Arielson.


