Por Luana Miranda
Na última quinta-feira (14), o Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em Cachoeira (BA), foi palco do lançamento do livro “Reparação: memória e reconhecimento“. A obra apresenta um panorama das consequências da escravização de povos africanos na diáspora e aponta caminhos concretos para uma reparação histórica.
Com organização da historiadora, Luciana da Cruz Brito, o livro trás textos de uma série de autoras/es negras/os, com trabalhos que dialogam diretamente com a temática abordada. Valdecir Nascimento, Conceição Evaristo, Nego Bispo, Ana Maria Gonçalves, são alguns dos nomes que compuseram a obra.
O evento contou com um dia completo de programação, incluindo mesas de conversas, apresentações e exibições artísticas. A abertura ficou por conta de Cici de Oxalá, contadora de histórias afro-brasileiras, que deu o tom do evento. O som de três atabaques foram trilha das narrativas que transportaram o público para a dimensão dos sonhos e fabulações.
Vovó Cici, como é popularmente conhecida, narrou sobre sua passagem pela Etiópia, único país da África que não foi colonizado por europeus; relembrou sua viagem ao Benin, e a emoção que sentiu ao pisar na terra vermelha e lembrar de Cachoeira. Contou itans de Ogum, senhor do ferro e das técnicas, de Iemanjá, rainha das águas. “A gente tem tudo que faz o mundo, mas a cabeça, por incrível que pareça, Cici aprendeu dentro do culto dos orixás.”
Em seguida, o poeta Giovane Sobrevivente declamou a plenos pulmões, versos ritmados que retrataram o enfrentamento ao racismo no Brasil.
A mediação entre o público e Luciana Brito ficou por conta da escritora, Camila Carmo. Luciana Brito relembrou a origem do livro, que foi resultado de um seminário realizado no Rio de Janeiro, em 2023. Ela foi convidada pelo Instituto Ibirapitanga para fazer a co-curadoria de um seminário que tratasse sobre reparação. E 22 anos depois da Conferência de Durban, foram convidados intelectuais, ativistas e pessoas dedicadas à preservação da memória para discutir reparação.
Para a organizadora, pensar na questão da memória é algo crucial para a democracia e justiça social no Brasil, principalmente para a manutenção de direitos já adquiridos que são constantemente atacados pelos discursos conservadores. “Há um movimento político forte nesse país de destruir essas políticas que já temos, e a memória é fundamental na medida em que a população negra organizada diz nós merecemos isso porque somos vítimas sistemáticas de políticas de produção de desigualdade, horror, humilhação e pobreza”, afirmou Luciana.
A programação da tarde seguiu com mais uma mesa de conversa para discutir reparação e repatriação, e mais um lançamento do livro “Mulheres que amam assombradas”, da escritora Sandra Liss, que foi mediado pela própria Luciana Brito. O final do evento foi regado de música e acarajé, ao som do famoso saxofone de Suely, musicista e baiana de acarajé.


