Por Patrícia Rosa*
Policiais militares envolvidos na morte de um jovem negro, de 19 anos, foram gravados pelas Câmeras Operacionais Portáteis (COPs) discutindo a versão que apresentariam na delegacia sobre o caso.
O crime aconteceu na comunidade Parque Esperança, no Complexo do Chapadão, no Rio de Janeiro (RJ). Na manhã do dia 23 de maio de 2024, o estudante Daniel da Costa Ferraz morreu no caminho para a escola. O adolescente foi morto a tiros no dia do aniversário da mãe. Segundo relatos dos familiares, ele passava próximo de uma barricada quando foi atingido.
Como costuma acontecer nesses casos, os agentes declararam que equipes da Polícia Militar do 41º Batalhão de Irajá teriam sido atacadas por criminosos armados, o que teria gerado confronto.
A GloboNews teve acesso às gravações das câmeras dos agentes, divulgadas na última sexta-feira (22). Os equipamentos foram deixados ligados no batalhão. Os agentes colocaram as câmeras apenas no retorno da ação e, no trajeto para a delegacia, os dispositivos registraram a conversa entre os policiais.
“Claro que não, cara. Um moleque tomou três e o outro tomou um. Foram quatro tiros, pô. Na cabeça foi um só, mas não é muito tiro, cara. Já não botamos o carregador cheio? Ou então eu falo que tava fazendo a segurança e atirei também. Não pode falar que nós dois atiramos nos caras, senão vão apreender dois fuzis. Não pode falar que os dois pegaram, senão vai apreender”, afirmou um dos PM’s.
Já na delegacia, a câmera registrou o depoimento dos agentes. Um dos envolvidos se referiu aos jovens atingidos na ação como traficantes. Em depoimento, o agente afirmou que o jovem morto na operação portava drogas e um revólver calibre 38.
“Tem um morto e outro baleado no hospital. Os dois foram socorridos, um faleceu agora. Tem droga, um 38, uma granada. O que morreu estava com o 38, o que está baleado ainda estava com a mochila, a granada e a carga. O que faleceu estava com o 38 só.”
Segundo informações da Polícia Civil do Rio de Janeiro, as investigações do caso estão sob responsabilidade da 31ª DP (Ricardo de Albuquerque) e são acompanhadas pelo Ministério Público do Estado.
À CNN Brasil, a Polícia Militar confirmou o uso inadequado das câmeras corporais individuais pelos policiais envolvidos na operação que resultou na morte do jovem. O caso foi encaminhado para a Auditoria da Justiça Militar do Estado do Rio de Janeiro (AJMERJ), e a conduta dos policiais foi categorizada como transgressão de natureza grave.
A morte de Daniel integra o alto número de vítimas fatais em operações policiais no Rio de Janeiro. Dados do Relatório Pele Alvo do Instituto Fogo Cruzado, apontam que em 2024 foram registradas 703 mortes em meio a intervenções policiais no estado do Rio de Janeiro. Do total de vítimas, 407 vítimas eram jovens com idades entre 12 e 29 anos.
*Com informações da CNN Brasil e Globo News


