Por Elizabeth Souza
Pernambuco é o quarto estado brasileiro com a maior concentração indígena do país, representando uma população de 106.646 pessoas. Os dados são do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e detalham que nesta região existem 148 etnias e 55 línguas indígenas faladas. Entre elas, está a língua Yaathe, do povo Fulni-ô, a única do Nordeste que sobreviveu funcionalmente às políticas de extermínio provocadas pela colonização.
“Sem dúvida, manter o Yaathe vivo é uma das maiores formas de resistência do povo Fulni-ô pois são mais de 400 anos de contato com a sociedade não indígena”, aponta Awassury Araújo de Sá, de 41 anos, Pajé Fulni-ô e professor de língua Yaathe.
Essa resistência ancestral está profundamente ligada ao território e às práticas culturais que sustentam a identidade do povo, formado por uma população de 7.867 pessoas, que vive a cerca de 310 quilômetros da capital Recife (PE), no município de Águas Belas, Agreste pernambucano.
Cultura ancestral
Os Fulni-ô são bastante conhecidos pela sua cultura, tendo destaque o Toré, a dança da cafurna e o ritual sagrado Ouricuri. Realizado em um território de mesmo nome, esse ritual envolve a reclusão dos indígenas por um período de três meses, sendo um espaço sagrado restrito exclusivamente aos membros do próprio povo.
Para a realização do Ouricuri, um fator é preponderante: a língua Yaathe, que é utilizada durante todo o processo. Os Fulni-ô são considerados por muitos pesquisadores como o único grupo indígena do Nordeste que conseguiu manter viva a sua língua materna. “Entre todas [essas manifestações culturais], a língua ocupa um lugar central, sendo a principal base que dá sustentação aos demais, por ser o meio através do qual se transmitem os saberes, os rituais, a memória e a própria identidade coletiva”, explica Awassury Araújo de Sá.

Orgulho e respeito também apresentados pelo indígena Fulni-ô Ediraldo Ferreira de Sá Torres, de 40 anos. “O Yaathe é considerada uma língua única, ou seja, uma das línguas isoladas do ponto de vista linguístico. É usada em casa, atualmente na escola e sempre em rituais tradicionais.”
A resistência
A preservação do Yaathe está diretamente ligada a um processo histórico de união e resistência entre diferentes povos indígenas. Diante das ameaças de extermínio, grupos que compartilhavam o mesmo idioma (Fowkhlatsa, Fowla, Walkia Fuli e Karnijó) se articularam e deram origem ao povo Fulni-ô, tendo como propósito central manter viva sua língua. Ao longo desse processo, outros povos, como Xokó, Borbadás e Tapuia, também se integraram, mesmo possuindo línguas distintas, fortalecidos sobretudo pelos vínculos rituais e culturais.
Apesar dessa base histórica de fortalecimento coletivo, as transformações sociais ao longo do tempo passaram a impactar diretamente a transmissão da língua entre as gerações. “Até a década de 1960, o Yaathe ainda era a língua materna do povo, sendo a primeira língua falada pelas crianças. Contudo, com a chegada das escolas e da televisão, o português passou a ocupar um espaço maior no cotidiano”, destaca Awassury. Na década de 1980, explica ele, a preocupação aumentou entre os Fulni-ô ao perceberem que havia jovens que sequer compreendiam o Yaathe.
Foi nesse período que a mãe de Awassury, Marilena Araújo de Sá (1955-2024) – conhecida na língua Yaathe como Wadjá -, se tornou a primeira professora indígena do povo Fulni-ô.Ela realizou feitos históricos, como a criação do alfabeto Yaathe, a publicação da cartilha de alfabetização,em 1987, e a criação da Escola Bilíngue Antônio José Moreira – homenagem à liderança fulniô que desempenhou papel importante na preservação da língua materna -, que permanece em funcionamento, no município de Águas Belas.
“A nossa língua ainda é, predominantemente, de tradição oral, porém já não pode mais ser considerada ágrafa [aquela que não possui um sistema de escrita próprio]. Atualmente, a língua integra a grade curricular como disciplina obrigatória da Escola Bilíngue, o que fortalece sua transmissão entre as novas gerações”, observa o Pajé, que, seguindo o legado da mãe, também tem atuado pela preservação e aperfeiçoamento da escrita da língua Yaathe.
A singularidade linguística
“Hoje a escola vem sendo o centro base de fortalecimento e preservação da nossa língua”, reitera Ediraldo Ferreira de Sá, que detalha algumas de suas características. “Ela apresenta sons próprios e variações de pronúncia inexistentes no português, como ocorre com a letra H, que em muitos casos assume um som semelhante ao ‘RR’, como no inglês.”

Ao descrever o Yaathe, o Pajé Awassury conta que a língua se caracteriza por uma forte singularidade sonora, marcada por uma sonoridade própria e pela presença de “uma fonética gutural [sons produzidos na parte posterior da boca ou garganta] bastante perceptível”, elementos que a distinguem de outras línguas. Ele também ressalta sua estrutura aglutinante, em que diferentes elementos linguísticos se combinam na formação de palavras e frases, resultando em uma organização própria. “O Yaathe é a língua do povo Fulni-ô, e tão somente dele. Não há dados ou comprovação de similaridade direta com outras línguas indígenas, o que reforça ainda mais sua singularidade e identidade.”
Os desafios
Na contemporaneidade, a preservação do Yaathe segue atravessada por desafios significativos, especialmente diante dos efeitos da globalização. Segundo o Pajé Awassury, o acesso cada vez mais amplo à internet tem intensificado a exposição dos jovens a outras línguas e formas de comunicação, reduzindo os espaços de uso da língua indígena. Ele observa que o português passou a predominar em diversos contextos do cotidiano, como o trabalho, a escola e outros ambientes sociais, o que limita a circulação natural do Yaathe.
Perspectiva também apontada por Ediraldo. “Os desafios são cada vez mais fortes, pois o meio social que nos cerca não dá oportunidade para que sejamos como nós somos. Por exemplo, se a pessoa for formada em uma língua estrangeira, ela é reconhecida no mercado de trabalho, já uma língua originária do país, a pessoa não recebe o devido reconhecimento”, critica.
Diante desse cenário, o Pajé Awassury reforça que, embora existam desafios impostos pelo contexto contemporâneo, a continuidade do Yaathe encontra principal sustentação nos rituais sagrados, pois são integralmente conduzidos e ministrados em Yaathe. “Dessa forma, o ritual e a língua tornam-se interdependentes: um fortalece e sustenta o outro. A escola contribui para orientar o aprendizado, oferecendo a base e o tino necessários, e a prática efetiva da língua é vivida no cotidiano e, sobretudo, nos rituais, onde ela se manifesta de forma plena e significativa”, finaliza.


