Em parceria com o IPEAFRO, Inhotim sedia outro museu dentro de seu espaço com um programa de exposições previsto para os próximos dois anos. A primeira, com abertura prevista para dezembro, traz diálogo entre as obras de Tunga e Abdias Nascimento – amigos de longa data

Texto : Divulgação

Poeta, escritor, dramaturgo, curador, artista plástico, professor universitário, panafricanista e parlamentar, Abdias Nascimento (1914-2011), indicado oficialmente ao prêmio Nobel da Paz em 2010, teve uma longa trajetória trilhada no ativismo e na luta contra o racismo. Em 2021, ano que marca os dez anos da perda desse intelectual essencial para o pensamento brasileiro, Inhotim e IPEAFRO (Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros), instituição fundada por Abdias, o homenageiam com uma ação de longa duração, a ser realizada entre 4 de dezembro de 2021 até dezembro de 2023.

Pela primeira vez o Inhotim, localizado em Brumadinho (MG), sedia outro museu dentro de seu espaço e, em parceria com IPEAFRO, traz ao público o Museu de Arte Negra (MAN). O projeto foi idealizado pelo Teatro Experimental do Negro (TEM) sob a liderança de Abdias Nascimento no início dos anos 1950. Pensado para ser um “museu voltado para o futuro”, o MAN nasceu com o objetivo de “recolher e divulgar a obra de artistas negros, sem distinção de gênero, escola ou tendência estética, promovendo-se, assim, a documentação de sua criatividade, estimulando sua imaginação e invenção na ampla faixa de expressão plástica”, como bem explicou Abdias Nascimento em entrevista para o extinto Correio da Manhã (1968, acervo IPEAFRO).

A iniciativa traduz o desejo de Abdias Nascimento de desafiar os conceitos vigentes sobre a arte moderna, revelando sua relação com a estética africana. Além disso, procura apoiar e promover a produção de artistas negros de todo o mundo e enfrentar o racismo em suas dimensões estética e institucional.

Primeiro ato – “Abdias Nascimento, Tunga e o Museu de Arte Negra”

A exposição será dividida em quatro atos, cada um com duração de cerca de cinco meses. O primeiro ato, exibido a partir de 4 de dezembro, traz o diálogo entre a obra de Abdias, Tunga e o acervo do MAN em um espaço que remete às origens do Inhotim: a Galeria Mata, situada próximo à Galeria True Rouge, uma das primeiras da instituição e que expõe de forma permanente a instalação de título homônimo de Tunga.

Em entrevista para o jornal Correio da Manhã, em 1968, Tunga, então com 15 anos, afirmava que a arte negra exercia grande influência em sua obra. “Para mim, a arte negra foi a primeira a romper os grilhões das saturadas imagens renascentistas”, disse o jovem que, na época, já doava trabalhos à coleção Museu de Arte Negra.

Tunga cresceu convivendo com Abdias. Ele era filho de Gerardo Mello Mourão, poeta que, na década de 1930, fez parte da Santa Hermandad Orquídea ao lado de Abdias Nascimento e outros escritores.

Foto: Tunga (de frente) e o filho de Abdias Nascimento, Bida, experimentando arte. Na imagem também é possível identificar a pintura de Tunga guardada por mais de 50 por Abdias Nascimento que fez parte da coleção MAN. Nota: o texto da reportagem que acompanha a foto, se refere à Tunga como “Dunga”. Correio da Manhã, 1968. Acervo IPEAFRO

A curadoria feita a quatro mãos – Inhotim e IPEAFRO – reuniu para este primeiro ato pinturas, desenhos, fotografias e instalações que evidenciam o diálogo e a conexão artística entre Tunga e Abdias.

Entre as obras apresentadas estão: o quadro pintado por Tunga em 1967, aos 15 anos, para o acervo do MAN; Invocação Noturna ao Poeta Gerardo Mello Mourão: Oxóssi (1972), pintura que Abdias fez em homenagem ao amigo Gerardo e à memória dos poetas da Santa Hermandad Orquídea; e a instalação Toro Condensed; Toro Expanded (1983 – 2012), na qual Tunga traz a ideia de movimento contínuo e alude a metáforas de desenvolvimento, como o ciclo da vida, que faz parte da mitologia afro-brasileira.

“Amigos de longa data, Tunga e Abdias abrem espaço para o Museu de Arte Negra, e para os próximos atos desse projeto. Cosmogonias, tradição e ancestralidade conduzem os caminhos neste encontro de mundos”, diz Douglas de Freitas, curador do Inhotim.

A coleção Museu de Arte Negra ganhou forma sendo composta por pinturas, desenhos, gravuras, fotografias, esculturas, dentre outras, numa pluralidade de suportes e técnicas. “Da curadoria dessa coleção e da convivência com o artista Sebastião Januário em um pequeno apartamento no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, surgiu a ‘aventura pictórica’ de Abdias Nascimento (assim ele se referiu à sua própria produção artística)”, afirma Julio Menezes Silva, coordenador do projeto Museu de Arte Negra do IPEAFRO no ambiente virtual.

Funcionamento

O Instituto Inhotim está funcionando de quinta-feira a domingo e em feriados, com capacidade para mil visitantes por dia. A entrada é gratuita em toda última sexta-feira do mês, exceto em feriados, com o mesmo limite de público. A compra e retirada de ingresso é realizada exclusivamente online e com antecedência, pela Sympla. Em função dos protocolos de saúde, vale lembrar que não está sendo feita operação de venda de entradas na bilheteria do museu.

Os protocolos de saúde estabelecidos no Inhotim, como o uso obrigatório de máscara, por funcionários e visitantes, displays de álcool em gel distribuídos pelo parque e distanciamento entre as mesas nos pontos de alimentação, seguem em vigência.

Serviço:

Museu de Arte Negra – Primeiro ato: Abdias Nascimento e Tunga

Período expositivo: 4 de dezembro de 2021 a 10 de abril de 2022

Local: Galeria Mata | Instituto Inhotim

Visitação: de quinta a sexta-feira, das 9h30 às 16h30; e aos sábados, domingos e feriados, das 9h30 às 17h30

Ingressos: R$ 22 (meia) e R$ 44 (inteira) no Sympla

*Entrada gratuita na última sexta-feira de cada mês, exceto feriados, mediante retirada prévia através do Sympla

***Moradores de Brumadinho cadastrados no programa Nosso Inhotim e Amigos do Inhotim também possuem entrada franca

Imagem de Destaque: Abdias Nascimento, Invocação noturna ao Poeta Gerardo Mello Mourão Oxóssi, 1972 | Tunga, sem título,1967, tinta plástica sobre tela. Obra doada pelo artista ao acervo do MAN quando tinha apenas 15 anos.
Coleção Instituto Inhotim | Abdias Nascimento, Exu Dambalah n.º 2, 1973