A deputada estadual divulgou o caso em uma carta aberta onde atribui sua atuação no caso da ação policial em Varginha como possível motivação

Por Andressa Franco

Imagem: Daniel Protzner

Em carta aberta divulgada na noite desta quarta-feira (3), a deputada estadual em Minas Gerais, Andréia de Jesus (PSOL), 43 anos, relatou ter sido ameaçada. Em suas redes socais, a presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), compartilhou a mensagem que recebeu no celular: “Vamo lhe matar. Seu fim será como o de Marielle Franco”.

A parlamentar criticou uma ação policial em Varginha, no Sul de Minas Gerais, que causou 26 mortes no último domingo (31), e vem cobrando a abertura de uma investigação transparente a respeito do ocorrido. Ela também disse que a comissão iria emitir ofícios para órgãos como a PM e a PRF para entender melhor como o caso aconteceu.

“Como é de praxe em situações similares, a Comissão acolheu a denúncia e eu tornei público o ocorrido. Em seguida, todas as minhas redes sociais foram invadidas por extremistas distorcendo a minha fala, com comentários de ódio e desrespeito. E por fim ameaças contra a minha vida!”, diz um trecho da carta aberta.

Andréia acrescentou ainda que “não é fácil atuar com direitos humanos em uma conjuntura de desmonte das políticas públicas, de redução do debate político a meme e da violência institucional sistemática contra mulheres”. A Polícia Legislativa da ALMG acionou a Polícia Civil, fez um Boletim de Ocorrência e desde então deu início ao procedimento de adesão à escolta policial.

Nesta quinta-feira (4), a deputada esteve na delegacia de crimes virtuais, para encaminhamento dos discursos violentos, das ameaças à sua integridade física contra a sua vida.

Em coletiva de imprensa durante à tarde, afirmou que foram apurados 35 perfis que a atacaram nas redes sociais. Muitas de cunho racista, além de ameaças também à sua família. Três desses perfis afirmavam que irão matar a deputada da mesma forma que Marielle Franco foi morta. A deputada ressaltou que o trabalho da Comissão dos Direitos Humanos da ALMG não vai parar.

A Polícia Civil de Minas Gerais afirmou que instaurou inquérito policial para apurar as ameaças virtuais, bem como as circunstâncias, a motivação e a autoria do crime. Informou ainda que a investigação tramita sob sigilo, na Delegacia Especializada em Investigação de Crimes Cibernéticos, em Belo Horizonte.

Através das redes sociais, Andréia recebeu apoio de movimentos sociais, coletivos e vereadoras e deputadas. As Parlamentares Negras do PSOL emitiram um manifesto de todo Brasil em solidariedade, cobrando das autoridades responsáveis “imediatas investigações e responsabilização dos envolvidos em mais esse caso escandaloso de violência política contra uma mulher negra democraticamente eleita”.

Casos semelhantes

Em 2020, informações da Agência Câmara de Notícias mostram que, nas últimas eleições, 6,3% das cadeiras nas Câmaras Municipais pelo país foram para mulheres negras. Curitiba, Vitória e Goiânia, por exemplo, elegeram suas primeiras vereadoras negras. No Congresso Nacional, esse grupo representa apenas 2%, e são menos de 1% na Câmara dos Deputados.

Nesse cenário, ameaças às vidas dessas parlamentares negras não podem ser consideradas casos isolados. Em maio deste ano, a assessoria parlamentar da vereadora Benny Briolly (PSOL-RJ) publicou comunicado nas redes sociais, informando que a vereadora passaria um tempo fora do país para se proteger das ameaças de morte que recebeu.

Durante uma live para debater a imbricação do racismo e sexismo com a violência política e eleitoral no Brasil e as possíveis estratégias de enfrentamento em março deste ano, a vereadora Erika Hilton (PSOL – São Paulo) lembrou das tentativas de invasão ao seu gabinete dentro da Câmara Municipal de São Paulo. Ela afirmou ver esses ataques como tentativas de fazer corpos como os que representa não se sentirem pertencentes e legítimos naquele espaço. A vereadora afirmou ainda, que pesar de não se intimidarem, estão atentas às suas seguranças.

Durante e após as eleições de 2018, o aumento de casos de violência política foi expressivo, o período coincide com a ascensão de políticos de extrema direita em cargos de poder no país. Nesse cenário, outro caso conhecido, foi o de Ana Lúcia Martins (PT – Joinville), primeira vereadora negra de Joinville, município de Santa Catarina, que sofreu ataques racistas e machistas ao ser eleita, além de ameaças de morte.

No último dia 20 de outubro, um grupo de pessoas invadiu a Câmara dos Vereadores de Porto Alegre (RS) com cartazes, um deles com símbolos de uma suástica nazista. Durante a ação, um mulher branca aparece usando máscara com a bandeira do Brasil e camisa com a frase “Liberdade não se ganha, toma”, e se dirige exaltada às únicas três vereadoras negras da casa repetindo: “Eu sou o povo, tu é minha empregada!”.